{"id":361165,"date":"2025-08-31T02:23:09","date_gmt":"2025-08-31T05:23:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361165"},"modified":"2025-08-15T12:29:12","modified_gmt":"2025-08-15T15:29:12","slug":"fendas-destinadas-a-exibir-pernas-ainda-atraentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fendas-destinadas-a-exibir-pernas-ainda-atraentes\/","title":{"rendered":"Fendas destinadas a exibir pernas ainda atraentes"},"content":{"rendered":"<p>Jorge e Isabel eram tangueros. Vestiam roupas simples \u2013 ele, um terno escuro fora de moda, complementado por um chap\u00e9u mais que obsoleto; ela, um vestido azul com fendas destinadas a exibir-lhe as pernas ainda atraentes \u2013, colocavam um aparelho de som na rua, junto a uma bandeira argentina, uma vasilha para receber as contribui\u00e7\u00f5es dos apreciadores (esmolas de quem passava seria uma descri\u00e7\u00e3o mais precisa, por\u00e9m demasiado rude). E tangueavam.<\/p>\n<p>Ele movia-se com passos curtos, o corpo levemente encurvado. Ela o acompanhava com habilidade, mas sem brio. Era a dan\u00e7a triste de um casal maduro, quase idoso, sem a arrog\u00e2ncia sedutora de tangueras e tangueros na flor da idade. Um tango de gente pobre, obrigada a exibir sua \u00fanica habilidade nas ruas para sobreviver.<\/p>\n<p>E bem ou mal conseguiam. O incentivo (esmola?) dos aficionados pingava constantemente na vasilha, passantes deixavam-se contagiar pelo exemplo dos dan\u00e7arinos e ensaiavam passos solit\u00e1rios, os dois recebiam aplausos, dava para ter uma vida humilde mas com um m\u00ednimo de dignidade. S\u00f3 que, Isabel e Jorge o descobriram amargamente, tango e calor tropical n\u00e3o combinam.<\/p>\n<p>Aconteceu de um compatriota, autoproclamado empres\u00e1rio no setor de entretenimento, os convencer a realizar uma turn\u00ea pelos cabar\u00e9s do Rio de Janeiro. Receberam o dinheiro para duas passagens de \u00f4nibus Buenos Aires \u2013 Rio, o resto seria pago depois de chegarem. S\u00f3 que o empres\u00e1rio sumiu, ou foi \u00e0 fal\u00eancia, tanto faz, e o sonho de um tour glorioso se desfez. Para piorar as coisas, foram assaltados, ficaram sem um tost\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sorte, haviam trazido o aparelho de som, que ficara na pens\u00e3o barata em que estavam hospedados. Retomaram ent\u00e3o as exibi\u00e7\u00f5es na rua, como faziam em Buenos Aires, na Calle Florida. A Cinel\u00e2ndia \u2013 n\u00e3o Copacabana, muito menos Ipanema \u2013 seria o palco.<\/p>\n<p>Foi um fracasso total. A mo\u00e7ada do samba e do funk n\u00e3o entendia a letra, n\u00e3o entrava na vibe do tango, \u201ctristeza que se baila\u201d. Familiarizada com a peritagem vibrante e luminosa de passistas e mestres-salas, n\u00e3o captava a habilidade lancinante e sombria de Jorge, em seu terno pu\u00eddo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que os deuses protegem tangueros envelhecidos. No caso de Isabel e Jorge, os anjos da guarda foram velhos bo\u00eamios cariocas, frequentadores aposentados de cabar\u00e9s que n\u00e3o existiam mais, testemunhas de um tempo para sempre perdido, em que o tango dominava as noites do Rio e incorporava \u00e0 g\u00edria do Brasil palavras como mina, cafifa e\/ou cafiolo, grana, ot\u00e1rio e bacana. Comovidos, saudosos n\u00e3o de exibi\u00e7\u00f5es de tango, mas de sua pr\u00f3pria juventude, eles fizeram uma vaquinha e conseguiram devolver o casal a sua bem-amada Calle Florida, onde se apresentar\u00e3o pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos, am\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge e Isabel eram tangueros. 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