{"id":360440,"date":"2025-08-09T02:00:40","date_gmt":"2025-08-09T05:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360440"},"modified":"2025-08-08T21:13:19","modified_gmt":"2025-08-09T00:13:19","slug":"eita-mundo-cada-vez-mais-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eita-mundo-cada-vez-mais-perigoso\/","title":{"rendered":"Eita, mundo cada vez mais perigoso!"},"content":{"rendered":"<p>Lauro andava preocupado com a criminalidade na regi\u00e3o do Cruzeiro. N\u00e3o que fosse t\u00e3o preocupante, ainda mais levando-se em conta outras localidades do Distrito Federal. Mesmo assim, o homem parecia s\u00f3 querer escutar as not\u00edcias ruins, t\u00e3o comuns em telejornais que promovem verdadeiros espet\u00e1culos de horrores sobre o mundo da bandidagem.<\/p>\n<p>Judite, a esposa, j\u00e1 havia se cansado de dizer para o marido parar de ver tantas desgra\u00e7as. Entretanto, quanto mais falava, mais o sujeito aumentava o volume. Sem contar que, at\u00e9 nas horas mais impr\u00f3prias, Lauro fazia quest\u00e3o de comentar sobre as \u00faltimas not\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu?<\/p>\n<p>\u2014 Vi o qu\u00ea, Lauro?<\/p>\n<p>\u2014 A onda de sequestros que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>\u2014 Lauro, meu amor, a \u00fanica onda que quero ver \u00e9 a de uma praia. Mas, enquanto o ver\u00e3o n\u00e3o chega, vamos prestar aten\u00e7\u00e3o no que o padre Luiz est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>N\u00e3o era s\u00f3 na missa, como tamb\u00e9m na hora de cantar parab\u00e9ns para Let\u00edcia, a \u00fanica neta do casal. Sandra, a m\u00e3e da menina, foi at\u00e9 a mesa dos pais para avis\u00e1-los que era chegado o t\u00e3o aguardado momento antes de partir o bolo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 pra j\u00e1, minha filha, que voc\u00ea sabe que n\u00e3o resisto a um bolo de chocolate. Vamos, Lauro!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei como \u00e9 que voc\u00eas podem pensar em comemorar algo quando a cidade est\u00e1 sendo tomada por ladr\u00f5es e assassinos.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea, papai?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o liga, n\u00e3o, Sandra, que seu pai n\u00e3o anda muito bem.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, t\u00e1! Ent\u00e3o, sou eu que n\u00e3o ando bem agora, n\u00e9, dona Judite?<\/p>\n<p>\u2014 Papai, o que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p>\u2014 O que est\u00e1 acontecendo \u00e9 que a sua m\u00e3e n\u00e3o percebe os in\u00fameros homic\u00eddios que est\u00e3o acontecendo a todo momento. \u00c9 isso que est\u00e1 acontecendo!<\/p>\n<p>Igreja, festa de anivers\u00e1rio&#8230; Ah, tamb\u00e9m no supermercado. Se bem que, sejamos honestos, nesse caso, quem deu o mote da discuss\u00e3o foi a pr\u00f3pria Judite.<\/p>\n<p>\u2014 Que assalto!<\/p>\n<p>\u2014 Assalto? Onde? Onde?<\/p>\n<p>\u2014 Olha o pre\u00e7o deste iogurte! Um absurdo!<\/p>\n<p>\u2014 Quer me matar, Judite?<\/p>\n<p>Ter\u00e7a-feira era dia de encontro de Judite com as amigas, todas, que nem ela, aposentadas do Banco do Brasil. Era a oportunidade de relembrar hist\u00f3rias e conhecer outras. E, para aproveitar a aus\u00eancia da esposa, Lauro assistia a document\u00e1rios sobre crimes e criminosos famosos. E foi assim que se deu mais uma noite daquelas.<\/p>\n<p>Mal se despediram com um leve toque dos l\u00e1bios, Lauro correu para a cozinha, pegou uma lata de cerveja, sentou no sof\u00e1, pegou o controle da televis\u00e3o e colocou num programa de assassinos em s\u00e9rie. Enquanto isso, Judite tamb\u00e9m seguiu para seu passeio, que parecia rejuvenesc\u00ea-la cada vez mais. Afinal, nada como sair da rotina.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se foi por conta da cerveja ou de alguma cena traum\u00e1tica, Lauro adormeceu e, de repente, deu um sobressalto. Levou as duas m\u00e3os na boca como se pressentindo algo ruim. Pegou o celular e ligou para a mulher. Chamou, chamou, chamou e nada da Judite atender. Ser\u00e1 que ela havia sido raptada?<\/p>\n<p>Lauro pensou, pensou, pensou e, ent\u00e3o, telefonou para Arlete, melhor amiga da esposa. Tocou, tocou, tocou e, finalmente, o homem ouviu uma voz conhecida do outro lado da linha.<\/p>\n<p>\u2014 Arlete, que bom que atendeu!<\/p>\n<p>\u2014 O que houve, Lauro?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea pode passar o telefone pra Judite?<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 poderia, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ela disse que estava indisposta e voltou pra casa. Ela ainda n\u00e3o chegou?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! A que horas foi isso?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, j\u00e1 tem pelo menos uma hora.<\/p>\n<p>\u2014 Uma hora?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez uma hora e meia. N\u00e3o sei direito.<\/p>\n<p>\u2014 Uma hora e meia?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9. Mas calma, homem, que logo, logo ela chega a\u00ed.<\/p>\n<p>Meia hora depois e mais 43 liga\u00e7\u00f5es n\u00e3o atendidas, Lauro n\u00e3o teve d\u00favida. Precisava comunicar o fato \u00e0 pol\u00edcia. E foi para l\u00e1 que se dirigiu.<\/p>\n<p>Chegou esbaforido \u00e0 delegacia praticamente vazia. Foi atendido pelo agente Pedrito, que logo comunicou o acontecido ao chefe do plant\u00e3o, o tarimbado agente Ricky Ricardo. Este, por sua vez, perguntou ao marido desesperado se, por acaso, ele teria a localiza\u00e7\u00e3o do celular da esposa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! Tenho, sim, seu policial! Foi at\u00e9 a Judite que colocou esse neg\u00f3cio aqui no meu celular para sabermos sempre onde o outro est\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Posso dar uma olhada?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, claro, claro. Aqui est\u00e1.<\/p>\n<p>Ricky Ricardo pegou o aparelho celular do Lauro e, ent\u00e3o, logo visualizou onde estaria a poss\u00edvel v\u00edtima de sequestro ou, talvez, algo pior. Falou para Pedrito acordar o agente Santana, que roncava no alojamento. Iriam os tr\u00eas e mais o comunicante at\u00e9 o suposto cativeiro. Na delegacia ficaram apenas o delegado Rupereta e o escriv\u00e3o Gilmarildo, que jogavam mais uma partida de xadrez.<\/p>\n<p>Pedrito, assim que estacionou a viatura em frente a uma casa de muro alto, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ricky, \u00e9 aqui. O que faremos?<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Como o local \u00e9 deserto, voc\u00ea e eu vamos entrar, enquanto o Santana fica aqui fora com o senhor Lauro.<\/p>\n<p>Dito e feito, l\u00e1 foram os destemidos policiais pular o muro, j\u00e1 que temiam que algo pior pudesse ter acontecido \u00e0 v\u00edtima. Isto \u00e9, caso ela ainda estivesse viva.<\/p>\n<p>Agindo como gatos, Ricky e Pedrito conseguiram esgueirar-se at\u00e9 uma das janelas, de onde estava vindo um som estranho. Estaria Judite tentando escapar ou, pior, estaria sendo v\u00edtima de tortura. Os dois sabiam que havia todo tipo de bandido na regi\u00e3o e, armas em punho, abriram de sopet\u00e3o a janela e apontaram as pistolas.<\/p>\n<p>Um grito! Dois pares de olhos arregalados sobre a cama, dois pares de olhos surpresos do lado de fora. Ricky foi o primeiro a falar.<\/p>\n<p>\u2014 Senhora Judite? Voc\u00ea \u00e9 a senhora Judite?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe incomod\u00e1-la em momento t\u00e3o&#8230; \u00edntimo. Mas \u00e9 que o marido da senhora est\u00e1 l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>\u2014 O Lauro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Ele pensou que a senhora havia sido sequestrada.<\/p>\n<p>Ricky conversou por alguns minutos com Judite e o dono da resid\u00eancia e, ent\u00e3o, pareceu encontrar a solu\u00e7\u00e3o do caso. Ele e Pedrito retornariam com Lauro para a delegacia a fim de dar tempo da mulher se vestir e voltar para casa. De l\u00e1, ela telefonaria para o marido e perguntaria por ele. E foi assim que aconteceu.<\/p>\n<p>Quase uma hora ap\u00f3s, Lauro retornou para o lar, doce lar, onde Judite, toda dengosa, o aguardava. E, antes que o casal fosse para o quarto, tiveram um pequeno interl\u00fadio.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, amor, que susto que voc\u00ea me deu!<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea nem imagina o susto que voc\u00ea tamb\u00e9m me deu, Lauro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, tudo culpa desse localizador de celular.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, meu anjo. Me d\u00e1 aqui o seu celular, que vou desinstalar essa porcaria.<\/p>\n<p>Em seguida, Judite apagou a luz e adormeceu com a consci\u00eancia mais tranquila do mundo.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong>\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/16.0.1\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lauro andava preocupado com a criminalidade na regi\u00e3o do Cruzeiro. N\u00e3o que fosse t\u00e3o preocupante, ainda mais levando-se em conta outras localidades do Distrito Federal. 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