{"id":360901,"date":"2025-08-21T01:48:19","date_gmt":"2025-08-21T04:48:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=360901"},"modified":"2025-08-13T14:07:13","modified_gmt":"2025-08-13T17:07:13","slug":"tres-da-madrugada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tres-da-madrugada\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas da madrugada"},"content":{"rendered":"<p>Edgar Allan Poe inicia o poema O corvo com os versos \u201cEm certo dia, \u00e0 hora, \u00e0 hora da meia-noite, que apavora\u201d, e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>S\u00f3 que ele se enganou. A hora fat\u00eddica, que causa terror, \u00e9 outra: tr\u00eas da madrugada.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas da madrugada, o planeta como que hesita e quase se det\u00e9m em seus movimentos. Sorte nossa, fica no quase.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas da madrugada, os rel\u00f3gios como que hesitam e quase se det\u00eam em seu movimento. Sorte nossa, ficam no quase. E n\u00e3o adianta argumentar que se est\u00e1 em hor\u00e1rio de ver\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o vai apertar dentro do peito \u00e0s quatro, \u00e0s cinco, no hor\u00e1rio astron\u00f4mico das tr\u00eas em ponto. E o tempo vai prosseguir, inexor\u00e1vel, em sua marcha.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas da madrugada, os fantasmas se entregam a seu triste destino, \u00e0 ingl\u00f3ria tentativa de assustar os viventes. J\u00e1 os monstros, esses correm soltos.<\/p>\n<p>Porque essa hora \u00e9 o meio exato da madrugada. Como ensina a can\u00e7\u00e3o Balada para mi muerte, de Horacio Ferrer e Astor Piazzolla, a madrugada, o per\u00edodo compreendido entre 0h01 e 5h59, \u201ces la hora em que mueren los que saben morir\u201d. Inquietante, n\u00e3o? E, de fato, algu\u00e9m sabe morrer, est\u00e1 realmente preparado para a passagem?<\/p>\n<p>A hora das tr\u00eas da madrugada \u00e9 como que a s\u00edntese da \u201cnoite escura da alma\u201d de que falaram s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, poeta m\u00edstico espanhol do s\u00e9culo XVI, referindo-se ao casamento sagrado, ao encontro da alma com o Amado; e tamb\u00e9m Carl Gustav Jung, para quem a met\u00e1fora expressava o dif\u00edcil e obscuro caminho da psique, \u00e0s voltas com a revis\u00e3o de seus erros existenciais. Talvez tenham raz\u00e3o \u2013 mas, a meu ver, essas palavras remetem a algo mais tenebroso do que isso.<\/p>\n<p>Porque, repito, os monstros correm soltos. E nos visitam, em sonhos ou nos momentos de vig\u00edlia. Percebi sinais perturbadores nas duas noites passadas, enquanto dormia; hoje, noite escura de ins\u00f4nia, os ind\u00edcios mostram-se ostensivos desde as duas da madrugada. Seres horrendos, indescrit\u00edveis, se aproximam.<\/p>\n<p>Escrevo estas linhas \u00e0s 2h58, enquanto ou\u00e7o batidas insistentes na minha porta e rosnados vindos do outro lado. \u00c9 mais de um, talvez o nome deles seja legi\u00e3o. Mas ostentar conhecimentos b\u00edblicos n\u00e3o vai mudar meu destino. \u00c9 a noite escura da minha alma. S\u00f3 espero que este texto sobreviva, n\u00e3o tenha a mesma sorte de minha carne e meu esp\u00edrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edgar Allan Poe inicia o poema O corvo com os versos \u201cEm certo dia, \u00e0 hora, \u00e0 hora da meia-noite, que apavora\u201d, e por a\u00ed vai. S\u00f3 que ele se enganou. 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