{"id":361161,"date":"2025-08-30T01:16:53","date_gmt":"2025-08-30T04:16:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361161"},"modified":"2025-08-15T12:20:55","modified_gmt":"2025-08-15T15:20:55","slug":"os-deuses-do-aco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-deuses-do-aco\/","title":{"rendered":"Os deuses do a\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Em seu anivers\u00e1rio, Juarez ganhou uma machadinha e um canivete de um amigo que colecionava armas brancas. Ele jamais possu\u00edra uma faca ou algo parecido, mas se apaixonou pelos dois presentes. O pequeno machado, de empunhadura anat\u00f4mica, lembrava uma arma anglo-sax\u00e3 de arremesso ou um tomahawk dos nativos norte-americanos. O canivete, por sua vez, n\u00e3o era do modelo su\u00ed\u00e7o, com pequenas l\u00e2minas para mil e uma utilidades; era uma faca de l\u00e2mina retr\u00e1til, de uns 20 cent\u00edmetros de extens\u00e3o quando aberta. Sua ponta agu\u00e7ada proclamava que n\u00e3o se tratava de um objeto de corte, e sim de algo destinado a perfurar, romper tecidos, matar talvez.<\/p>\n<p>Com um sorriso, Juarez digitou uma mensagem para o amigo:<\/p>\n<p>\u201cCara, obrigado pelos presentes. Usei na minha filha e na minha neta, estavam muito chatas. Sujou um pouco, mas os gatos est\u00e3o me ajudando a limpar o sangue. Um grande abra\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Horas mais tarde, ele se perguntou por que fizera aquela brincadeira de gosto mais que duvidoso. Seu relacionamento com as duas mulheres da casa era tranquilo \u2013 quer dizer, dentro dos padr\u00f5es da fam\u00edlia disfuncional brasileira. Alternava palavras de carinho e outras de desprezo, apoio nos momentos dif\u00edceis e revoltantes demonstra\u00e7\u00f5es de ego\u00edsmo. \u201cSe isso fosse motivo para matar, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m vivo no Brasil\u201d, pensou com um sorriso. \u201cFoi s\u00f3 uma piadinha que deu chabu\u201d. E foi dormir.<\/p>\n<p>Acordou de madrugada, com uma voz ressoando em sua mente:<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a a oferenda! Os deuses do a\u00e7o t\u00eam sede!<\/p>\n<p>A partir desse momento, a voz n\u00e3o cessou de ser ouvida. O tom variava \u2013 cobran\u00e7a en\u00e9rgica, s\u00faplica, raiva por sua ina\u00e7\u00e3o \u2013, as palavras n\u00e3o. Imaginou que estava ficando louco, mas depois admitiu a hip\u00f3tese de os objetos terem vida pr\u00f3pria. E uma personalidade maligna.<\/p>\n<p>Sete dias depois, sem ter dormido um \u00fanico segundo durante todo esse tempo, ele resolveu obedecer \u00e0 exig\u00eancia dos deuses. Imaginou como o crime seria apresentado nos jornais \u2013 feminic\u00eddio, dist\u00farbio ps\u00edquico agravado pela pandemia&#8230; Recordou-se do romance \u201cO estrangeiro\u201d, do franc\u00eas Albert Camus, cujo protagonista mata um homem num del\u00edrio induzido pelo calor e pela forte luminosidade. \u201cNo meu caso n\u00e3o s\u00e3o a luz e o calor, \u00e9 a cobran\u00e7a que n\u00e3o para, s\u00e3o as palavras daqueles filhos da puta\u201d, pensou com um suspiro de amargura.<\/p>\n<p>Na madrugada seguinte, Juarez esfaqueou at\u00e9 a morte a filha e a neta. No mesmo momento as vozes silenciaram. Ficou duas horas em sil\u00eancio, sentado no sof\u00e1 da sala, saboreando a quietude. Depois, decidiu ligar para a pol\u00edcia, mas n\u00e3o para se entregar.<\/p>\n<p>&#8211; Quando eles entrarem no apartamento, lan\u00e7o a machadinha \u2013 falou consigo mesmo. \u2013 Com sorte, acabo com mais um. E avan\u00e7o com a faca. Eles com certeza v\u00e3o me matar, mas levo comigo mais oferendas. Os deuses do a\u00e7o est\u00e3o sempre com sede!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu anivers\u00e1rio, Juarez ganhou uma machadinha e um canivete de um amigo que colecionava armas brancas. Ele jamais possu\u00edra uma faca ou algo parecido, mas se apaixonou pelos dois presentes. O pequeno machado, de empunhadura anat\u00f4mica, lembrava uma arma anglo-sax\u00e3 de arremesso ou um tomahawk dos nativos norte-americanos. 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