{"id":360236,"date":"2025-08-09T02:44:56","date_gmt":"2025-08-09T05:44:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360236"},"modified":"2025-08-06T11:46:27","modified_gmt":"2025-08-06T14:46:27","slug":"apontamentos-de-um-menino-descobrindo-as-dores-e-as-delicias-da-primeira-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/apontamentos-de-um-menino-descobrindo-as-dores-e-as-delicias-da-primeira-infancia\/","title":{"rendered":"Apontamentos de um menino descobrindo as dores e as del\u00edcias da primeira inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>-J. , passa o pano no piso da \u00e1rea de servi\u00e7o para mim, estou muito ocupada na cozinha agora.<\/p>\n<p>-Sim, m\u00e3e, j\u00e1 vou passar!<\/p>\n<p>-Mas passa bem passado para deixar tudo bem seco.<\/p>\n<p>-J\u00e1 passei, m\u00e3e, pode olhar!<\/p>\n<p>-E aquele peda\u00e7o onde bate o sol, por que n\u00e3o passou o pano l\u00e1?<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o&#8230;l\u00e1 o sol mesmo seca, n\u00e9?<\/p>\n<p>Dona \u00e1urea, perplexa, fechou a cara e soltou:<\/p>\n<p>-\u00c9,J., l\u00e1 o sol seca!<\/p>\n<p>A seguir, com uma prodigiosa vara de marmelo em uma das m\u00e3os, aplicou duas chibatas certeiras nas minhas pernas antes que eu pudesse correr para o p\u00e1tio.<\/p>\n<p>-Deixa de ser pregui\u00e7oso e vai secar isso direito, menino!<\/p>\n<p>Primeira li\u00e7\u00e3o aprendida atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia que juntou amor e dor: n\u00e3o exagere nas justificativas para aplicar a lei do menor esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio descrito ocorreu quando eu tinha seis anos de idade, mas outros, igualmente vividos na fase do que chamam primeira inf\u00e2ncia foram muito importantes para ilustrar o meu did\u00e1tico caderno de apontamentos formatado nessa doce e inocente(?) fase da vida.<\/p>\n<p>Outra passagem absolutamente inesquec\u00edvel atende pelo nome de Rosane, minha vizinha e primeira grande paix\u00e3o l\u00fadica. Eu tinha cinco anos, ela, cerca de dez. Lembro dela em flashes intensos e fugidios, vestido rosa, perfume inebriante e tiara preta.<\/p>\n<p>-Rosane, eu quero um beijo!<\/p>\n<p>-N\u00e3o d\u00e1 J., aqui na cal\u00e7ada tem muita gente olhando.<\/p>\n<p>-T\u00e1, ent\u00e3o vamos ali, atr\u00e1s do muro da minha casa.<\/p>\n<p>-T\u00e1&#8230;mas tem que ser rapidinho.<\/p>\n<p>-Certo, ent\u00e3o vamos logo! falei, afoito.<\/p>\n<p>Um segundo depois do primeiro beijo da minha vida, senti uma dolorosa batida nas n\u00e1degas e pensei: &#8211; ent\u00e3o essa \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Mas era apenas a dona \u00c1urea de chinelo na m\u00e3o, zelando pela moral e pelos bons costumes do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Rosane correu para um lado e eu para o outro. At\u00e9 dona \u00c1urea esquecer da situa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa, tivemos que ficar um m\u00eas sem nos falarmos.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o n\u00famero dois: nunca deixe a retaguarda desprotegida no campo de batalha.<\/p>\n<p>Outro caso mais remoto que n\u00e3o sai da minha mem\u00f3ria afetiva aconteceu quando eu tinha entre tr\u00eas e quatro anos, logo antes do seu Jos\u00e9, meu pai, falecer devido a um AVC.<\/p>\n<p>Ele era conhecido em toda a cidade como &#8220;Seu Brinquedo&#8221; pelo bom humor e habilidade para fazer &#8220;brincadeiras&#8221; com os mais chegados.<\/p>\n<p>Lembro que um rapaz que tinha alguma rela\u00e7\u00e3o comercial com meu pai foi a nossa casa para algum tipo de tratativa profissional. Ap\u00f3s terminar a r\u00e1pida conversa entre os dois, o rapaz despediu-se formalmente:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, at\u00e9 logo, seu Brinquedo!<\/p>\n<p>De s\u00fabito, eu entrei no meio dos dois e, despropositada e intuitivamente, falei :<\/p>\n<p>-E brinquedinho!<\/p>\n<p>-Voc\u00eas ouviram o que ele disse? Esse menino tem por quem puxar, admirou-se o interlocutor do meu pai.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, entendi que todos pensaram que eu estava reclamando do fato do rapaz n\u00e3o se despedir tamb\u00e9m de mim, do &#8220;Brinquedinho&#8221;, filho do seu Brinquedo.<\/p>\n<p>Todavia, eu n\u00e3o era t\u00e3o perceptivo assim e n\u00e3o foi essa a inten\u00e7\u00e3o da minha observa\u00e7\u00e3o, na verdade, eu nem sei bem porque falei aquilo.<\/p>\n<p>De qualquer forma, ficou a terceira li\u00e7\u00e3o: entre uma verdade cinzenta e um mito reluzente, publica-se sempre o mito.<\/p>\n<p>Dentre outras situa\u00e7\u00f5es de aprendizado, recordo de uma que, definitivamente, encerrou a minha primeira inf\u00e2ncia de modo bem marcante. Na minha mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria ficou registrada como &#8220;a briga com o Ruffo&#8221;.<\/p>\n<p>Aconteceu quando eu estava cursando o primeiro ano prim\u00e1rio em um tradicional col\u00e9gio da minha cidade natal. Na metade do ano letivo todos na turma j\u00e1 estavam relativamente adaptados, t\u00ednhamos superado o medo da nossa nova situa\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o lembro o motivo &#8211; ou se houve motivo &#8211; um colega descendente de uruguaios chamado Ruffo (n\u00e3o recordo o primeiro nome) implicou com a minha cara desde o primeiro dia de aula.<\/p>\n<p>Em curto tempo, ele despontou como o &#8220;xerife&#8221; da turma. Baixinho, mas forte e entroncado, ningu\u00e9m ousava discordar dele e, muito menos, falar grosso com o &#8220;castelhano&#8221;, como era chamado por todos.<\/p>\n<p>Certo dia, ele deu uma resposta errada para a professora e, devido \u00e0 comicidade da situa\u00e7\u00e3o, praticamente toda a turma riu.<\/p>\n<p>Todavia, Ruffo viu apenas o J. praticar o reprov\u00e1vel bullying [ acho que na \u00e9poca cham\u00e1vamos de \u201ctro\u00e7a\u201d].<\/p>\n<p>A\u00ed foi tiro e queda: na hora, ele rosnou que iria &#8220;me esperar l\u00e1 fora&#8221;, promessa impl\u00edcita de briga no jarg\u00e3o da \u00e9poca, c\u00f3digo ainda v\u00e1lido em alguns ambientes dos nossos dias.<\/p>\n<p>Senti que o primeiro desafio [situa\u00e7\u00e3o-limite na linguagem de Sartre] da minha vida se aproximava e n\u00e3o havia como contornar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como bom capricorniano, refleti sobre o contexto da coisa e sobre todas as suas nuances.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o temia a briga em si, pois sabia que tinha condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e habilidade para levar a coisa, no m\u00ednimo, a um empate t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>O que eu n\u00e3o queria era passar pelo constrangimento de uma briga em frente \u00e0 escola e suas consequ\u00eancias sociais: castigo por parte da diretoria do col\u00e9gio [suspens\u00e3o na certa], bronca e prov\u00e1veis chineladas da dona \u00c1urea, fama de briguento, etc.<\/p>\n<p>Aparentemente, Ruffo n\u00e3o era capricorniano, pois n\u00e3o pensava em nada daquilo e, assim que sa\u00edmos pela porta da frente, ele j\u00e1 queria iniciar o embate f\u00edsico.<\/p>\n<p>Eu falei que n\u00e3o iria brigar em frente ao col\u00e9gio e convidei o exaltado colega para nos afastarmos e, com calma, resolvermos a situa\u00e7\u00e3o longe das vistas da dire\u00e7\u00e3o e dos professores.<\/p>\n<p>Mas ele tomou a proposta como covardia e come\u00e7ou a me insultar em altos brados:<\/p>\n<p>-Covarde, frouxo, amarel\u00e3o, t\u00e1 com medo!<\/p>\n<p>Tive sangue frio suficiente para me afastar e pedir que ele me seguisse. Ap\u00f3s caminharmos por uns trezentos metros com ele me xingando e, seguidos por uma plateia de mais ou menos trinta colegas, achei que a dist\u00e2ncia j\u00e1 era suficiente para evitar a repercuss\u00e3o da briga e suas indesej\u00e1veis consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, parei, entreguei a minha mochila escolar para um amigo e falei:<\/p>\n<p>-Agora vamos l\u00e1, seu merdinha metido a bonz\u00e3o!<\/p>\n<p>Ruffo arregalou os olhos, surpreso, pois, na cabe\u00e7a dele, eu estava morrendo de medo e iria fugir da briga.<\/p>\n<p>Eu sabia que ele era muito h\u00e1bil com as m\u00e3os, um boxer treinado pelo pai ex-pugilista, segundo diziam.<\/p>\n<p>Mas eu tinha um trunfo secreto: treinava no recesso do lar o estilo de luta kung-fu, no qual se usa basicamente as pernas, estilo que alguns anos depois iria ficar c\u00e9lebre com o mitol\u00f3gico Bruce Lee.<\/p>\n<p>Resumindo a \u00f3pera, o uruguaio n\u00e3o teve a menor chance. Sem conseguir se aproximar de mim para aplicar a sua t\u00e9cnica de boxeador e, depois de levar v\u00e1rios chutes certeiros das minhas r\u00e1pidas e bem treinadas pernas, o valent\u00e3o arregou, falando:<\/p>\n<p>-Assim n\u00e3o vale, n\u00e9?<\/p>\n<p>Entendendo que ele estava buscando uma sa\u00edda honrosa para a situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria, falei:<\/p>\n<p>-Por mim j\u00e1 est\u00e1 bom, vamos deixar por empate?<\/p>\n<p>Com um olhar agradecido, ele disse:<\/p>\n<p>-T\u00e1 bom, empate, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, cada um foi para o seu lado, enquanto a torcida se dispersava.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a vida seguiu normal no col\u00e9gio, com a \u00fanica novidade de n\u00e3o haver mais &#8220;xerife&#8221; na turma do primeiro ano.<\/p>\n<p>\u00daltima li\u00e7\u00e3o &#8211; a l\u00e1 Guimar\u00e3es Rosa &#8211; do meu caderno de apontamentos da primeira inf\u00e2ncia: a vida requer sensatez e equil\u00edbrio, mas sobretudo, coragem!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>-J. , passa o pano no piso da \u00e1rea de servi\u00e7o para mim, estou muito ocupada na cozinha agora. -Sim, m\u00e3e, j\u00e1 vou passar! -Mas passa bem passado para deixar tudo bem seco. -J\u00e1 passei, m\u00e3e, pode olhar! -E aquele peda\u00e7o onde bate o sol, por que n\u00e3o passou o pano l\u00e1? -Ent\u00e3o&#8230;l\u00e1 o sol [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":360237,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-360236","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=360236"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":360239,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360236\/revisions\/360239"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/360237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=360236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=360236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=360236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}