{"id":360208,"date":"2025-08-06T08:01:12","date_gmt":"2025-08-06T11:01:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360208"},"modified":"2025-08-06T08:01:12","modified_gmt":"2025-08-06T11:01:12","slug":"moto-cresce-como-opcao-perigosa-para-quem-teve-mobilidade-negada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/moto-cresce-como-opcao-perigosa-para-quem-teve-mobilidade-negada\/","title":{"rendered":"Moto cresce como op\u00e7\u00e3o perigosa para quem teve mobilidade negada"},"content":{"rendered":"<p>No come\u00e7o de 2024, Laura Maria de Oliveira, de 59 anos, trabalhava como diarista e estava satisfeita por ter conseguido um emprego de carteira assinada como empregada dom\u00e9stica. No dia 1\u00ba de mar\u00e7o, ela saiu de casa de manh\u00e3,\u00a0 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa dos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>A empregada dom\u00e9stica optou por uma moto de aplicativo para economizar cerca de uma hora no deslocamento, o que costumava ser poss\u00edvel porque os motociclistas cortavam o congestionamento trafegando no meio dos carros. Naquele dia, entretanto, um autom\u00f3vel trocou de faixa sem dar seta, atingindo a moto que a transportava.<\/p>\n<p>\u201cEu cheguei a ver o carro fechando a gente e apaguei. A minha sorte \u00e9 que o tr\u00e2nsito estava muito parado e ele n\u00e3o estava em alta velocidade. Mas, antes disso, o motoqueiro estava correndo muito. Eu usei muito esse servi\u00e7o, e, em praticamente todas as vezes, eles corriam muito e ficavam olhando o celular. Um risco muito grande.\u201d<\/p>\n<p>Laura ficou 14 dias internada esperando vaga em cirurgias para tratar di\u00e1fises de \u00famero e clav\u00edcula, e tamb\u00e9m repara\u00e7\u00e3o do nervo radial. Um ano e cinco meses depois, ela vai passar por um terceiro procedimento para retirar a placa inserida no \u00famero, que prejudica os movimentos do seu cotovelo. Mesmo assim, \u00e9 poss\u00edvel que ela n\u00e3o os recupere completamente. Em acompanhamento no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), ela ainda n\u00e3o conseguiu voltar a trabalhar.<\/p>\n<p>\u201cEstava h\u00e1 v\u00e1rios sem um trabalho com carteira assinada e tinha come\u00e7ado h\u00e1 15 dias. E eu ainda ia fazer outro trabalho extra, como diarista. Eu tinha duas rendas. At\u00e9 passar o per\u00edodo de an\u00e1lise do INSS e obter o benef\u00edcio, foi uma espera muito grande. Foi muito complicado\u201d, lembra ela. \u201cPra mim, n\u00e3o existe mais esse transporte. Eu tenho um filho que tem moto, e nem com o meu filho eu ando mais. N\u00e3o quero mais passar por isso na minha vida.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alternativa perigosa<\/strong><br \/>\nO crescimento do uso de motocicletas no Brasil reflete uma alternativa perigosa encontrada por quem teve o direito \u00e0 mobilidade negligenciado. O alerta \u00e9 do oficial t\u00e9cnico em seguran\u00e7a vi\u00e1ria e preven\u00e7\u00e3o de les\u00f5es n\u00e3o intencionais da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade (Opas) no Brasil Victor Pavarino e abre a s\u00e9rie Rota Perigosa: brasileiros se arriscam em motos por renda e mobilidade, em que a Ag\u00eancia Brasil discute os impactos do aumento da frota de motocicletas na seguran\u00e7a vi\u00e1ria e na sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cO que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma consequ\u00eancia, mas tamb\u00e9m um indicador dos problemas desse sistema de mobilidade centrado e feito \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de sua majestade, o autom\u00f3vel. Foi pensado desde os anos 1950 dessa forma e est\u00e1 entrando em colapso\u201d, critica o especialista.<\/p>\n<p>Doutor em transportes pela Universidade de Bras\u00edlia, Pavarino descreve que, em cidades constru\u00eddas para carros particulares e com modais de transporte coletivo com abrang\u00eancia ou qualidade insuficiente, a moto ganha cada vez mais espa\u00e7o entre as op\u00e7\u00f5es de deslocamento.<\/p>\n<p>Na outra ponta, fam\u00edlias de menor renda adquirem as motos por serem mais acess\u00edveis que os autom\u00f3veis, e trabalhadores informais em busca de renda assumem riscos em jornadas exaustivas e sem prote\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos formais ou seguridade social, como entregadores ou mototaxistas de aplicativos.<\/p>\n<p>\u201cToda a quest\u00e3o do tr\u00e2nsito, por qualquer modal, tem uma liga\u00e7\u00e3o direta com as quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas. Mas, no caso da moto, essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 gritante. De certa forma, joga na nossa cara a implica\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e trabalhista que tem a quest\u00e3o do transporte.\u201d<\/p>\n<p><strong>Frota cada vez maior<\/strong><br \/>\nA frota de motocicletas no pa\u00eds est\u00e1 em expans\u00e3o. Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), o n\u00famero de ve\u00edculos motorizados de duas rodas cresceu 42% de 2015 a 2024, quando atingiu o patamar de 35 milh\u00f5es de unidades no pa\u00eds.<\/p>\n<p>S\u00f3 no ano passado, o n\u00famero de motos vendidas aumentou 18,6%, alcan\u00e7ando o maior patamar desde 2011. Para 2025, a expectativa \u00e9 de mais uma alta, de 7,7%, ultrapassando 2 milh\u00f5es de emplacamentos em um ano.<\/p>\n<p>Se forem contabilizadas apenas as motocicletas, os ve\u00edculos em circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds eram 29 milh\u00f5es em junho de 2025, segundo a Secretaria Nacional de Tr\u00e2nsito (Senatran). Cinco anos antes, em 2020, o pa\u00eds tinha uma frota de 23,4 milh\u00f5es, o que mostra que houve um acr\u00e9scimo de quase 6 milh\u00f5es de motocicletas nas ruas brasileiras.<\/p>\n<p>\u201cDe certa forma, o que est\u00e1 ocorrendo com a moto \u00e9 que um imenso segmento da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 do Brasil, est\u00e1 recorrendo a uma possibilidade de mobilidade que lhes foi negada durante d\u00e9cadas\u201d, pondera Pavarino. \u201c\u00c9 dif\u00edcil a gente falar que n\u00e3o se pode ou n\u00e3o se deve usar motos, enquanto, em muitos casos, como em favelas, ela \u00e9 a \u00fanica forma que boa parte da popula\u00e7\u00e3o tem para chegar at\u00e9 sua casa e como ganha-p\u00e3o\u201d, contextualiza Pavarino.<\/p>\n<p>Entre as principais respostas necess\u00e1rias, o especialista em seguran\u00e7a vi\u00e1ria da Opas defende medidas de impacto coletivo, como o fortalecimento do transporte p\u00fablico, a ado\u00e7\u00e3o de tarifa zero e o encorajamento dos deslocamentos por caminhada e bicicletas, por meio de cidades mais convidativas ao pedestre e ao ciclista.<\/p>\n<p>Essas medidas precisam ser adotadas para que se interrompa a migra\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios de transporte p\u00fablico para as modalidades de transporte individual motorizado, entre as quais a moto \u00e9 a mais arriscada.<\/p>\n<p>\u201cA moto tem, sim, seus problemas. \u00c9 um ve\u00edculo que \u00e9 intrinsecamente mais vulner\u00e1vel que os demais, por quest\u00f5es \u00f3bvias, porque est\u00e1 compartilhando o espa\u00e7o vi\u00e1rio com outros ve\u00edculos de massa maior e em velocidade. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, chega a ser mais vulner\u00e1vel que o pr\u00f3prio pedestre. Mas a quest\u00e3o que a gente est\u00e1 vendo da sinistralidade com moto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o simplesmente de tr\u00e2nsito. \u00c9 uma quest\u00e3o social, econ\u00f4mica e de trabalho, envolvendo tantas outras coisas, e que eclode no tr\u00e2nsito\u201d, aponta o especialista da Opas<\/p>\n<p>Na cerim\u00f4nia de abertura da Confer\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a no Tr\u00e2nsito, realizada em Bras\u00edlia nesta semana, o secret\u00e1rio nacional de Tr\u00e2nsito, Adrualdo Cat\u00e3o, avaliou que os problemas relacionados ao uso da moto se d\u00e3o principalmente em cidades m\u00e9dias que vivenciaram crescimento acelerado, sem que houvesse investimentos equivalentes em transporte coletivo. Al\u00e9m disso, em tr\u00eas estados do Norte e Nordeste, as motos representam mais da metade da frota de ve\u00edculos: Piau\u00ed (55%), Maranh\u00e3o (60%) e Cear\u00e1 (50%).<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o pode tratar esse tema como se fosse de mera escolha individual. O cidad\u00e3o escolhe a motocicleta porque n\u00e3o deram a ele uma alternativa segura. N\u00e3o h\u00e1 bala de prata para essa quest\u00e3o, mas, se houvesse, seria o transporte coletivo de qualidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o de 2024, Laura Maria de Oliveira, de 59 anos, trabalhava como diarista e estava satisfeita por ter conseguido um emprego de carteira assinada como empregada dom\u00e9stica. No dia 1\u00ba de mar\u00e7o, ela saiu de casa de manh\u00e3,\u00a0 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa dos patr\u00f5es. 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