{"id":359767,"date":"2025-08-01T00:32:07","date_gmt":"2025-08-01T03:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359767"},"modified":"2025-08-01T00:32:07","modified_gmt":"2025-08-01T03:32:07","slug":"entre-curvas-da-estrada-dos-corpos-e-lembrancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entre-curvas-da-estrada-dos-corpos-e-lembrancas\/","title":{"rendered":"Entre curvas da estrada, dos corpos e lembran\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>A aventura, um tanto ut\u00f3pica, come\u00e7ou a ser desenhada na semana anterior, quando Gibran recebeu uma mensagem de WhatsApp no notebook que costuma usar para escrever &#8211; como ele sup\u00f5e -, textos ic\u00f4nicos, como se um Homero fosse. A remetente, uma amiga de velha data. A proposta, uma viagem-surpresa cortando praticamente o Brasil de ponta a ponta.<\/p>\n<p>Agora o cen\u00e1rio j\u00e1 era outro. O sed\u00e3 negro cortava a neblina da manh\u00e3 como um velho lobo do asfalto. Com os cabelos prateados e os olhos fixos no horizonte, ele deixava para tr\u00e1s o litoral de Pernambuco. A praia ainda exalava maresia quando um sonho sempre sonhado enfim se apresentava \u00e0 sua frente nas mais diferentes matizes. Florian\u00f3polis o chamava com seu misto de brisa fria e promessas guardadas.<\/p>\n<p>Dirigia como quem pensa. Cada quil\u00f4metro uma lembran\u00e7a, cada curva um suspiro. Na Bahia, sem aviso ao GPS ou ao cora\u00e7\u00e3o, desviou o curso. Deixou o azul do Atl\u00e2ntico e mergulhou nas terras de Minas, onde o tempo anda mais devagar e as hist\u00f3rias se conservam em barris de carvalho. Em Salinas, comprou uma caixa de aguardente, daquelas que ardem na boca e esquentam a alma.<\/p>\n<p>Logo depois, em uma cidade vizinha, embarcou Bi@. Ela, com os cabelos reluzentes de uma Lua Nova, sorriu ao v\u00ea-lo. Os anos n\u00e3o apagaram nada entre eles. Nem os risos, nem os sil\u00eancios.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea ainda dirige como se fosse fugir do tempo \u2014 disse ela, entrando no carro sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Reencontraram-se como quem apenas retomasse uma conversa deixada em suspenso. Tinham se conhecido em Bras\u00edlia, quando a vida era feita de compromissos e utopias. O reencontro, no entanto, nascera em um chat de bate-papo, onde as palavras vinham leves, fluidas. Primeiro, no aberto. Depois, no reservado, entre confiss\u00f5es e desejos, entre len\u00e7\u00f3is que s\u00f3 existiam na imagina\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O motor do carro roncava rumo ao Esp\u00edrito Santo. A estrada, ladeada por florestas espessas, parecia guardar segredos de outras eras. \u00c0 noite, paravam apenas para descansar e brindar com um gole da cacha\u00e7a rec\u00e9m-comprada.<\/p>\n<p>Dois dias depois, j\u00e1 em solo catarinense, o carro estacionava discreto diante do Restaurante 261. Gibran e Bi@ desceram devagar, como quem pisa em solo sagrado. Gutta, a amiga virtual, n\u00e3o esperava aquela apari\u00e7\u00e3o s\u00fabita. Trabalhava ali, entre panelas e sorrisos, servindo del\u00edcias preparadas por Fernando Gomes, chef de alma inventiva, e Gabrielle, a esposa e s\u00f3cia, economista de n\u00fameros e temperos equilibrados.<\/p>\n<p>&#8211; Trouxemos isso pra voc\u00ea, Gutta \u2014 disse Bi@, entregando a caixa de cacha\u00e7a como um presente ancestral. \u2014 \u00c9 pra aquecer no frio desta terra.<\/p>\n<p>Gutta riu, abra\u00e7ando os dois com emo\u00e7\u00e3o genu\u00edna.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tamb\u00e9m servimos vinhos que aquecem o corpo e a alma, disse, brindando o momento com um doce sorriso.<\/p>\n<p>O riso foi geral. Sentaram-se \u00e0 mesa com a cumplicidade dos que j\u00e1 viveram muito \u2014 e n\u00e3o t\u00eam mais pressa. Gibran, de olhos no card\u00e1pio, pediu um Bacalhau \u00e0s Natas. Bi@ escolheu um Camar\u00e3o ao Dijon, como quem degusta mem\u00f3rias. O vinho branco chegou \u00e0 mesa como brinde ao encontro presencial de amigos que s\u00f3 se conheciam no mundo virtual.<\/p>\n<p>Naquela noite, o frio de Florian\u00f3polis se curvou ao calor das lembran\u00e7as. E Gibran, ao erguer a ta\u00e7a, n\u00e3o brindou apenas ao presente, mas \u00e0queles caminhos que o levaram at\u00e9 ali \u2014 cheios de curvas, aromas, palavras digitadas e sil\u00eancios partilhados.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, o sol p\u00e1lido de Florian\u00f3polis mal se insinuava entre as nuvens quando Gibran e Bi@ acordaram tarde, embalados pelo cansa\u00e7o da viagem e pelo vinho da noite anterior. A pousada onde se hospedaram era simples, mas cheirava a lenha e caf\u00e9 passado na hora. A vista do quarto abria-se para um fiapo de mar, azul e t\u00edmido como quem espreita a vida alheia.<\/p>\n<p>Enquanto Bi@ penteava os cabelos diante do espelho \u2014 \u201co tempo me respeita, Gibran\u201d \u2014 ele conectou o notebook ao Wi-Fi da pousada e entrou na velha sala de bate-papo: EntreLinhas_Amor&amp;Mem\u00f3ria. Era um ref\u00fagio antigo, mas ainda pulsava.<\/p>\n<p>O login autom\u00e1tico trouxe o velho nick de volta: Caf\u00e9ComBrumas. Logo surgiram nicks conhecidos na lateral da tela:<br \/>\nLuaMadura, PoemaSolto, VinhedoSecreto, FlorDeEstio, PianistaCega, AzulTel\u00farico&#8230; E no canto superior, l\u00e1 estava ela: Bi@, j\u00e1 online, digitando.<\/p>\n<p>A janela do reservado pipocou antes mesmo de Gibran dar um bom dia.<\/p>\n<p>FlorDeEstio:<\/p>\n<p>&#8211; Gibran? Isso \u00e9 verdade mesmo ou \u00e9 s\u00f3 roleplay po\u00e9tico? Voc\u00ea e Bi@ juntos em Floripa?<\/p>\n<p>VinhedoSecreto:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o dizendo que voc\u00ea apareceu no 261 com uma caixa de Salinas! Que decad\u00eancia refinada! &#x1f602;<\/p>\n<p>LuaMadura:<\/p>\n<p>&#8211; Eu vi no status da Gutta! Voc\u00eas foram mesmo at\u00e9 l\u00e1? Isso \u00e9 filme, n\u00e3o \u00e9 vida!<\/p>\n<p>Gibran sorriu. Respondeu com calma, como sempre fazia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 filme. \u00c9 estrada. \u00c9 reencontro. \u00c9 saudade com GPS. A vida se abriu pra n\u00f3s feito curva de serra em tarde de neblina.<\/p>\n<p>Bi@:<\/p>\n<p>&#8211; E teve vinho branco, camar\u00e3o, bacalhau. Mas o melhor foi o riso de Gutta quando entreguei a caixa de cacha\u00e7a. Aquilo foi abra\u00e7o engarrafado.<\/p>\n<p>PianistaCega:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas sempre foram assim&#8230; melodram\u00e1ticos e doces. Lembro de voc\u00eas nos debates sobre o tempo e a aus\u00eancia. Agora est\u00e3o a\u00ed, virando aus\u00eancia em presen\u00e7a. &#x1f49c;<\/p>\n<p>AzulTel\u00farico:<\/p>\n<p>&#8211; Isso me d\u00e1 esperan\u00e7a. Estou com meu sed\u00e3 na garagem e um mapa aberto. Talvez precise de uma Bi@ no banco do carona tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Gutta entrou na sala:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, \u00e9 tudo verdade. Eles chegaram como um poema na contracapa da vida. E deixaram saudades antes mesmo de irem embora. Ainda ou\u00e7o o tilintar das ta\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>PoemaSolto:<\/p>\n<p>&#8211; E pensar que tudo come\u00e7ou numa discuss\u00e3o sobre Neruda e a eternidade. Voc\u00eas fizeram poesia virar rota. Agora quero cr\u00f4nica com voc\u00eas de protagonistas!<\/p>\n<p>A sala vibrou. Como nos velhos tempos, emojis piscavam, frases voavam r\u00e1pidas, e at\u00e9 a velha playlist compartilhada \u2014 com Gal Costa, Belchior e Caetano \u2014 ressuscitou no canto da tela.<\/p>\n<p>Gibran fechou o notebook por um momento e olhou para Bi@, que agora terminava de prender os cabelos num coque despretensioso.<\/p>\n<p>\u2014 A sala est\u00e1 viva, Bi@. Eles acreditam.<\/p>\n<p>Ela riu, estalando os dedos como quem sela um feiti\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 porque a gente acreditou primeiro, Gibran. Agora bora pegar a estrada de novo. Ainda h\u00e1 curvas que n\u00e3o lembramos, mas que j\u00e1 nos esperam.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, o sed\u00e3 de Gibran cruzava a ponte Herc\u00edlio Luz como quem atravessa n\u00e3o s\u00f3 o mar, mas o tempo. Florian\u00f3polis ficava para tr\u00e1s, com seu vento frio e suas promessas cumpridas. No porta-malas, tr\u00eas garrafas de Salinas a menos. No cora\u00e7\u00e3o, uma leveza inquieta.<\/p>\n<p>\u2014 Pr\u00f3xima parada: Santana do Livramento \u2014 disse Bi@, lendo o GPS com a voz adormecida.<\/p>\n<p>\u2014 Fronteira. Terra de vinhos e sil\u00eancios longos \u2014 murmurou Gibran, ajustando os \u00f3culos escuros.<\/p>\n<p>\u2014 E de DonCortejo, lembra dele? Vive dizendo no chat que tem uma vin\u00edcola, mas ningu\u00e9m nunca sabe se \u00e9 verdade ou fantasia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 tem um jeito de saber.<\/p>\n<p>O carro mergulhou rumo ao interior ga\u00facho, entre campos ondulados, arauc\u00e1rias solit\u00e1rias e vilarejos onde o tempo parece pedir licen\u00e7a para passar. Na playlist, Mercedes Sosa embalava as conversas que iam e vinham como os fios de cabelo de Bi@, soltos ao vento da janela entreaberta.<\/p>\n<p>No meio da tarde, o celular vibrou com uma mensagem privada no bate-papo.<\/p>\n<p>DonCortejo:<\/p>\n<p>&#8211; Me avisem quando passarem por Ros\u00e1rio do Sul. A vin\u00edcola \u00e9 real. Mas a lenda sou eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ele est\u00e1 nos esperando \u2014 disse Gibran, entre um riso e uma freada suave na descida.<\/p>\n<p>Chegaram ao entardecer. A vin\u00edcola era modesta, mas po\u00e9tica. Parreirais a perder de vista, barris empilhados como livros de madeira, e um aroma de uvas esmagadas no ar.<\/p>\n<p>DonCortejo era um homem esguio, de barba branca bem aparada e olhos de quem j\u00e1 leu muitos invernos. Recebeu os dois com um abra\u00e7o demorado e um c\u00e1lice de tinto seco.<\/p>\n<p>&#8211; Gibran, Bi@&#8230; quando entrei naquela sala h\u00e1 10 anos, nunca imaginei que um dia abriria as portas da minha vida para voc\u00eas. E olha que nem precisou de senha.<\/p>\n<p>&#8211; O amor n\u00e3o precisa de login, Cortejo \u2014 respondeu Bi@, com um sorriso.<\/p>\n<p>Sentaram-se \u00e0 mesa de madeira r\u00fastica, onde tr\u00eas ta\u00e7as foram preenchidas com um merlot envelhecido, safra 2015 \u2014 o mesmo ano em que a sala de bate-papo fora criada.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas s\u00e3o os primeiros a me visitar. A maioria vive de saudade virtual. Voc\u00eas, n\u00e3o. Voc\u00eas s\u00e3o estrada, poeira e vinho.<\/p>\n<p>Ficaram ali at\u00e9 a noite se instalar. O c\u00e9u sulino se curvou sobre eles como um manto de veludo escuro, pontilhado de estrelas. Gibran puxou do bolso um papel antigo, dobrado em quatro. Era a impress\u00e3o de uma conversa que tivera com Bi@, anos atr\u00e1s, num dos invernos de solid\u00e3o digital:<\/p>\n<p>Caf\u00e9ComBrumas: Se um dia te encontrar, Bi@, que seja numa estrada fria, com vinho bom, palavras quentes e sil\u00eancio confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Bi@: E que tenha algu\u00e9m que nos chame pelo nick, e n\u00e3o pelo nome de batismo.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estamos, Bi@. No frio, com vinho e com Cortejo.<\/p>\n<p>Ela respondeu apenas com um beijo breve no canto da boca dele. Sil\u00eancio confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mais tarde, voltaram \u00e0 sala de bate-papo para contar. Como sempre, a como\u00e7\u00e3o foi imediata:<\/p>\n<p>PianistaCega:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas est\u00e3o virando cr\u00f4nica semanal. J\u00e1 posso reservar os direitos autorais?<\/p>\n<p>LuaMadura:<\/p>\n<p>&#8211; Gibran, se fizerem um filme, quero ser a roteirista.<\/p>\n<p>FlorDeEstio:<\/p>\n<p>&#8211; Bi@, voc\u00ea \u00e9 um esc\u00e2ndalo de vida vivida.<\/p>\n<p>DonCortejo:<\/p>\n<p>Essa noite, o vinho dorme mais feliz. E eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Gibran e Bi@ trocaram olhares. Sabiam que logo voltariam para o mundo virtual, mas com a certeza de que o lado real existe.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aventura, um tanto ut\u00f3pica, come\u00e7ou a ser desenhada na semana anterior, quando Gibran recebeu uma mensagem de WhatsApp no notebook que costuma usar para escrever &#8211; como ele sup\u00f5e -, textos ic\u00f4nicos, como se um Homero fosse. A remetente, uma amiga de velha data. 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