{"id":361173,"date":"2025-09-02T01:00:59","date_gmt":"2025-09-02T04:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361173"},"modified":"2025-08-31T07:40:13","modified_gmt":"2025-08-31T10:40:13","slug":"artemis-e-orion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/artemis-e-orion\/","title":{"rendered":"\u00c1rtemis e \u00d3rion"},"content":{"rendered":"<p>Ela era ca\u00e7adora, mas n\u00e3o abatia animais e sim poetas er\u00f3ticos. Frequentava saraus liter\u00e1rios para encontrar suas presas.<\/p>\n<p>Nessas ocasi\u00f5es, usava o nome de \u00c1rtemis, a deusa da ca\u00e7a da mitologia grega. Era uma sutil advert\u00eancia para suas futuras v\u00edtimas, uma oportunidade para que desconfiassem da conquista demasiado f\u00e1cil e se resguardassem. Por\u00e9m muito poucos o faziam.<\/p>\n<p>O esquema n\u00e3o variava muito. \u00c1rtemis dirigia-se a seu campo de ca\u00e7a, o sarau, afivelava no rosto uma express\u00e3o sens\u00edvel e inteligente para disfar\u00e7ar o t\u00e9dio e ficava escutando poetas e poetisas falarem de Amor, do Ser, da Natureza, de Deus (tudo com uma mai\u00fascula inicial) e por a\u00ed vai. Uma baboseira. De tempos em tempos, por\u00e9m, algu\u00e9m declamava versos com imagens fortes, do tipo orif\u00edcios profanos (ou divinos, tanto fazia, o importante eram os orif\u00edcios), lan\u00e7a em riste, vulc\u00f5es jorrando a lava dos deuses, coisas assim. \u00c1rtemis despertava, a m\u00e1scara ca\u00eda por terra, seus olhos brilhavam de interesse e excita\u00e7\u00e3o. No fim do sarau, ela se aproximava da v\u00edtima, dizia seu nome, que tinha adorado o poema. E implorava que ele recitasse suas cria\u00e7\u00f5es num local privado, s\u00f3 pra ela&#8230; Lisonjeada, a presa sempre aceitava.<\/p>\n<p>O abate em geral ocorria num hotel pr\u00f3ximo, ou no apartamento de \u00c1rtemis. Ela dominava a transa e, literalmente, esgotava o parceiro.<\/p>\n<p>Tr\u00eas poetas j\u00e1 haviam morrido em pleno ato. Outros sobreviviam, mas ficavam meses sem fazer, recuperando-se, e a partir da\u00ed trocavam a poesia er\u00f3tica, perigos\u00edssima, por temas religiosos ou filos\u00f3ficos. Ela, em contrapartida, ficava cada vez mais bela e mais jovem. Fazia aquilo h\u00e1 muitas centenas de anos, e pretendia continuar por toda a eternidade.<\/p>\n<p>Certa noite, num sarau, \u00c1rtemis avistou um homem atraente, que trazia afivelada no rosto uma express\u00e3o de sensibilidade e intelig\u00eancia \u2013 t\u00e3o falsa quanto a dela.<\/p>\n<p>\u201cAquele filhodeuma\u00e9gua t\u00e1 fingindo, que nem eu\u201d, pensou.<\/p>\n<p>No final, dirigiu-se n\u00e3o ao poeta er\u00f3tico da vez \u2013 sorte dele e sorte dela, era um velho feio pra ded\u00e9u \u2013, mas ao desconhecido.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite. Meu nome \u00e9 \u00c1rtemis.<\/p>\n<p>&#8211; O meu \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vou chama-lo de \u00d3rion.<\/p>\n<p>&#8211; O ca\u00e7ador, companheiro de \u00c1rtemis e seu \u00fanico amor \u2013 completou o homem.<\/p>\n<p>\u201cDeuses, ele conhece mitologia! Os imbecis dos poetas daqui nem se tocam!\u201d<\/p>\n<p>\u00d3rion preparou a seta, mas \u00c1rtemis foi mais r\u00e1pida:<\/p>\n<p>&#8211; Gostaria de conversar com voc\u00ea num lugar mais discreto. Acho que temos muito em comum.<\/p>\n<p>Entraram no primeiro hotel. \u00c1rtemis aproximou-se, os l\u00e1bios entreabertos, mas \u00d3rion e a afastou.<\/p>\n<p>&#8211; Quer transar? Eu topo. Mas nada de usar seus poderes para me esgotar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o vou usar os meus para a esgotar. Vamos fazer um amor inesquec\u00edvel, como semideuses. Voc\u00ea \u00e9 uma semideusa, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim \u2013 respondeu \u00c1rtemis, num fio de voz.<\/p>\n<p>Quando o embate terminou, \u00c1rtemis disse ao parceiro:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3rion, adorei, mas nossa sobreviv\u00eancia depende da energia vital de nossas v\u00edtimas. Ent\u00e3o vou continuar a ca\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E se ca\u00e7\u00e1ssemos juntos? Era o que faziam, nos bosques da H\u00e9lade, a \u00c1rtemis e o \u00d3rion originais. Conquisto uma ot\u00e1ria, voc\u00ea seduz um ot\u00e1rio, sugerimos uma festinha e eles topam na hora!<\/p>\n<p>&#8211; E, se um deles n\u00e3o quiser, o outro ou a outra n\u00e3o vai resistir \u00e0 expectativa de um m\u00e9nage \u2013 completou \u00c1rtemis, entusiasmada.<\/p>\n<p>Desde esse dia, as fileiras de poetas er\u00f3ticos diminu\u00edram sensivelmente. Mas, gra\u00e7as aos deuses, o g\u00eanero e seu adeptos sobrevivem. Afinal, \u00c1rtemis e \u00d3rion precisam se alimentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela era ca\u00e7adora, mas n\u00e3o abatia animais e sim poetas er\u00f3ticos. Frequentava saraus liter\u00e1rios para encontrar suas presas. Nessas ocasi\u00f5es, usava o nome de \u00c1rtemis, a deusa da ca\u00e7a da mitologia grega. 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