{"id":361169,"date":"2025-09-01T01:00:30","date_gmt":"2025-09-01T04:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361169"},"modified":"2025-08-31T01:01:21","modified_gmt":"2025-08-31T04:01:21","slug":"o-que-e-uma-bencao-tambem-pode-ser-perigoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-que-e-uma-bencao-tambem-pode-ser-perigoso\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser perigoso"},"content":{"rendered":"<p>Ano Novo, vida nova! O mundo como que renasce. O que \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser muito perigoso.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 1 de janeiro de 202? Lucas caminhava pela cal\u00e7ada quando presenciou o quase atropelamento. Depois viu o motorista descer, furioso, e gritar com a quase v\u00edtima:<\/p>\n<p>&#8211; Quer morrer? Voc\u00ea n\u00e3o viu meu [palavra incompreens\u00edvel]?<\/p>\n<p>&#8211; Culpa sua! O [segunda palavra incompreens\u00edvel] vinha em alta velocidade, quase me matou!<\/p>\n<p>Cada um designava o b\u00f3lido por um termo diferente, incompreens\u00edvel, que parecia rec\u00e9m-criado pelo falante. A diverg\u00eancia lingu\u00edstica fez subir ainda mais a adrenalina, a porrada rolou solta. Por sorte, nenhum dos brig\u00f5es estava armado.<\/p>\n<p>Enquanto prosseguia em seu passeio, Lucas concluiu que a incompreens\u00e3o m\u00fatua havia sido um fator importante no conflito. \u201cCada um achou que o outro estava zombando dele\u201d, pensou, \u201cpois utilizou um termo diferente e inusitado para designar o [terceira palavra incompreens\u00edvel]\u201d.<\/p>\n<p>Abalado, percebeu o que havia feito. Quando se recuperou, sua curiosidade levou a melhor e decidiu tirar a d\u00favida. Aproximou-se de um transeunte e perguntou com delicadeza:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe incomodar, senhor, mas como chama aquilo? \u2013 e apontou para um convers\u00edvel vermelho estacionado.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, \u00e9 um [quarta palavra incompreens\u00edvel] vermelho. \u00c9 seu? Quer vender?<\/p>\n<p>Lucas disse que n\u00e3o, n\u00e3o era dele, agradeceu e voltou r\u00e1pido para casa. As not\u00edcias transmitidas pela TV e pelas redes sociais confirmaram suas piores suspeitas: cada pessoa estava criando seus pr\u00f3prios termos para designar coisas do cotidiano, e se enraivecendo ao n\u00e3o ser compreendida ou, pior, ao ver o interlocutor designar o objeto por uma algaravia qualquer. Resultado, brigas por toda parte, algumas com v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Sem falar no brutal aumento da viol\u00eancia policial. Multiplicavam-se pris\u00f5es (e surras) por desacato \u00e0 autoridade, dentro do esquema:<\/p>\n<p>&#8211; Mostre seus [palavra incompreens\u00edvel, provavelmente para \u201cdocumentos\u201d].<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o entendi, senhor [palavra incompreens\u00edvel, provavelmente para \u201cpolicial\u201d].<\/p>\n<p>E o pau comia.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es veiculadas pela m\u00eddia variavam. Influenciadores da extrema direita culpavam os vermelhos, ou os comunas, ou os petralhas \u2013 era imposs\u00edvel saber o que seus grunhidos significavam precisamente, mas as gravuras com foices &amp;martelos para as quais apontavam com furor eram eloquentes. J\u00e1 os de esquerda, mais esclarecidos pouquinha coisa, preferiram manter um sil\u00eancio prudente. Pastores fundamentalistas afirmavam que os pecados dos homens despertaram a ira de Deus; era o que se podia deduzir dos termos ainda compreens\u00edveis, \u201cdespertaram a ira\u201d.<\/p>\n<p>Por sorte, percebeu Lucas, substantivos mais abrangentes ou de conte\u00fado menos terra a terra como \u201cculpa\u201d, \u201cira\u201d ou \u201chumanidade\u201d permaneciam intelig\u00edveis, e o mesmo acontecia com os verbos. Ele tremeu ao pensar no caos generalizado que se instauraria quando todas as a\u00e7\u00f5es fossem designadas pelo verbo \u201ccoisar\u201d, pronunciado de mil maneiras diferentes, intelig\u00edveis apenas para o falante que o enunciara.<\/p>\n<p>O que, exatamente, estava ocorrendo? Alguns analistas falaram em babeliza\u00e7\u00e3o. Lucas concordou, o fen\u00f4meno lembrava o que, segundo a B\u00edblia, se passara com os construtores da torre de Babel. Pensou em seguida em outro epis\u00f3dio b\u00edblico, em que Deus atribui a Ad\u00e3o a tarefa de nomear todos os seres vivos. \u201cFuncionou porque s\u00f3 um teve direito a voz\u201d, pensou. \u201cSe todos o fizessem, o resultado seria a babeliza\u00e7\u00e3o que estamos testemunhando\u201d.<\/p>\n<p>Por que isso estava acontecendo? S\u00f3 podia ser uma brincadeira de mau gosto do universo ou das divindades (de qualquer modo, brincadeira dos deuses soava menos grave, menos irrevers\u00edvel, do que castigo divino pelos pecados dos homens). De repente, lembrou de uma passagem de Cem Anos de Solid\u00e3o, do colombiano Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez: \u201cO mundo era t\u00e3o recente que muitas coisas careciam de nome e para mencion\u00e1-las se precisava apontar com o dedo\u201d. Ele concluiu: \u201cVai ver que, para sobreviver \u00e0 babeliza\u00e7\u00e3o, teremos de recorrer \u00e0 macondiza\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e0 vida em pequenas comunidades de pessoas que se conhecem, como em Macondo, fundada como uma aldeia de vinte casas de barro e taquara por um punhado de amigos\u201d.<\/p>\n<p>Lucas s\u00f3 adormeceu, exausto, \u00e0s 6 da manh\u00e3. No dia 2 de janeiro, por\u00e9m, o mundo j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o recente, t\u00e3o renascido de novo, e a babeliza\u00e7\u00e3o ficou para tr\u00e1s, como um pesadelo que se tenta (inutilmente) esquecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano Novo, vida nova! O mundo como que renasce. O que \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser muito perigoso. S\u00e3o Paulo, 1 de janeiro de 202? Lucas caminhava pela cal\u00e7ada quando presenciou o quase atropelamento. Depois viu o motorista descer, furioso, e gritar com a quase v\u00edtima: &#8211; Quer morrer? 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