{"id":360591,"date":"2025-08-12T02:18:13","date_gmt":"2025-08-12T05:18:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360591"},"modified":"2025-08-12T02:33:54","modified_gmt":"2025-08-12T05:33:54","slug":"o-menino-e-a-noite-que-chegou-suavemente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-menino-e-a-noite-que-chegou-suavemente\/","title":{"rendered":"O menino e a noite que chegou suavemente"},"content":{"rendered":"<p>A noite n\u00e3o chegou de repente. Primeiro, foi um apagar pregui\u00e7oso do dia, um c\u00e9u que escurecia devagar, como quem hesita em ir embora. Depois, um vento frio varreu o beco, trazendo o cheiro da terra \u00famida e das plantas dos quintais da vizinha\u00e7a. A cidade, aos poucos, foi desligando os sons. Portas se fecharam, conversas se calaram, e o sil\u00eancio, quando veio, n\u00e3o veio sozinho: trouxe um peso que se acomodou no ar.<\/p>\n<p>No quarto de Beto, as sombras chegaram antes da noite completa. Escorreram pelas paredes, se deitaram sobre o ch\u00e3o e subiram para o teto, at\u00e9 que tudo estivesse encoberto. O arm\u00e1rio, alto e im\u00f3vel, parecia ter crescido. A escrivaninha, no canto, guardava cadernos e l\u00e1pis, mas agora era apenas um volume escuro, como um m\u00f3vel abandonado numa casa sem luz.<\/p>\n<p>O poste da esquina piscava a luz prateada, com a indecis\u00e3o de quem pensa em desistir. Entre uma piscada e outra, a rua desaparecia. E, quando sumia, parecia que o mundo inteiro tamb\u00e9m se apagava.<\/p>\n<p>A m\u00e3e tinha deixado o quarto h\u00e1 pouco. Beijou-lhe a testa, ajeitou o len\u00e7ol e disse: \u201cNada vai te acontecer, meu filho. \u00c9 s\u00f3 fechar os olhos e dormir\u201d. Mas palavras s\u00e3o fr\u00e1geis quando a noite decide ser densa. E esta noite parecia feita para testar promessas.<\/p>\n<p>Beto ficou deitado, ouvindo o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Cada batida era um som alto demais para o sil\u00eancio que havia. Tentou se distrair contando as respira\u00e7\u00f5es, como a professora de m\u00fasica ensinara, mas parou no n\u00famero oito. O sil\u00eancio n\u00e3o gostava de ser ignorado.<\/p>\n<p>O pai costumava dizer que medo \u00e9 como cachorro de rua: se voc\u00ea corre, ele corre atr\u00e1s; se voc\u00ea encara, ele recua. Beto tentou encarar. Afinal, n\u00e3o estava t\u00e3o distante dos outros da casa. Se algo acontecesse, e ele gritasse alto, a av\u00f3, que dormia no quarto ao lado, tinha o sono leve e viria de imediato. Levantou um pouco a cabe\u00e7a e olhou para o arm\u00e1rio. O que viu foi a sombra, que parecia se alongar, como se ganhasse pernas.<\/p>\n<p>Um cachorro latiu ao longe, quebrando o ar com um som agudo. Outro respondeu, mais perto, mas ambos se calaram r\u00e1pido demais, como se tivessem percebido algo que n\u00e3o deviam. O vento voltou, mais frio, e fez a janela ranger levemente.<\/p>\n<p>O trem, que passava a poucos metros de sua casa, viria em breve, esbatendo aquele sil\u00eancio denso da madrugada inquieta.<\/p>\n<p>Beto puxou o len\u00e7ol at\u00e9 o nariz. Aquele pequeno abrigo de pano guardava o calor da respira\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o era suficiente contra a sensa\u00e7\u00e3o de que havia algo no quarto. N\u00e3o algo vis\u00edvel. Algo quieto. E quietude, ele pensou, \u00e9 pior que barulho.<\/p>\n<p>O assoalho do corredor estalou duas vezes. O menino prendeu o ar. \u201cA casa est\u00e1 s\u00f3 se ajeitando\u201d, repetiu mentalmente, lembrando da voz da m\u00e3e. As casas antigas s\u00e3o como velhos corpos. T\u00eam articula\u00e7\u00f5es que se ajeitam. E rangem. Mas, naquela noite, at\u00e9 as explica\u00e7\u00f5es familiares soavam fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>Ele pensou em cham\u00e1-la. Mas se a m\u00e3e viesse agora, acenderia a luz e mostraria que n\u00e3o havia nada. E talvez ele n\u00e3o quisesse ver que n\u00e3o havia nada. Parte do medo era justamente n\u00e3o saber.<\/p>\n<p>Ficou alguns minutos im\u00f3vel, tentando sentir se havia algo se mexendo no quarto. N\u00e3o havia. Ou havia e estava esperando.<\/p>\n<p>Decidiu levantar. Sentiu o frio do ch\u00e3o subir pelos p\u00e9s, como a \u00e1gua gelada de um regato. Passou pelo arm\u00e1rio sem olhar para ele, como quem atravessa uma rua sem olhar para os lados. Foi at\u00e9 a janela.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, o beco estava vazio. As casas vizinhas dormiam no seu sil\u00eancio. O poste ainda piscava, teimoso, como se cada lampejo fosse um esfor\u00e7o de sobreviv\u00eancia. Entre uma piscada e outra, a escurid\u00e3o engolia tudo, como se o mundo fosse feito apenas de dois estados: existir e sumir.<\/p>\n<p>Beto olhou por alguns minutos. O frio do vidro passou para as m\u00e3os. Aos poucos, percebeu que n\u00e3o havia nada \u00e0 espreita. N\u00e3o havia monstros, nem sombras diferentes daquelas que a luz inventa. S\u00f3 o mundo, no seu tamanho real: frio, parado, alheio ao medo de um menino.<\/p>\n<p>Sentiu o peito desacelerar. Voltou para a cama. O medo, percebendo-se ignorado, encolheu-se num canto qualquer do quarto, como um traste in\u00fatil.<\/p>\n<p>Quando a manh\u00e3 entrou pela fresta da cortina, trazendo o cheiro do caf\u00e9 e o som distante de um r\u00e1dio ligado na cozinha, a noite anterior parecia mentira. Como se nunca tivesse acontecido.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite n\u00e3o chegou de repente. Primeiro, foi um apagar pregui\u00e7oso do dia, um c\u00e9u que escurecia devagar, como quem hesita em ir embora. Depois, um vento frio varreu o beco, trazendo o cheiro da terra \u00famida e das plantas dos quintais da vizinha\u00e7a. A cidade, aos poucos, foi desligando os sons. 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