{"id":360413,"date":"2025-08-16T01:41:13","date_gmt":"2025-08-16T04:41:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360413"},"modified":"2025-08-08T19:47:12","modified_gmt":"2025-08-08T22:47:12","slug":"chuva-de-recordacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chuva-de-recordacoes\/","title":{"rendered":"Chuva de recorda\u00e7\u00f5es&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O barulho da chuva, caindo pelo telhado, \u00e9 um dos mais belos sons que gostamos de ouvir. Nos d\u00e1 aquela sonol\u00eancia gostosa, uma vontade incr\u00edvel de nos recostar no sof\u00e1\u2026 na verdade, nos deitar na cama\u2026 cerrar os olhos e simplesmente viajar com a melodia dos pingos que caem do c\u00e9u\u2026<\/p>\n<p>Quantas boas lembran\u00e7as essa can\u00e7\u00e3o divina nos traz\u2026 momentos de ternura, de um tempo j\u00e1 passado, que sabemos que n\u00e3o mais retornar\u00e1\u2026 mas que gostar\u00edamos tanto de reviver, n\u00e3o \u00e9 mesmo?&#8230;<\/p>\n<p>Quando ou\u00e7o os pingos de chuva cair, a primeira coisa que me lembro \u00e9 do canto dos p\u00e1ssaros na floresta que circundava o local em que moro at\u00e9 hoje\u2026 a gente via \u2013 e ouvia \u2013 uma profus\u00e3o de can\u00e7\u00f5es onde a melhor divers\u00e3o era identificar quais eram as esp\u00e9cies que estavam pr\u00f3ximas de n\u00f3s\u2026 bem-te-vis, pica-paus, rolinhas, andorinhas, tico-ticos, pardais\u2026 e uma infinidade de esp\u00e9-cies que n\u00e3o me lembro o nome, habitava as redondezas. Claro que nem todas elas cantavam na chuva, mas a maioria, sim\u2026 e aquela sinfonia regida pelos anjos nos faziam sonhar de olhos acordados\u2026<\/p>\n<p>Quando a \u00e1gua desabava do c\u00e9u a gente brincava dentro de casa\u2026 o barulho da chuva no telhado deixava tudo muito mais bonito\u2026 embora um pouco frio\u2026 sim, a chuva refrescava ainda mais o ambiente que j\u00e1 era fresco por natureza, devido a vegeta\u00e7\u00e3o existente no local. N\u00e3o muito longe havia a represa, e sab\u00edamos de antem\u00e3o que, depois da chuva, seria um lugar maravilhoso para brincar\u2026 chafurdar os p\u00e9s nas po\u00e7as formadas pelas \u00e1guas que, pouco a pouco, seriam absorvidas pela terra\u2026<\/p>\n<p>A casa onde mor\u00e1vamos tinha, no in\u00edcio, piso de terra batida. N\u00e3o era cimentado, nem tinha nada que isolasse o ch\u00e3o da natureza. Ent\u00e3o, quando a chuva caia, o cheiro da terra molhada se espalha-va por toda a casa. Era um perfume gostoso\u2026 claro, o frio aumentava nessas ocasi\u00f5es, mas\u2026<\/p>\n<p>Nosso quintal era uma floresta onde minha m\u00e3e tinha todo tipo de flores plantadas\u2026 rosas das mais diversas esp\u00e9cies, margaridas, d\u00e1lias de cores variadas (ali\u00e1s, faz muito tempo que n\u00e3o vejo uma d\u00e1lia\u2026 seu perfume era simplesmente inebriante\u2026) palmas\u2026 na verdade, a muito n\u00e3o vejo as flores de minha inf\u00e2ncia\u2026<\/p>\n<p>Era uma \u00e9poca em que as casas n\u00e3o tinham muros, a divisa entre os quintais n\u00e3o existia, o sentimento de posse n\u00e3o era t\u00e3o forte quanto nos dias de hoje\u2026 as pessoas se sentiam mais irmanadas, mesmo que n\u00e3o houvesse nenhum la\u00e7o de sangue entre elas\u2026<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o posso afirmar que isso era regra na Sociedade\u2026 essa era a minha realidade. A minha rua tinha, mais ou menos, umas quinze casas, onde todos se conheciam. Nenhum muro isolava a propriedade de ningu\u00e9m. As crian\u00e7as podiam ir de uma casa a outra sem sair na rua. N\u00e3o que fizesse diferen\u00e7a, uma vez que as ruas n\u00e3o tinham tr\u00e2nsito de ve\u00edculos, exceto um ou outro carro-ceiro que passava de vez em quando para vender seus produtos\u2026<\/p>\n<p>Era como uma grande fam\u00edlia, onde as crian\u00e7as e adultos se reuniam como irm\u00e3os\u2026 as mulheres iam juntas buscar lenha para alimentar o fogo onde iriam cozinhar\u2026 sim, era a \u00e9poca do fog\u00e3o a lenha\u2026 e o fog\u00e3o ficava, normalmente, em uma casinha de sap\u00e9 onde as mulheres armazenavam a lenha e faziam a comida para a fam\u00edlia. Elas tamb\u00e9m se reuniam e costumavam ir pegar peixe com uma peneira em um dos v\u00e1rios lagos que existiam na regi\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Os homens, depois de um dia de trabalho nas f\u00e1bricas, ap\u00f3s seu expediente costumavam se reunir para tomar cacha\u00e7a e cantar m\u00fasicas de sua regi\u00e3o natal. Havia sempre um casal de viola e viol\u00e3o e, entre um gole e outro, toadas, rancheiras e outros ritmos eram executados com alguma mestria pelos mesmos\u2026 nessa \u00e9poca a energia el\u00e9trica ainda n\u00e3o havia chegado em nossa regi\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Importante citar que os homens iam trabalhar geralmente a p\u00e9\u2026 as f\u00e1bricas ficavam, em m\u00e9dia, uns dez quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do local onde mor\u00e1vamos. No in\u00edcio n\u00e3o havia nenhuma linha de \u00f4nibus ligando nossa regi\u00e3o com o centro do bairro\u2026 aqueles que tinha um pouco mais de posse, compravam uma bicicleta. Com o tempo, \u00e9 claro que todos a adquiriam. Era o \u00fanico meio de transporte \u00e0 m\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Quando o \u00f4nibus chegou, junto com a eletricidade, que revolu\u00e7\u00e3o\u2026 j\u00e1 n\u00e3o era necess\u00e1rio se des-locar a p\u00e9 pela regi\u00e3o\u2026 se tivesse o dinheiro para a passagem, \u00e9 claro. E, quanto \u00e0 eletricidade, bem\u2026 al\u00e9m dos violeiros para animar as noites e finais de semana, agora era poss\u00edvel ouvir du-plas consagradas e aprender novas can\u00e7\u00f5es. E as mulheres podiam seguir as novelas radiof\u00f4nicas, sonhando com as desventuras rom\u00e2nticas das hero\u00ednas das hist\u00f3rias. Como est\u00e1vamos ainda na \u00e9poca da vida do campo, onde gados cortavam as estradas rumo ao seu destino, o tema recorrente era essa lida do homem e da natureza. Algumas vezes interven\u00e7\u00f5es sobrenaturais, como o lobisomem e outros, faziam parte do enredo, uma vez que a cren\u00e7a comum \u00e9 que estes monstros peram-bulavam pela noite, principalmente nas sextas-feiras de lua cheia\u2026<\/p>\n<p>As crian\u00e7as? Viviam cercadas pela magia do mundo, onde ouviam as hist\u00f3rias contadas por seus pais\u2026 a televis\u00e3o ainda n\u00e3o havia chegado at\u00e9 n\u00f3s\u2026 e toda beleza dos contos de fadas, transmitidos oralmente, fazia com que os pequenos se sentissem no mundo das maravilhas\u2026 e replicavam esse mundo m\u00e1gico em seus folguedos\u2026<\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias brincadeiras onde se replicava o mundo dos contos de fadas, uma delas era a roda, onde meninos e meninas brincavam juntos, cantando as can\u00e7\u00f5es que iam construindo o enredo das hist\u00f3rias\u2026 nosso primeiro contato com a Bela Adormecida aconteceu dessa maneira, por exemplo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou dizer que o passado era melhor que o presente\u2026 afinal, nossas lembran\u00e7as est\u00e3o protegidas pela aura da recorda\u00e7\u00e3o\u2026onde tudo o que passou fica muito mais lindo que a realidade que vivemos, ontem e hoje\u2026 e que viveremos no futuro\u2026 mas s\u00e3o essas doces recorda\u00e7\u00f5es, despertadas pela chuva que cai do firmamento, que nos fazem ter f\u00e9 no futuro\u2026 pois se vivemos bons momentos no passado, com certeza teremos outros bons momentos durante nossa caminhada por esse plano\u2026<\/p>\n<p>A Luz daqueles que velaram por n\u00f3s quando ainda petizes continua a nos indicar o caminho. \u00c9 nossa a vez de preparar e iluminar a estrada da gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 chegando, para que no futuro se lembrem de nossa passagem com o mesmo carinho que lembramos daqueles que nos antecederam. E isso n\u00f3s conseguiremos dando aos pequenos todo Amor que precisam e merecem. Que sejamos o Farol que ilumina seus passos, como nossos pais iluminaram nosso caminho. E um dia todos nos reuniremos no Nirvana, onde a Luz Eterna iluminar\u00e1 a todos n\u00f3s\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O barulho da chuva, caindo pelo telhado, \u00e9 um dos mais belos sons que gostamos de ouvir. 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