{"id":360758,"date":"2025-08-11T16:36:16","date_gmt":"2025-08-11T19:36:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360758"},"modified":"2025-08-11T16:36:16","modified_gmt":"2025-08-11T19:36:16","slug":"candidato-cao-usa-malandragem-tira-gravata-e-vai-morar-com-eleitor-de-favela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/candidato-cao-usa-malandragem-tira-gravata-e-vai-morar-com-eleitor-de-favela\/","title":{"rendered":"Candidato Ca\u00f4 usa malandragem, tira gravata e vai morar com eleitor de favela"},"content":{"rendered":"<p>Uma passagem r\u00e1pida por Bras\u00edlia me estarrece pouco depois do desembarque no JK. N\u00e3o pelo frio que faz na cidade, se comparado ao sol do litoral pernambucano. Mas, sim, o jogo sujo de pretensos candidatos ao Pal\u00e1cio do Buriti nas elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo ano. Ouvi boquiaberto nesta segunda, 12, a imagina\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil de uma dessas figuras. Algo que, todos sabemos, no frigir dos ovos vai terminar com mais promessa que resultado.<\/p>\n<p>O sol t\u00edmido da sexta-feira, 8, sequer chegava \u00e0 terra poeirenta de uma das maiores comunidades do Distrito Federal, quando o cidad\u00e3o l\u00e1 aportou de mala (comprada no Rio de Janeiro) e cuia, arrastada em uma feira do Maranh\u00e3o. Trocou o conforto de uma bela resid\u00eancia no Plano Piloto para ser &#8216;um deles&#8217;- o eleitor de baixa renda, que passou a ouvir que com ele no Buriti, o p\u00e3o da favela teria o mesmo sabor das guloseimas do Lago Sul.<\/p>\n<p>Desceu do carro importado, mandou que o motorista desaparecesse e p\u00f4s-se a procurar um barraco para alugar. Suava, fruto de um nervosismo de iniciantes, e sorria aquele sorriso ensaiado. Era um sujeito j\u00e1 sem gravata, embora com roupas de grife. \u201cQuero viver de igual pra igual com voc\u00eas\u201d, anunciou, como se tivesse acabado de receber um passe livre para o c\u00e9u da credibilidade popular.<\/p>\n<p>Depois de acomodado em um im\u00f3vel simples, com telhado de zinco, fez-se de fake de socialista, foi \u00e0 rua, arrega\u00e7ou as mangas, ajeitou aquelas fei\u00e7\u00f5es do Coringa e foi logo se enturmando. O primeiro ponto de parada foi a tendinha do Z\u00e9 do Pinga. Virou um copinho de cacha\u00e7a como quem mata a saudade de uma inf\u00e2ncia que nunca teve. Chegou, inclusive, n\u00e3o se sabe se por coragem ou desespero eleitoral, a fumar um neg\u00f3cio que nem o dono quis assumir.<\/p>\n<p>Seguiu o roteiro desenhado por seus marqueteiros &#8211; ali\u00e1s, ele mesmo, homem de comunica\u00e7\u00e3o, profissional da \u00e1rea &#8211; e jantou no barrac\u00e3o da Dona Nen\u00e9m, com direito a prato improvisado. \u201cAqui \u00e9 raiz, minha gente!\u201d, dizia, cuspindo as consoantes com gosto. At\u00e9 parecia que o homem tinha descoberto o ouro.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, amanheceu no terreiro. Pediu b\u00ean\u00e7\u00e3o ao guia, bateu cabe\u00e7a no gong\u00e1, bebeu \u00e1gua da cisterna e se declarou \u201cfilho da terra\u201d. Mas a incorpora\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida. O guia olhou bem no olho dele e largou a senten\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Esse a\u00ed \u00e9 safado. Hoje pede seu voto, amanh\u00e3 manda a pol\u00edcia te prender, disse, tamborilando o velho samba de Walter Menin\u00e3o e Pedro Butina, sucesso na voz de Bezerra da Silva.<\/p>\n<p>A vizinhan\u00e7a riu, meio sem gra\u00e7a, meio sabendo que era verdade. E o pior: a frase ecoou como an\u00fancio de previs\u00e3o do tempo \u2014 e sem chance de errar.<\/p>\n<p>O tal candidato ainda circulou pelas ruas, tirando selfie com cachorro vira-lata, jogando domin\u00f3 na pra\u00e7a e prometendo asfalto, saneamento, internet gr\u00e1tis e at\u00e9 ressuscitar a festa junina que o \u00faltimo administrador da RA matou. Depois seguiu para o barraco alugado, deixando um cheiro de perfume caro e um punhado de folders com cr\u00edticas aos governantes, que j\u00e1 servem pra forrar a gaiola do periquito.<\/p>\n<p>O domingo, Dia dos Pais, n\u00e3o foi diferente. A figura era alvo de coment\u00e1rios em todos os lugares.<\/p>\n<p>\u2014 Rapaz, tu viu quem mudou para a comunidade? \u2014 perguntou o Tonho, j\u00e1 ajeitando o copo de cacha\u00e7a na mesa de ferro.<\/p>\n<p>\u2014 Vi sim\u2026 sem gravata, camisa aberta no peito, sorriso de quem acha que \u00e9 da fam\u00edlia. \u2014 respondeu o Z\u00e9, mastigando devagar um pastel de vento.<\/p>\n<p>Ele chegou como quem conhece o terreno, mas trope\u00e7ou logo no primeiro degrau. Foi na tendinha do Seu Bibico e pediu \u201co de sempre\u201d. S\u00f3 que ningu\u00e9m lembrava qual era o \u201csempre\u201d dele, ent\u00e3o meteram um copinho de cana na m\u00e3o. Virou como se fosse veterano, piscou pra galera e ainda arriscou uma tragada em outro enrolado suspeito que o Cabelinho ofereceu.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, mas n\u00e3o parou por a\u00ed \u2014 continuou Tonho. \u2014 O homem foi jantar no barrac\u00e3o da Dona Nen\u00e9m. E tu acredita que ele usou lata de goiabada como prato?<\/p>\n<p>\u2014 Pra fazer charme, n\u00e9? \u2014 disse o Z\u00e9. \u2014 Aposto que em casa nem sabe onde fica a cozinha.<\/p>\n<p>E a roda de domin\u00f3, que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 ouvia, caiu na gargalhada. O Candidato Ca\u00f4 ainda tentou improvisar um discurso:<\/p>\n<p>\u2014 Meu povo, eu sou um de voc\u00eas. Quero viver igual!<\/p>\n<p>O Seu Bibico n\u00e3o perdoou:<\/p>\n<p>\u2014 Igual s\u00f3 se for no zap, porque no boleto do condom\u00ednio n\u00e3o vai ter meu nome n\u00e3o!<\/p>\n<p>Voltou a tirar selfies, agora ao lado do Naldo &#8211; que cobrou uma dose em troca -, comeu um peda\u00e7o de bolo de milho e prometeu mundos e fundos. Na velha cama, \u00e0 noite, fechou os olhos com a certeza de que tinha \u201cganhado o cora\u00e7\u00e3o do povo\u201d.<\/p>\n<p>Mas no boteco todo mundo j\u00e1 sabia: Ca\u00f4-Ca\u00f4 de ontem \u00e9 o mesmo Ca\u00f4-Ca\u00f4 de hoje, s\u00f3 muda o figurino. Na hora do voto ele \u00e9 teu amigo; na hora de governar, te trata como n\u00famero de protocolo.<\/p>\n<p>E o Tonho ainda concluiu, erguendo o copo:<\/p>\n<p>\u2014 Esse a\u00ed \u00e9 igual pinga ruim, porque arde na entrada, amarga no meio e d\u00e1 ressaca depois.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe quanto tempo o rapaz aguentar\u00e1 esse novo estilo de vida. Muita poeira, vag\u00e3o de metr\u00f4 que se compara a lata de sardinha&#8230; Gente do seu entorno aposta que \u00e9 aventura breve.<\/p>\n<p>Particularmente, avalio que logo, logo ele desiste dessa empreitada. Mesmo porque, quem conhece o jogo sabe que o Ca\u00f4 pode at\u00e9 mudar a embalagem, mas o recheio continua o mesmo. O \u201cpol\u00edtico raiz\u201d de hoje \u00e9 s\u00f3 o mesmo figurante de sempre, com roteiro atualizado. E quando a urna fecha, a gravata volta, o carro sobe a ladeira e, l\u00e1 do gabinete refrigerado, ele acena: \u201cValeu, meu povo!\u201d.<\/p>\n<p>Depois&#8230; bem, depois, o povo paga a conta.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma passagem r\u00e1pida por Bras\u00edlia me estarrece pouco depois do desembarque no JK. N\u00e3o pelo frio que faz na cidade, se comparado ao sol do litoral pernambucano. Mas, sim, o jogo sujo de pretensos candidatos ao Pal\u00e1cio do Buriti nas elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo ano. 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