{"id":361189,"date":"2025-09-05T02:00:30","date_gmt":"2025-09-05T05:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361189"},"modified":"2025-09-03T23:28:27","modified_gmt":"2025-09-04T02:28:27","slug":"fazia-um-calor-de-rachar-de-untar-o-bestunto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fazia-um-calor-de-rachar-de-untar-o-bestunto\/","title":{"rendered":"Fazia um calor de rachar, de untar o bestunto"},"content":{"rendered":"<p>Alguns contos meus, n\u00e3o direi quais, foram baseados em antigas piadas.<\/p>\n<p>Divirto-me em lan\u00e7ar m\u00e3o de saberes populares transmitidos em papos de moleques, em meio a risadas e palavr\u00f5es, e transform\u00e1-los em literatura, no m\u00ednimo em algo escrito, destinado a durar.<\/p>\n<p>O conto que voc\u00eas v\u00e3o ler pertence a essa categoria. Ouvi a historinha na adolesc\u00eancia e, por algum motivo, fincou ra\u00edzes em meus neur\u00f4nios. S\u00f3 espero que o causo n\u00e3o tenha percorrido o caminho inverso, quer dizer, surgido como cr\u00f4nica e sendo resumido como piada para divulga\u00e7\u00e3o urbi et orbi. Se for assim, juro, o pl\u00e1gio \u00e9 involunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Agora, o conto.<\/p>\n<p>Uma rua qualquer do centro do Rio de Janeiro, d\u00e9cada de 1960. Fazia um calor de rachar, de untar o bestunto (como se escrevia no final do s\u00e9culo 19), de fritar os miolos. Suando em bicas, um homem conduzia o seu burrinho sem rabo, carregado com objetos jogados fora. Seguia para um lix\u00e3o \u2013 a ideia de reciclagem n\u00e3o existia na \u00e9poca \u2013 onde muitas daquelas coisas fariam a felicidade dos mais humildes, quer dizer, dos pobrezinhos de marr\u00e9 marr\u00e9 marr\u00e9.<\/p>\n<p>O carroceiro chamava-se Ant\u00f4nio, sobrenome dispens\u00e1vel. Tinha 58 anos e sempre agradecia aos c\u00e9us por ainda ter for\u00e7as para trabalhar. Era com o esfor\u00e7o de seus bra\u00e7os que assegurava seu sustento e o da mulher. Os dois filhos j\u00e1 eram adultos e tinham suas pr\u00f3prias fam\u00edlias.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, em uma esquina, viu uma mulher chorando, ca\u00edda na cal\u00e7ada. Era velha, aparentava ter mais de 70 anos, usava roupas esfarrapadas e tinha um ferimento feio na perna esquerda. Ant\u00f4nio aproximou-se e perguntou, sol\u00edcito:<\/p>\n<p>&#8211; O que houve com a senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Fui atropelada por uma bicicleta \u2013 respondeu a prov\u00e1vel sem-teto (mentira minha, na \u00e9poca ela seria chamada de mendiga, de moradora de rua, no m\u00ednimo de indigente, mas foi o termo \u201cmendiga\u201d que veio \u00e0 cabe\u00e7a de Ant\u00f4nio). \u2013 Me feri naquela pedra \u2013 apontou para uma irregularidade no cal\u00e7amento, perto do meio-fio. \u2013 Est\u00e1 doendo pra caramba!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora precisa ir a um hospital, limpar a ferida, levar uns pontos. Suba no carrinho, eu a levo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas meu filho, vestida assim, n\u00e3o v\u00e3o me deixar entrar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o sim. Vou lev\u00e1-la a um hospital p\u00fablico, fica no meu caminho \u2013 e insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora \u00e9 magrinha, eu a coloco no carro e a levo sem problema.<\/p>\n<p>Dizendo essas palavras, pegou a mulher com cuidado, para n\u00e3o machuc\u00e1-la ainda mais, e a depositou entre as tralhas.<\/p>\n<p>Nesse momento, um transeunte que assistira a todo o epis\u00f3dio soltou uma p\u00e9rola de maldade, bem carioca:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, merm\u00e3o, hoje em dia, pra pegar mulher no Rio, s\u00f3 de carro.<\/p>\n<p>E, explorando os dois sentidos do verbo rolar, concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Sem rodas, n\u00e3o rola!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns contos meus, n\u00e3o direi quais, foram baseados em antigas piadas. Divirto-me em lan\u00e7ar m\u00e3o de saberes populares transmitidos em papos de moleques, em meio a risadas e palavr\u00f5es, e transform\u00e1-los em literatura, no m\u00ednimo em algo escrito, destinado a durar. O conto que voc\u00eas v\u00e3o ler pertence a essa categoria. Ouvi a historinha na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":361190,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-361189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=361189"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":361192,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361189\/revisions\/361192"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/361190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=361189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=361189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=361189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}