{"id":360539,"date":"2025-08-10T04:00:20","date_gmt":"2025-08-10T07:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360539"},"modified":"2025-08-10T10:53:54","modified_gmt":"2025-08-10T13:53:54","slug":"o-homem-que-poderia-ser-papa-e-preferiu-ser-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-homem-que-poderia-ser-papa-e-preferiu-ser-pai\/","title":{"rendered":"O homem que poderia ser Papa&#8230; e preferiu ser pai"},"content":{"rendered":"<p>Faz lembrar um conto de fadas, mas transporta para uma hist\u00f3ria real. Presente, claro, o famoso &#8220;era uma vez&#8230;&#8221;. Foi num reino de luz e mar\u00e9s chamado Recife, vizinho ao antigo e sagrado reino de Olinda, onde vivia um jovem pr\u00edncipe, que crescera entre claustros e sinos, destinado a vestir a batina e servir \u00e0 Igreja. Seu trono seria o altar; seu cetro, a palavra de Deus.<\/p>\n<p>Desde menino, aprendera a linguagem silenciosa das ora\u00e7\u00f5es, o perfume das manh\u00e3s de missa, o latim das ladainhas e a disciplina das horas marcadas pelo badalar dos sinos. O Semin\u00e1rio de Olinda era um castelo de muros grossos, cujas janelas se abriam para o infinito azul do Atl\u00e2ntico. Ali, o pr\u00edncipe se formava n\u00e3o para governar homens, mas para guiar almas.<\/p>\n<p>Chegou, ent\u00e3o, o dia em que o destino parecia selado. Ele e sua m\u00e3e, mulher de olhar firme e m\u00e3os suaves, iniciaram nas plagas de Casa Forte as sagas que viveriam no centro da capital. Iriam comprar o tecido negro com o qual seria feita a batina de sua ordena\u00e7\u00e3o. As ruas recifenses fervilhavam com o vaiv\u00e9m de carro\u00e7as, bondes e preg\u00f5es. O sol se derramava sobre os sobrados coloridos, e a maresia chegava misturada ao cheiro de caf\u00e9 e tapioca.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o acaso \u2014 ou quem sabe a m\u00e3o invis\u00edvel das fadas \u2014 ergueu um espelho diante de seus olhos. N\u00e3o um espelho comum, mas o reflexo de uma vitrine.<\/p>\n<p>Do outro lado, surgiu a vis\u00e3o. Uma dama vestida inteiramente de vermelho. Vermelho de paix\u00e3o, de revolu\u00e7\u00e3o, de p\u00e9tala de cravo. Vermelho que queimava como aurora. Sapatos, saia, blusa, luvas, bolsa e chap\u00e9u. Tudo na cor do fogo e do sangue que pulsa.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o o viu. N\u00e3o precisava. Bastou que existisse ali, naquela rua, naquele instante, para que o mundo dele se movesse. O pr\u00edncipe sentiu, como quem desperta de um feiti\u00e7o antigo, que sua vida n\u00e3o mais caberia nos muros do Semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Virou-se para sua m\u00e3e e, com voz respeitosa, por\u00e9m inquebrant\u00e1vel, disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero ser padre. Vou casar com aquela comunista.<\/p>\n<p>E assim, como em todo conto de fadas verdadeiro, uma escolha mudou o rumo de um reino inteiro.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe nascera em 1923; a dama, em 1926. Casaram-se no ano de 1946, unindo n\u00e3o apenas m\u00e3os, mas destinos. Moraram por um tempo no reino do Rio de Janeiro, onde as ondas lhes ensinaram a paci\u00eancia das mar\u00e9s e a alegria do samba. Depois, seguiram para a nova capital erguida no cora\u00e7\u00e3o do Brasil, onde Bras\u00edlia ainda cheirava a cimento fresco e sonhos rec\u00e9m-plantados.<\/p>\n<p>Ele, um alquimista das palavras, que transformava ideias em ouro e narrativas em eternidade. Ela, uma guardi\u00e3 do lar, filha da deusa H\u00e9stia, mantendo aceso o fogo sagrado da cozinha e do abra\u00e7o, fazendo do lar um templo.<\/p>\n<p>Do amor deles nasceram dez herdeiros. N\u00e3o pr\u00edncipes de sangue azul, mas filhos de amor vermelho e trabalho honrado. Crian\u00e7as que cresceram sob o som de hist\u00f3rias, risos e conselhos; que aprenderam com o pai o poder da palavra e com a m\u00e3e a for\u00e7a do sil\u00eancio acolhedor.<\/p>\n<p>E assim, no grande livro encantado que o Tempo escreve com letras de vento e mem\u00f3ria, ficou registrado que houve, certa vez, um pr\u00edncipe que, tivesse seguido a carreira eclesi\u00e1stica, poderia ter sido Papa. Mas, ao avistar uma dama vestida de vermelho, escolheu ser pai. E aquela velha Rua Nova, antes congestionada por bondes, carro\u00e7as e Ford&#8217;s Bigode, hoje \u00e9 uma \u00e1rea paradis\u00edaca, onde transeuntes pisam em pedras portuguesas, buscando nas lojas os presentes para o Dia dos Pais.<\/p>\n<p>Quanto a Geraldo e Madalena &#8211; personagens que deixamos para apresentar no fim -, como em todo conto de fadas, viveram intensamente em meio a lutas, alegrias e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8216;T\u00e1 bom, n\u00e9, Fau?!<\/p>\n<p>&#8211; Oxente, claro que est\u00e1. Depois de uma tarde-noite com vinho, camar\u00e3o e queijo do sert\u00e3o, acho que conseguimos, com esse conto de fadas realista, cheio de nostalgia, homenagear o nosso e outros pais.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 passou o dorso das m\u00e3os nos olhos marejados. E sugeriu &#8211; dito e feito &#8211; que nem tudo \u00e9 como escreveram os Irm\u00e3os Grimm. Porque ser pai &#8211; disse-me, como m\u00e3e exemplar que \u00e9 &#8211; n\u00e3o \u00e9 ganhar presentes no segundo domingo de agosto; \u00e9 estar presente nos outros 364 dias do ano. E pontuou: &#8220;Pai de verdade n\u00e3o se mede pelo DNA, mas pelo tempo que doa e pelo exemplo que deixa. N\u00e3o basta dizer &#8216;eu te amo&#8217;. \u00c9 preciso mostrar esse amor nas pequenas atitudes. Ser pai n\u00e3o \u00e9 aparecer na foto da formatura; \u00e9 ajudar a escrever a hist\u00f3ria at\u00e9 chegar l\u00e1&#8221;. Enfim, concluiu, se o Dia dos Pais \u00e9 uma data no calend\u00e1rio, ser pai \u00e9 um compromisso di\u00e1rio, que n\u00e3o tira f\u00e9rias e n\u00e3o tem aposentadoria.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>F\u00e1tima Seabra, professora, historiadora, \u00e9 filha do homem que n\u00e3o foi padre e da mulher que lhe trocou e ensinou a trocar fraldas<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra, jornalista, diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras, \u00e9 irm\u00e3o de Fau<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz lembrar um conto de fadas, mas transporta para uma hist\u00f3ria real. Presente, claro, o famoso &#8220;era uma vez&#8230;&#8221;. 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