{"id":360249,"date":"2025-08-08T01:29:01","date_gmt":"2025-08-08T04:29:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360249"},"modified":"2025-08-06T16:29:16","modified_gmt":"2025-08-06T19:29:16","slug":"vaga-lumes-urbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vaga-lumes-urbanos\/","title":{"rendered":"Vaga-lumes urbanos"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;As crian\u00e7as pulavam assustadas e, abra\u00e7adas, dividiam a dor das cacetadas. Os olhos esbuga1lhados de pavor e os ossos estalando dentro de seus corpinhos esquel\u00e9ticos&#8221;.<\/p>\n<p>1.<\/p>\n<p>O trem ainda zunia quando eles saltaram.<\/p>\n<p>&#8220;Trem-bala, trem-b\u00e3o, trem-sangue limpo, trem-irm\u00e3o&#8230;. Praia \u00e9 pra bacana! Eu quero ver como fica o equil\u00edbrio, gente-boa, tudo se racha \u00e9 l\u00e1 em cima, no teto, perto dos fios, perto da sorte&#8230; Surfista de trem \u00e9 pra fera-radical de verdade, merm\u00e3o!!!&#8221; \u2013 gritou Baby, ao pular a roleta.<\/p>\n<p>Cruzaram a feira dos nordestinos, ganharam a pra\u00e7a central e invadiram a praia.<\/p>\n<p>O arrast\u00e3o durou menos de dez minutos.<\/p>\n<p>Retornaram arrepiando bacanas pelo cal\u00e7ad\u00e3o e surfando no teto dos \u00f4nibus-lat\u00e3o.<\/p>\n<p>As gangues est\u00e3o agitadas e a cidade explode a cada segundo. Rep\u00f3rter queimado e esquartejado no bosque do morro; comandos que se enfrentam com bazucas, granadas em pleno o carnaval. A cidade dividida exp\u00f5e os seus cad\u00e1veres e esconde a hipocrisia dos homens.<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>Z\u00e9 chegou para vencer na cidade.<\/p>\n<p>Ao fim da tarde entrou em uma briga no Largo da Alf\u00e2ndega. Resultado: seis pontos na testa, dois dentes perdidos e a primeira passagem pelo setor de corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na mesma noite, de volta \u00e0s ruas, batalhou rango na porta da boate gay.<\/p>\n<p>L\u00e1 encontrou In\u00e1cio, o menino-an\u00e3o:<\/p>\n<p>______ Qual\u00e9, merm\u00e3o? D\u00e1 essa cola a\u00ed, se n\u00e3o eu te enrabo!<\/p>\n<p>______ Pera\u00ed, cara&#8230;qual\u00e9? Socorro&#8230;ajuda!!!!!!!!!!!<\/p>\n<p>Assim Z\u00e9 conheceu In\u00e1cio.<\/p>\n<p>Davam bandas pela regi\u00e3o da catedral; transavam cola, benzina e crack, e alguns trocados na regi\u00e3o do porto. Arrasavam bacanas com o pessoal da gangue nas praias da zona sul.<\/p>\n<p>Eram amigos, mas Z\u00e9 ainda olhava para In\u00e1cio como um an\u00e3o aprendiz:<\/p>\n<p>______ Porra, cara! Bem que o mano pudia ir l\u00e1 TV e pedir pra ser an\u00e3o daquelas loiras gostosas, bundudas, pra descolar uns rango pra gente, n\u00e9? Ah! Ah! Ah! \u2013 picava Z\u00e9, sem pudor algum.<\/p>\n<p>In\u00e1cio fugia para as constru\u00e7\u00f5es inacabadas, escondia-se nos esgotos-casa e n\u00e3o retrucava. Subia o morro e l\u00e1 em cima parava um minuto para chorar.<\/p>\n<p>Olhando a cidade, suas luzes e o movimento, encontrava uma calma dif\u00edcil de se explicar. A cidade com milh\u00f5es de pequenas luzes brilhantes:<\/p>\n<p>______ S\u00e3o como estrelas&#8230; Igual ao c\u00e9u quando n\u00e3o \u00e9 nem claro e nem escuro&#8230;S\u00f3 tem a lua, grandona e redonda&#8230;as luzinhas das estrelas ficam piscando l\u00e1 no c\u00e9u feito um monte de bichinhos&#8230;uma porrada de vaga-lumes iguais a diamantes voando, acendendo e apagando e piscando! \u2013 sonhava In\u00e1cio ap\u00f3s o choro de todos os dias.<\/p>\n<p>Passada a crise, o an\u00e3o retornava ao bando.<\/p>\n<p>Apesar dos onze anos, sabia das regras e das porradas que a rua impunha.<\/p>\n<p>Pequeno em tamanho, In\u00e1cio n\u00e3o tinha medo de cara feia. Estava sempre na linha de frente durante as batalhas no cal\u00e7ad\u00e3o. Nos arrast\u00f5es, peitava os bacanas. Surfava em \u00f4nibus, sub\u00farbios e at\u00e9 em metr\u00f4s.<\/p>\n<p>Apesar das desilus\u00f5es, jamais largaria a paix\u00e3o por Z\u00e9.<\/p>\n<p>Nem quando Z\u00e9 perdeu um olho devido \u00e0 pedrada disparada por um garoto de outra gangue. In\u00e1cio providenciou um tapa-olho. Muito menos quando a garota maluca meteu fogo na garrafa de cola com a qual Z\u00e9 dormia abra\u00e7ado.<\/p>\n<p>O an\u00e3o fez uma luva de saco de estopa para esconder a m\u00e3o esquerda de Z\u00e9 sem os tr\u00eas dedos perdidos naquela a\u00e7\u00e3o. Coisas da rua e da solidariedade.<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>O sol rodava alto quando o policial baixou o cacetete:<\/p>\n<p>&#8220;Vamos l\u00e1, belezuras! Vamos circular que isso aqui n\u00e3o \u00e9 hotel cinco estrelas! Vai, porra! Eu n\u00e3o sou lixeiro de gente bacana&#8230;.n\u00e3o ganho pra ficar limpando merda em pr\u00e9dio abandonado! Comigo \u00e9 na porrada!&#8221;.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as pulavam, juntavam os sacos pl\u00e1sticos com os restos que lhes pertenciam e, abra\u00e7adas, dividiam a dor das cacetadas.<\/p>\n<p>Depois, corriam loucas sem rumo certo.<\/p>\n<p>A garganta seca de cola da noite anterior, olhos esbuga1lhados de pavor e os ossos estalando dentro de seus corpinhos magros, esquel\u00e9ticos \u00e0 flor da pele.<\/p>\n<p>Fugiram todos e ficaram escondidos na gruta da santa em plena pra\u00e7a do bairro.<\/p>\n<p>Z\u00e9 xingava In\u00e1cio aos berros:<\/p>\n<p>______ Seu an\u00e3o de merda! Voc\u00ea estava de butuca! Tinha que d\u00e1 o biz\u00fa! Por causa de voc\u00ea eu levei porrada pra caraca, seu merda! Seu merda e an\u00e3o! An\u00e3o! An\u00e3o mocinha!<\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>A noite chegou. Salvaram-se todos. In\u00e1cio libertou-se.<\/p>\n<p>Na cabe\u00e7a do menino-an\u00e3o, as estrelas da noite teimavam em desafiar.<\/p>\n<p>Escalou as pedras do cost\u00e3o e de l\u00e1 chegou at\u00e9 a ponta do morro-base.<\/p>\n<p>Olhou o mundo pela \u00faltima vez e sonhou com as luzes da cidade e do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Lembrou-se dos vaga-lumes que habitavam o morro quando ainda era um piralhinho.<\/p>\n<p>Pensou nos sorvetes que tomaria, nos cabelos loiros de parafina que teria e nos dias em que seria m\u00e9dico em um hospital importante da cidade.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima rolou pelo rosto sujo do menino antes de saltar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor de comunica\u00e7\u00e3o. Mora, hoje, numa pequena pousada da vila de pescadores da Guarda do Emba\u00fa SC. Nas bocas das noites, caminha pelas margens do rio da Madre at\u00e9 o mar observando as nuvens de vaga-lumes.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As crian\u00e7as pulavam assustadas e, abra\u00e7adas, dividiam a dor das cacetadas. Os olhos esbuga1lhados de pavor e os ossos estalando dentro de seus corpinhos esquel\u00e9ticos&#8221;. 1. O trem ainda zunia quando eles saltaram. &#8220;Trem-bala, trem-b\u00e3o, trem-sangue limpo, trem-irm\u00e3o&#8230;. Praia \u00e9 pra bacana! 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