{"id":360127,"date":"2025-08-08T04:00:35","date_gmt":"2025-08-08T07:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360127"},"modified":"2025-08-05T23:16:42","modified_gmt":"2025-08-06T02:16:42","slug":"a-lampada-e-o-sapatinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-lampada-e-o-sapatinho\/","title":{"rendered":"A L\u00e2mpada e o Sapatinho"},"content":{"rendered":"<p>Entrei naquela pequena loja de ferragens, materiais de constru\u00e7\u00e3o, ferramentas e outras variedades de casa apenas para comprar uma l\u00e2mpada. Prosaica l\u00e2mpada de 90 watts para instalar no bocal perto da escada que, escura ontem \u00e0 noite, quase me fizera trope\u00e7ar. Deu raiva. Vasculhei em casa, n\u00e3o achara nenhuma. Fui tomado por uma pregui\u00e7a imensa, vontade de n\u00e3o ir na rua, de tirar outra l\u00e2mpada de um ponto da casa onde n\u00e3o precisasse tanto de luz e colocar ali, justo onde eu passo toda hora e uma queda de tal altura pode ser fatal. Pensando na possibilidade terr\u00edvel, finalmente venci a ina\u00e7\u00e3o e, corajosamente, sa\u00ed de casa em demanda da bendita l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>Mal observava as coisas no caminho, andava maquinalmente, absorto em pensamentos, injuriado porque o filamento rompido me havia feito compartilhar for\u00e7adamente o espa\u00e7o p\u00fablico com aqueles transeuntes an\u00f4nimos e atrevidamente desconhecidos. Mas fui, corajosamente, at\u00e9 chegar ao estabelecimento no qual, certamente, havia dezenas, centenas ou mais l\u00e2mpadas. Era apenas o caso de comprar uma e voltar rapidamente para o sacrossanto rec\u00f4ndito do lar.<\/p>\n<p>A loja, de um espanhol, era antiga e possu\u00eda apenas uma porta, alta, rematada em arco. E tinha esse cheiro peculiar das lojas antigas, n\u00e3o importa o que vendam, parecendo madeira de balc\u00e3o, misturada com poeira e cantos bagun\u00e7ados. O espa\u00e7o para os fregueses, em frente a esse balc\u00e3o, era apertado, e cheio de produtos empilhados em ambos os lados. Assim, ainda que, \u00e0 minha frente, houvesse apenas uma outra freguesa, tive de esperar que ela terminasse de ser atendida para que eu chegasse pr\u00f3ximo ao empregado e fizesse o meu pedido.<\/p>\n<p>Entre irritado e impaciente, acabei, sem querer, testemunhando o di\u00e1logo daquela freguesa com o vendedor. Ela, quase suplicante, dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui em algum lugar&#8230; Eu sei que est\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Mostre, por favor. Eu preciso, para resolver o problema da senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o acho. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, eu n\u00e3o tirei daqui.<\/p>\n<p>Neste momento, percebi o drama que se desenrolava. A mulher, de vestido humilde e sapatos gastos, comprara ali, ou dizia haver comprado, um varal port\u00e1til. Mas notara algum problema com a pe\u00e7a, ou desistira do produto, e agora procurava troc\u00e1-lo, ou devolv\u00ea-lo. O vendedor exigia a notinha da compra.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, a senhora pode procurar \u2014 acalmou-a o empregado da loja, ao que a freguesa respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o poderia apenas trocar para mim, ou me dar o cr\u00e9dito na loja?<\/p>\n<p>\u2014 Posso sim, mas tem que me mostrar a notinha.<\/p>\n<p>O gesto da mulher mostrava certa ang\u00fastia. Uma desola\u00e7\u00e3o, talvez sentimento de estar sozinha no mundo, \u00e0 merc\u00ea daquele b\u00e1rbaro balconista, lan\u00e7ando sobre ela um olhar angustiante de severo julgador. Absolutamente todo o seu destino dependia do pequeno peda\u00e7o de papel que havia de ser achado na bolsa enorme que a senhora carregava e, \u00e0quela hora, j\u00e1 repousava sobre o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>As m\u00e3os da mulher penetravam no \u00e2mago escuro da bolsa, a reviravam esquadrinhando \u00e0s cegas cada ponto. E nada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, mo\u00e7o, eu n\u00e3o posso trazer a nota depois?<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, madame. Eu preciso ter a nota primeiro. Sem esse documento, o patr\u00e3o n\u00e3o autoriza eu fazer a troca.<\/p>\n<p>\u2014 Pede para ele vir aqui falar comigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o est\u00e1, senhora. S\u00f3 volta mais tarde.<\/p>\n<p>A cena dram\u00e1tica j\u00e1 fizera com que eu perdesse muito mais tempo do que planejara passar no modest\u00edssimo estabelecimento. Quase pensei em ir mais \u00e0 frente e comprar a l\u00e2mpada no supermercado. Era para isso que eu resolvera, justo naquele dia, prestigiar os pequenos comerciantes locais? Mas procurei continuar exercendo a santa paci\u00eancia de cada dia, enquanto a mulher se virou e cruzamos os olhares. Ela, com uma ruga na testa, express\u00e3o de nervosismo, olhos semitristes, devotava-se em procurar a notinha, ou dirigir s\u00faplicas ao balconista-juiz. O empregado da loja, impass\u00edvel, deixara pousar os antebra\u00e7os sobre a beirada interna do balc\u00e3o, como quem se refestela com uma refei\u00e7\u00e3o completa. E eu disfar\u00e7ava a ang\u00fastia crescente desviando os olhos e mirando meus p\u00e9s sobre o ladrilho hidr\u00e1ulico antiqu\u00edssimo do ch\u00e3o. Que graciosos desenhos, que perfei\u00e7\u00e3o no encaixe, cada pe\u00e7a encostando na outra de maneira tal que sequer a poeira mais grossa seria capaz de se colocar entre elas.<\/p>\n<p>O sol vindo da rua entrava loja adentro e eu, metido em uma bermuda curta, sentia que me queimavam as batatas da perna. O suor come\u00e7ava a brotar em minha testa e me afligia. E eu s\u00f3 fora comprar uma maldita l\u00e2mpada. Pensava em interromper aquele drama, perguntar se n\u00e3o podia ser atendido, mas a completa falta de vontade de interagir com os seres mais do que o estritamente necess\u00e1rio me fez esperar um pouco mais.<\/p>\n<p>A senhora, num ultimato de frustra\u00e7\u00e3o e desespero, virou completamente o conte\u00fado da bolsa sobre o balc\u00e3o. Havia de achar a notinha.<\/p>\n<p>Espalharam-se v\u00e1rios itens completamente in\u00fateis, e eu estiquei involuntariamente o pesco\u00e7o para analis\u00e1-los de onde estava.<\/p>\n<p>Um pequeno desastre silencioso se espalhou ali: um len\u00e7o amarrotado, sebento, com manchas antigas, algumas moedas de dez e cinquenta centavos, um l\u00e1pis sem ponta, um broche com a pedra solta, uma embalagem vazia de bala, um mini Santo Ant\u00f4nio de pl\u00e1stico, uma cartela de rem\u00e9dio pela metade, uns pap\u00e9is amarelados e dobrados e&#8230; um pequeno sapato de beb\u00ea. Rosa. De croch\u00ea. Decorado com uma delicada fita.<\/p>\n<p>A pobre mulher, absorta, passou os dedos por entre as coisas, revirando, fungando, batendo os olhos nos pap\u00e9is. O varal de alum\u00ednio, encostado ali ao lado do balc\u00e3o, fazia-se testemunha passiva daquilo tudo.<\/p>\n<p>Nenhuma notinha. Nem rastro.<\/p>\n<p>Por fim, ela come\u00e7ou a recolher cada coisa com a maior dignidade do mundo, como quem restaura a ordem de um altar profanado.<\/p>\n<p>Guardou tudo, menos o sapatinho, que ficou por \u00faltimo, equilibrado no centro do balc\u00e3o como um s\u00edmbolo improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ela o pegou com cuidado, ajeitou com a palma da m\u00e3o como se alisasse um pensamento antigo, e o recolocou na bolsa com delicadeza e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Esse gesto me desarmou de forma inexplic\u00e1vel. Fiquei olhando para o balc\u00e3o, j\u00e1 vazio, e imaginei que crian\u00e7a usara aquilo. Se ainda vivia. Se crescera. Ou se n\u00e3o existia mais. Que raz\u00e3o a levara a conservar aquele item numa bolsa, que devia acompanh\u00e1-la por todos os lados em que deambulasse pela cidade?<\/p>\n<p>Talvez apenas uma lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ou talvez fosse o que ela tinha de mais precioso, o que fazia sentido s\u00f3 para ela, e para mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>O balconista suspirou, j\u00e1 meio impaciente, e decretou:<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente, sem a notinha, n\u00e3o posso fazer nada agora, senhora&#8230;<\/p>\n<p>A mulher assentiu com os olhos, pegou a bolsa, que parecia mais leve, apesar de tudo, e saiu da loja com o varal em sua embalagem pl\u00e1stica, sob o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Eu, que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 queria minha l\u00e2mpada, me dei conta de que j\u00e1 n\u00e3o lembrava o motivo exato da pressa. Uma l\u00e2mpada evitaria sempre a queda? O escuro me salvaria de uma vida mon\u00f3tona?<\/p>\n<p>O balc\u00e3o, o calor, a poeira entre os ladrilhos, tudo permanecia igual, e mesmo assim parecia outro mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o? \u2014 disse o atendente, voltando-se para mim.<\/p>\n<p>\u2014 A l\u00e2mpada \u2014 murmurei \u2014 de 90 watts, por favor. Mas&#8230;<\/p>\n<p>(hesitei, olhando para a cal\u00e7ada, por onde a mulher acabara de desaparecer)<\/p>\n<p>\u2014&#8230; se tiver uma que ilumine mais do que escadas, eu agrade\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrei naquela pequena loja de ferragens, materiais de constru\u00e7\u00e3o, ferramentas e outras variedades de casa apenas para comprar uma l\u00e2mpada. Prosaica l\u00e2mpada de 90 watts para instalar no bocal perto da escada que, escura ontem \u00e0 noite, quase me fizera trope\u00e7ar. Deu raiva. Vasculhei em casa, n\u00e3o achara nenhuma. 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