{"id":361764,"date":"2025-08-23T02:00:14","date_gmt":"2025-08-23T05:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361764"},"modified":"2025-08-22T01:34:43","modified_gmt":"2025-08-22T04:34:43","slug":"o-diario-de-geraldo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-diario-de-geraldo\/","title":{"rendered":"O di\u00e1rio de Geraldo"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 vi e vivenciei muitas coisas nesta vida, algumas impublic\u00e1veis, al\u00e9m de outras tantas que n\u00e3o poderiam, por exemplo, serem ditas nos almo\u00e7os de domingos em fam\u00edlia, ainda mais se as almas mais pudicas estiverem \u00e0 mesa. Entretanto, dariam boas hist\u00f3rias, mesmo que se d\u00ea aquela dem\u00e3o de verniz para torn\u00e1-las mais palat\u00e1veis aos olhos de quem as escuta.<\/p>\n<p>N\u00e3o cheguei a ser caixeiro-viajante, mas rodei muito por boa parte deste pa\u00eds. E foi justamente por uma dessas andan\u00e7as que cheguei a um vilarejo mais colado ao Distrito Federal do que carrapato em orelha de cachorro. Isso em 1959, quando aqui ainda era Goi\u00e1s, mas faltava um tiquinho assim para se tornar a capital do Brasil.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o causar imbr\u00f3glios desnecess\u00e1rios, devo dizer que era solteiro do tipo que nem imaginava que um dia fosse encontrar a minha Aurora. Todavia, isso \u00e9 outra hist\u00f3ria e n\u00e3o tenho certeza de que seria capaz de abrir o cora\u00e7\u00e3o para estranhos que nem voc\u00ea que est\u00e1 me lendo. N\u00e3o me interprete mal, mas v\u00e1 que voc\u00ea veja maldade onde n\u00e3o existe e, pior, n\u00e3o seja daqueles afeitos a guardar segredo.<\/p>\n<p>Pois l\u00e1 estava eu com meus 21 anos, quase 22, pois sou dos nascidos no m\u00eas sete. Fica a seu crit\u00e9rio decifrar se sou canceriano ou leonino. Se bem que, percebo pelo olhar, talvez seja mais afeito a b\u00fazios ou, n\u00e3o duvido, tar\u00f4. E n\u00e3o pense que esteja eu divagando para n\u00e3o lhe contar de vez, j\u00e1 que isso que lhe digo tem a ver com o ocorrido.<\/p>\n<p>Mal cheguei ao tal vilarejo, fui acometido por uma constipa\u00e7\u00e3o, que cheguei a me compadecer de mulher na hora do parto. Que sofrimento doido foi aquele, at\u00e9 hoje me pergunto. Por sorte ou predestina\u00e7\u00e3o, uma senhora de olhos amarelados, que tinha em m\u00e3os um baralho de cartas vision\u00e1rias, percebeu o meu entra e sai do banheiro da \u00fanica pens\u00e3o do local.<\/p>\n<p>\u2014 Na primeira vez imaginei que fosse caganeira; na segunda, a pulga se instalou atr\u00e1s da orelha. Mas a quinta me deu a certeza de que \u00e9 mesmo bosta-empedrada. Ademais, as cartas n\u00e3o mentem.<\/p>\n<p>Encarei a velha e supliquei para que ela tivesse uma solu\u00e7\u00e3o para o meu problema. E, para meu al\u00edvio, possu\u00eda. N\u00e3o vou entrar em detalhes aqui, mas afirmo, com a certeza de quem voltou a ver a luz no fundo do t\u00fanel, que o trem, at\u00e9 naquele instante desencarrilhado, voltou aos trilhos e seguiu seu caminho natural. E olha que nem quero fazer trocadilho com assunto t\u00e3o alarmante.<\/p>\n<p>Problema resolvido, ainda fui orientado a tomar um ch\u00e1 de ervas, que at\u00e9 hoje carrego uma por\u00e7\u00e3o no bolso. Nunca mais tive problemas dessa natureza. Entretanto, n\u00e3o se apresse, pois o causo que quero lhe falar n\u00e3o \u00e9 esse.<\/p>\n<p>Dona L\u00facia, a alma caridosa que me arrancou tamanho sofrimento, era propriet\u00e1ria da pens\u00e3o. Mulher de vis\u00e3o, possu\u00eda algo mais rent\u00e1vel, que lhe garantia fazer viagem at\u00e9 de avi\u00e3o para o Rio de Janeiro, onde se hospedava no afamado bairro de Copacabana. Como soube disso? Bem, desde cedo, minha m\u00e3e me ensinou a tratar todos com respeito e, principalmente, aqueles que apaziguam nossas afli\u00e7\u00f5es. E l\u00e1 est\u00e1vamos dona L\u00facia e eu proseando enquanto divid\u00edamos uma garrafa de cerveja.<\/p>\n<p>\u2014 Geraldo, voc\u00ea \u00e9 um rapaz vigoroso. E do jeito que \u00e9 parrudo, estou certa de que a testosterona est\u00e1 l\u00e1 nas alturas.<\/p>\n<p>Enquanto dona L\u00facia falava, comecei a imaginar que ela queria que eu lhe pagasse pela ajuda de modo pouco incomum. Mas eis qu\u00e3o tolo estava eu, j\u00e1 que a mulher queria me propor emprego. Mas n\u00e3o na pens\u00e3o, e, sim, no outro estabelecimento, que ficava na extremidade oposta do vilarejo.<\/p>\n<p>Sem poder dizer n\u00e3o, aceitei e, j\u00e1 na noite seguinte, fui levado pelas m\u00e3os de dona L\u00facia para conhecer o local. Nenhuma placa, mas havia um sinal claro logo na entrada que n\u00e3o deixava d\u00favida qual era o ramo da casa: uma luz vermelha. E, mesmo aparentando certo desconforto, entrei no recinto, onde, atr\u00e1s do balc\u00e3o de bebidas, era poss\u00edvel ver um grande quadro com os dizeres: &#8220;Aqui voc\u00ea n\u00e3o precisa morrer para ver o para\u00edso.&#8221;<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea esteja se perguntando se aceitei ou n\u00e3o o emprego de le\u00e3o de ch\u00e1cara. Digo-lhe, sem qualquer sentimento de orgulho ou arrependimento, que trabalhei para dona L\u00facia at\u00e9 abril de 1964, quando decidi mudar de ramo, justamente quando o pa\u00eds come\u00e7ou a viver anos de chumbo, e a poesia, por muito tempo, foi deixada de lado.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong>\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/16.0.1\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 vi e vivenciei muitas coisas nesta vida, algumas impublic\u00e1veis, al\u00e9m de outras tantas que n\u00e3o poderiam, por exemplo, serem ditas nos almo\u00e7os de domingos em fam\u00edlia, ainda mais se as almas mais pudicas estiverem \u00e0 mesa. 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