{"id":361216,"date":"2025-08-16T10:07:06","date_gmt":"2025-08-16T13:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361216"},"modified":"2025-08-16T10:34:59","modified_gmt":"2025-08-16T13:34:59","slug":"subserviencia-ideologica-tem-um-preco-e-nao-e-barato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/subserviencia-ideologica-tem-um-preco-e-nao-e-barato\/","title":{"rendered":"Subservi\u00eancia ideol\u00f3gica tem um pre\u00e7o, e n\u00e3o \u00e9 barato"},"content":{"rendered":"<div align=\"right\"><i>&#8220;A fraqueza cl\u00e1ssica, quase cong\u00eanita, da consci\u00eancia nacional dos pa\u00edses subdesenvolvidos n\u00e3o \u00e9 somente a consequ\u00eancia da mutila\u00e7\u00e3o do homem colonizado pelo regime colonial. \u00c9 tamb\u00e9m o resultado da pregui\u00e7a da burguesia nacional, de sua indig\u00eancia, da forma\u00e7\u00e3o profundamente cosmopolita de seu esp\u00edrito.&#8221;<\/i><br \/>\n\u2014 Frantz Fanon,\u00a0<i>Os condenados da terra<\/i>.\n<\/div>\n<p>&#8230;<br \/>\nO colonialismo n\u00e3o se manifesta apenas pela sua apar\u00eancia mais ostensiva ou grosseira: o poder militar e econ\u00f4mico, uma s\u00f3 unidade, alimentada por polos imbricados, canais comunicantes. Os\u00a0<i>marines<\/i>, as invas\u00f5es, as conquistas de territ\u00f3rios, o arsenal at\u00f4mico, os bloqueios e os\u00a0<i>tarifa\u00e7os<\/i>\u00a0fazem o pano de fundo da guerra ideol\u00f3gica \u2014 a essencial, a perdurante, glamorosa e insidiosa como Hollywood, mas igualmente letal: ela se embrenha nos cora\u00e7\u00f5es e nas mentes, domina a alma de suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A preemin\u00eancia estadunidense, como a brit\u00e2nica que nos malsinou no Imp\u00e9rio, n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, um determinismo. O mandato dos imp\u00e9rios est\u00e1 subordinado ao que usualmente chamamos de &#8220;ciclos hist\u00f3ricos&#8221;, que conhecem tanto apogeu quanto decl\u00ednio, e entre um tempo e outro, as guerras que montam e desmontam reinos e fantasias, como o sonho do III Reich.<\/p>\n<p>O perdurante \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. V\u00e3o-se os ex\u00e9rcitos de ocupa\u00e7\u00e3o, cortam-se os la\u00e7os da depend\u00eancia econ\u00f4mica, mas permanece a preemin\u00eancia ideol\u00f3gica \u2014 de todas as formas de domina\u00e7\u00e3o, a mais daninha e a mais dif\u00edcil de erradicar, porque reinante na vis\u00e3o de mundo do colonizado.<\/p>\n<p>O &#8220;liberto&#8221;, embora politicamente livre, permanece colonizado quando n\u00e3o se desvincula do papel de transmissor do pensamento da matriz. Sua cultura \u00e9 subsumida pela que vem de fora, dominante simplesmente porque vem do centro hegem\u00f4nico: como importa coisas, bens materiais, bijuterias, bugigangas e capital, o colonizado importa ideias, assimila conceitos, institui\u00e7\u00f5es e, finalmente, vis\u00e3o de mundo; aprende a reconhecer a superioridade do &#8220;outro&#8221; \u2014 mais forte, mais belo, mais inteligente, rico e poderoso gra\u00e7as aos seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, prenda de uma ra\u00e7a superior, por isso mesmo destinada ao mando.<\/p>\n<p>\u00c9, em s\u00edntese, a interioriza\u00e7\u00e3o pelo dominado dos valores e cren\u00e7as da cultura dominante, naturalizando a domina\u00e7\u00e3o; o colonizado \u00e9 agente de reprodu\u00e7\u00e3o da ordem social que o oprime.<\/p>\n<p>Festejados int\u00e9rpretes de nossa hist\u00f3ria, por sua vez reprodutores da mistifica\u00e7\u00e3o das teorias da eugenia que dominavam a Europa no s\u00e9culo XIX, procuraram explicar o inc\u00f4modo atraso do desenvolvimento brasileiro,\u00a0<i>vis-\u00e0-vis<\/i>\u00a0aos EUA, para assim naturaliz\u00e1-lo, como inarred\u00e1vel decorr\u00eancia de nossa &#8220;pobreza&#8221; racial ou \u00e9tnica. Pontificaram nessa linha, entre muitos, m\u00e9dicos, antrop\u00f3logos, fil\u00f3sofos e historiadores como Silvio Romero, Nina Rodrigues e Oliveira Vianna: no Norte, uma coloniza\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica, assim &#8220;superiora&#8221;, protestantes voltados ao trabalho e ao lucro, que chegavam com suas fam\u00edlias e liam a B\u00edblia antes de conduzir seus escravos no eito. Aqui, coloniza\u00e7\u00e3o levada a cabo por portugueses mesti\u00e7os e cat\u00f3licos, negros deprimidos e \u00edndios indolentes, mal sa\u00eddos da pedra lascada. Besteirada em que se destacou Vianna Moog (<i>Bandeirantes e pioneiros<\/i>).<\/p>\n<p>Os &#8220;int\u00e9rpretes&#8221;, eles por seu turno reprodutores da ideologia do colonialismo, se esquivaram de registrar as implica\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a do bra\u00e7o negro escravizado no sucesso da coloniza\u00e7\u00e3o dos EUA. O registro relativo aos ind\u00edgenas d\u00e1 conta de seu massacre, necess\u00e1rio para a grande obra civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim opera a hegemonia cultural da classe dominante.<\/p>\n<p>Em 1950, a perda da Copa do Mundo de futebol, que o Brasil fora determinado a ganhar, explicou-se pela presen\u00e7a dominante e majorit\u00e1ria de negros na final contra o Uruguai, uma ingrata ex-prov\u00edncia do Imp\u00e9rio brasileiro. Nelson Rodrigues, sensor da alma brasileira, reagiu ao bestial\u00f3gico construindo o conceito de &#8220;complexo de vira-lata&#8221;, com o qual definiu o sentimento de inferioriza\u00e7\u00e3o naturalizado entre n\u00f3s. Desprovidos de uma vis\u00e3o pr\u00f3pria de si e do mundo, ser\u00edamos um povo \u00e0 m\u00edngua de si mesmo; despojados de orgulho nacional, nos pejamos na idolatria do mais forte. Dela padecemos, e ela \u00e9 vis\u00edvel tanto na a\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos e partidos de direita \u2014 no Brasil, exemplarmente entreguistas \u2014 quanto na apatia de segmentos significativos do que costumeiramente chamamos de sociedade civil.<\/p>\n<p>O sentimento registrado pelo dramaturgo \u00e9 a ideologia da classe dominante brasileira, e pervade hoje nossa sociedade.<\/p>\n<p>Vicente Rao, servindo ao governo t\u00edtere de Caf\u00e9 Filho (agosto de 1954 a novembro de 1955), declara, sob os aplausos da grande imprensa: &#8220;O Brasil est\u00e1 fadado a ser, por tempo indefinido, um sat\u00e9lite dos EUA&#8221;. Nada distinto do que ouvir\u00edamos do general Juraci Magalh\u00e3es, nosso embaixador em Washington (junho de 1964): &#8220;O que \u00e9 bom para os EUA \u00e9 bom para o Brasil&#8221;. Mais recentemente (2001), no discurso de transmiss\u00e3o do cargo de Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores ao professor e empres\u00e1rio Celso Lafer \u2014 aquele chanceler notabilizado por tirar os sapatos e as meias para ingressar na &#8220;Am\u00e9rica&#8221; \u2014, o diplomata de carreira Luiz Felipe Lampreia proclamava de peito entufado: &#8220;O Brasil n\u00e3o pode querer ser mais do que \u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>Essas reflex\u00f5es me ocorreram quando, h\u00e1 poucos dias, assistia \u00e0 inquiri\u00e7\u00e3o a que foi submetido o embaixador Celso Amorim no programa\u00a0<i>Roda Viva<\/i>, da TV Cultura. A bancada de jornalistas, representativa do\u00a0<i>mainstream<\/i>\u00a0da imprensa brasileira, ciente de seus valores, reclamou explica\u00e7\u00f5es para o &#8220;pavio curto&#8221; da rea\u00e7\u00e3o brasileira aos ataques dos EUA e \u00e0 insist\u00eancia de Lula nas cr\u00edticas a Donald Trump, que, vale recordar, o ofendeu \u2014 e a n\u00f3s \u2014 endere\u00e7ando ao presidente da Rep\u00fablica carta p\u00fablica que, ademais de desrespeitar normas diplom\u00e1ticas e de m\u00ednima civilidade, imp\u00f4s as medidas conhecidas que agridem nossa dignidade e amea\u00e7am a economia nacional. Um delegado do sionismo p\u00f4s em xeque o rigor de nossa den\u00fancia do genoc\u00eddio contra o povo palestino.<\/p>\n<p>Muitos estranharam estar o presidente Lula a encetar di\u00e1logo com presidentes de na\u00e7\u00f5es amigas (como China, nosso maior parceiro comercial, e a \u00cdndia, a maior popula\u00e7\u00e3o do mundo), e o Jap\u00e3o, em busca de novos mercados para nossas exporta\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s de se dedicar a salamaleques com o magnata, como cobra o empresariado \u2014 fingindo ignorar que o Secret\u00e1rio do Tesouro dos EUA acabara de rejeitar a audi\u00eancia prometida ao ministro Fernando Haddad; sem considerar que Trump pressiona os pa\u00edses com os quais cedeu negociar a reduzir as compras de soja e algod\u00e3o brasileiros, e que o Departamento de Estado acabara de dar a p\u00fablico comunicado em que acusa nosso pa\u00eds de suprimir a livre express\u00e3o ao impor limites \u00e0 a\u00e7\u00e3o das plataformas digitais. O mesmo texto aponta, como sinal de amea\u00e7a aos direitos humanos no Brasil, as &#8220;persegui\u00e7\u00f5es&#8221; judiciais ao capit\u00e3o Bolsonaro e seus asseclas que invadiram as sedes dos tr\u00eas poderes na frustrada tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2022.<\/p>\n<p>E por a\u00ed seguiu a entrevista, conduzida por uma bancada muito menos qualificada do que Amorim merece, e a audi\u00eancia brasileira t\u00eam direito de exigir. \u00c9 a mis\u00e9ria do jornalismo.<\/p>\n<p>Reagindo ao ataque, o governo federal, para salvar os empres\u00e1rios exportadores (majoritariamente operadores do agroneg\u00f3cio) da chantagem de Trump, abriu-lhes um cr\u00e9dito subsidiado de R$ 30 bilh\u00f5es, adiou o pagamento de impostos, abriu as portas para compras governamentais do excedente de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o exportado, pedindo (isto \u00e9, sem condicionar) o \u00fanico compromisso de manterem os empregos de seus trabalhadores \u2014 o que, a experi\u00eancia ensina, n\u00e3o ser\u00e1 cumprido. Mas o capital n\u00e3o se satisfaz. Diz, por meio de seus porta-vozes, que &#8220;Lula precisa fazer um gesto e buscar um canal com a Casa Branca&#8221; (Malu Gaspar,\u00a0<i>O Globo<\/i>, 14\/08\/2025).<\/p>\n<p>Na mesma toada, o governador-presidenci\u00e1vel de S\u00e3o Paulo e seu colega governador do DF escrevem ao presidente dos EUA. Este, sob o pretexto de explicar a viol\u00eancia na capital da Rep\u00fablica, acusa o governo brasileiro &#8220;de n\u00e3o acreditar no di\u00e1logo&#8221; e pede cr\u00e9dito por haver promovido reuni\u00e3o de governadores para defender a abertura de di\u00e1logo entre Brasil e EUA \u2014 di\u00e1logo que n\u00e3o tive a dignidade (pode-se esperar dignidade de Sua Excel\u00eancia?) de registrar haver sido rompido por Trump.<\/p>\n<p>O Congresso, ativamente reacion\u00e1rio, dirigido politicamente pela extrema-direita brasileira, por sua vez guiada pela extrema-direita dos EUA, governante a partir da Casa Branca, promove a revis\u00e3o dos principais direitos conquistados pela Constituinte de 1987-88. Avan\u00e7a um golpe de Estado que, desta feita, ainda dispensa o concurso da caserna.<\/p>\n<p>E a sociedade silencia; as ruas est\u00e3o quietas e vazias, o pa\u00eds em relativa calmaria; n\u00e3o se registram inc\u00f4modos c\u00edvicos. A Academia rumina em paz celestial: as bolsas de pesquisa (de valores irris\u00f3rios) em dia, os restaurantes universit\u00e1rios funcionando e os sal\u00e1rios (amesquinhados) dos professores pagos. Os sindicatos, esvaziados em sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o por raz\u00f5es consabidas, mal conseguem cuidar dos reajustes salariais de suas categorias. O movimento vem da extrema-direita arruaceira tomando de assalto o Congresso e desmoralizando suas mesas diretoras, na tentativa de, a\u00e7ulada por Trump, impor a impunidade dos golpistas.<\/p>\n<p>A fal\u00eancia de um sentimento coletivo pode ser o fim da aspira\u00e7\u00e3o de um povo que j\u00e1 pretendeu ser algo distinto de uma simples aglomera\u00e7\u00e3o populacional.<\/p>\n<p>Talvez seja esta a mais grave crise desde 1964. Trata-se de crise da pol\u00edtica, que arrasta a institucionalidade, mas vai al\u00e9m dela. \u00c9 preciso reagir j\u00e1, sem cairmos na ilus\u00e3o de que tudo se resume \u00e0 disputa eleitoral e de que ocupar o Planalto \u00e9 o mesmo que deter o poder.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A fraqueza cl\u00e1ssica, quase cong\u00eanita, da consci\u00eancia nacional dos pa\u00edses subdesenvolvidos n\u00e3o \u00e9 somente a consequ\u00eancia da mutila\u00e7\u00e3o do homem colonizado pelo regime colonial. \u00c9 tamb\u00e9m o resultado da pregui\u00e7a da burguesia nacional, de sua indig\u00eancia, da forma\u00e7\u00e3o profundamente cosmopolita de seu esp\u00edrito.&#8221; \u2014 Frantz Fanon,\u00a0Os condenados da terra. &#8230; O colonialismo n\u00e3o se manifesta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":295792,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-361216","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361216","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=361216"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":361217,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/361216\/revisions\/361217"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=361216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=361216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=361216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}