{"id":359762,"date":"2025-08-01T02:00:58","date_gmt":"2025-08-01T05:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359762"},"modified":"2025-08-01T02:00:58","modified_gmt":"2025-08-01T05:00:58","slug":"quando-aqueles-dois-desconhecidos-se-encontraram-o-bate-papo-foi-inevitavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-aqueles-dois-desconhecidos-se-encontraram-o-bate-papo-foi-inevitavel\/","title":{"rendered":"Quando aqueles dois desconhecidos se encontraram, o bate-papo foi inevit\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Aconteceu num ponto de \u00f4nibus em Bras\u00edlia, quando aqueles dois desconhecidos se encontraram. O bate-papo foi inevit\u00e1vel, j\u00e1 que a espera seria longa.<\/p>\n<p>Alceb\u00edades. Conheceu? Um tipo quase comum que andou por aqui, caso n\u00e3o fosse por uma ou outra surpresa que provocava nos que lidavam com o sujeito. \u00c0s vezes t\u00edmido, era capaz de certos atrevimentos. N\u00e3o que fosse indecente, mesmo porque, at\u00e9 onde me consta, era fiel \u00e0 eterna noiva. Luciana, bela mulher, dona dum sorriso improv\u00e1vel diante de desconhecidos.<\/p>\n<p>Um metro e sessenta e cinco, n\u00e3o passava disso. Talvez menos, e n\u00e3o gostava de usar subterf\u00fagios para parecer mais alto. N\u00e3o que chegasse a ser o dono do peda\u00e7o, mas carregava certa confian\u00e7a impr\u00f3pria nos de sua estirpe. Mero motorista de t\u00e1xi, como tantos outros por a\u00ed. Aquele bigodinho aparado com esmero, o providencial pente no bolso da camisa, cal\u00e7a tergal, sapatos baratos do dia a dia. N\u00e3o o culpo, a vida naquele tempo era dura, infla\u00e7\u00e3o \u00e0s alturas, a censura&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea se lembra, n\u00e9? N\u00e3o se podia falar nada, que era capaz de te levar pra n\u00e3o sei onde, e nunca mais ningu\u00e9m saberia de voc\u00ea. E ningu\u00e9m perguntava, pois perigava sumir tamb\u00e9m. Mas era um tempo bom, do pra frente, Brasil. E t\u00ednhamos Pel\u00e9, Gerson e o Furac\u00e3o, sem falar daquele craca\u00e7o que era o Tost\u00e3o. Eita, mineirinho que sabia fazer gol. Pena que parou de jogar t\u00e3o cedo. Ou parava ou, ent\u00e3o, poderia at\u00e9 ficar cego. Lembra?<\/p>\n<p>Ih, \u00e9 mesmo! O papo t\u00e1 t\u00e3o bom, que at\u00e9 me esqueci do Alceb\u00edades. Bom sujeito. Sabe, daquele tipo calad\u00e3o, que falava apenas o necess\u00e1rio ou nem isso. Meu amigo, nem sei por que ele me veio \u00e0 cabe\u00e7a agora. Nem \u00e9ramos amigos. Quer dizer, a gente tinha boa conviv\u00eancia, se conhecia, como quase todo mundo naquela \u00e9poca. Isso aqui era puro barro. Barro vermelho, como voc\u00ea sabe, n\u00e9?<\/p>\n<p>N\u00e3o? O senhor n\u00e3o \u00e9 daqui da capital? Bem que percebi pelo sotaque. Aposto que \u00e9 do Rio de Janeiro. Adoro esse modo dos cariocas falarem. Voc\u00ea acredita que ainda n\u00e3o conhe\u00e7o o Rio de Janeiro, meu amigo? Pois \u00e9, conhe\u00e7o s\u00f3 das novelas. Quantas praias lindas, n\u00e9? Olha eu aqui me esquecendo do Alceb\u00edades de novo.<\/p>\n<p>Gente fin\u00edssima, mas que chegava a causar aquela coisa&#8230; Como \u00e9 que posso dizer? Certo desconforto por algumas coisas que falava. Se bem que, na maior parte do tempo, era calado. Sem contar que, de vez em quando, desaparecia por um tempo. Depois voltava e, dois, tr\u00eas meses depois voltava a desaparecer.<\/p>\n<p>Quando retornava, os colegas do ponto de t\u00e1xi&#8230; Havia um ponto de t\u00e1xi bem ali pr\u00f3ximo \u00e0 W3, mas n\u00e3o existe mais. Pois \u00e9, o Alceb\u00edades parava o Fusca dele ali. Naquele tempo era muito comum taxista com Fusca. Hoje virou carro de colecionador. Como tem doido por a\u00ed, n\u00e9, meu amigo?<\/p>\n<p>Voc\u00ea gosta de Fusca? Ah, \u00e9 um autom\u00f3vel bonito, carrega tradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que digo pra minha patroa sempre: &#8220;Adalgiza, um dia ainda vou ter um Fusca!&#8221; O qu\u00ea? Voc\u00ea n\u00e3o tem um Fusca? Mas quer ter, n\u00e9? N\u00e3o? Ah, prefere o carro novo? \u00c9 melhor, n\u00e9? Carro velho s\u00f3 d\u00e1 problema.<\/p>\n<p>Olha aqui eu desviando a conversa de novo, meu amigo. Pois \u00e9, o Alceb\u00edades era um tipo esquisito. Esquisit\u00edssimo, por sinal. Sempre que aparecia l\u00e1 no ponto de t\u00e1xi, os colegas iam falar com ele.<\/p>\n<p>Mas por que voc\u00ea sumiu, Alceb\u00edades? At\u00e9 parece que n\u00e3o gosta da gente.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, voc\u00eas s\u00e3o maravilhosos, mas evit\u00e1-los \u00e9 melhor.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, meu amigo. Pra voc\u00ea ver! O Alceb\u00edades era um tipo esquisito pra l\u00e1 de metro. N\u00e9?<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong>\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/16.0.1\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu num ponto de \u00f4nibus em Bras\u00edlia, quando aqueles dois desconhecidos se encontraram. O bate-papo foi inevit\u00e1vel, j\u00e1 que a espera seria longa. Alceb\u00edades. Conheceu? 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