{"id":361769,"date":"2025-08-26T03:18:08","date_gmt":"2025-08-26T06:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=361769"},"modified":"2025-08-26T08:17:14","modified_gmt":"2025-08-26T11:17:14","slug":"um-retrato-nostalgico-da-passagem-do-tempo-e-da-permanencia-da-saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-retrato-nostalgico-da-passagem-do-tempo-e-da-permanencia-da-saudade\/","title":{"rendered":"Um retrato nost\u00e1lgico da passagem do tempo e da perman\u00eancia da saudade"},"content":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o testemunhei a \u00e9poca, mas cheguei a ver, em alguns lugares de minha inf\u00e2ncia, placas de estabelecimentos comerciais, ou suas fachadas, onde se conservavam os n\u00fameros de telefone muito antigos, com surpreendentes dois algarismos apenas. Lembro-me do Hotel Para\u00edba, em Para\u00edba do Sul, no passado long\u00ednquo propriedade de meu tio-bisav\u00f4 Am\u00e9rico Marchi e sua esposa, Isolina, onde o telefone era \u201c33\u201d. Ou a fachada da antiga Cer\u00e2mica D\u2019Angelo, na mesma cidade, que ostentava o \u201cphone 27\u201d no ocre de suas paredes sob a sombra de enormes chamin\u00e9s.<\/p>\n<p>Algo durante a semana, n\u00e3o lembro exatamente o qu\u00ea, me lembrou daquele ru\u00eddo que escut\u00e1vamos quando se tirava o telefone do gancho, esperava \u201cdar linha\u201d e discava um n\u00famero, ainda naqueles aparelhos de disco. Hoje a juventude n\u00e3o sabe mais o que \u00e9 isto \u2013 eles n\u00e3o discam, digitam.<\/p>\n<p>Discar era no meu tempo. Pois discava-se, geralmente sete ou seis algarismos, a depender de estarmos em cidades grandes ou no interior e, de repente, ap\u00f3s uma fra\u00e7\u00e3o de segundos de sil\u00eancio, o telefone \u201cchamava\u201d l\u00e1 no fim da linha, e escut\u00e1vamos a chamada. Um toque, dois toques, tr\u00eas&#8230; At\u00e9 que atendiam.<\/p>\n<p>\u2013 Al\u00f4?<\/p>\n<p>\u2013 Al\u00f4, quem fala?<\/p>\n<p>Era a senha e a contrassenha para se come\u00e7ar a conversa, fosse ela com pessoa amiga ou desconhecida.<\/p>\n<p>Quando a timidez, ou a reserva, impediam declarar a identidade ao interlocutor, completava-se o di\u00e1logo inicial assim:<\/p>\n<p>\u2013 Com quem deseja falar?<\/p>\n<p>Quando passei pelo segundo grau na escola e tive algumas graves dificuldades em matem\u00e1tica, arrumaram-me um professor particular no M\u00e9ier, que atendia de maneira diferenciada, franca e segura. Ele j\u00e1 come\u00e7ava o di\u00e1logo declarando o seu n\u00famero inteiro:<\/p>\n<p>\u2013 Pronto, boa tarde, dois-meia-nove-sete-sete-zero-nove&#8230;<\/p>\n<p>Jamais havia visto quem dava assim, de chofre, o n\u00famero inteiro do telefone ao atender. Ao menos em minha casa, n\u00e3o era o h\u00e1bito. Pois isso me impactou, e at\u00e9 hoje atendo ao telefone, frequentemente, dizendo \u201cpronto\u201d.<\/p>\n<p>Quando ligava-se para algu\u00e9m que j\u00e1 estava em conversa telef\u00f4nica, dizia-se \u201cest\u00e1 ocupado\u201d. Ou, mais raramente. \u201cest\u00e1 em comunica\u00e7\u00e3o\u201d. Era o caso de aguardar e chamar novamente dali a alguns minutos. Com sorte, tudo funcionaria bem na conex\u00e3o provida por empresa estatal, e a conversa se daria sem maiores incidentes.<\/p>\n<p>Havia, no entanto, dias dif\u00edceis na telefonia&#8230; O telefone \u201cn\u00e3o dava linha\u201d, ou \u201cficava mudo\u201d, a liga\u00e7\u00e3o \u201cca\u00eda\u201d, ou se passava o mais curioso dos fen\u00f4menos \u2013 a linha cruzada, quando uma conversa sofria a interfer\u00eancia de outra liga\u00e7\u00e3o e, involuntariamente, ouv\u00edamos o di\u00e1logo entre duas ou mais pessoas estranhas, eventualmente at\u00e9 conseguindo participar dele.<\/p>\n<p>Depois, o telefone de pulso, onde a discagem se dava por pulsos el\u00e9tricos provocados pela rota\u00e7\u00e3o do disco, foi sendo substitu\u00edda pela discagem por tom, que usava curtos sinais de \u00e1udio em diferentes frequ\u00eancias para representar os n\u00fameros. Isso impossibilitou para sempre a burla a telefones cujos discos eram trancados a chave para impedir liga\u00e7\u00f5es n\u00e3o autorizadas. Quem possu\u00edsse a habilidade, podia simplesmente tirar o fone do gancho e bater neste, em sequ\u00eancia, o n\u00famero de vezes necess\u00e1rias para formar os algarismos do n\u00famero que se quisesse chamar, com uma pausa diminuta entre os grupos de batidas. Era a forma de usar telefone de disco, sem tocar nele. Eu consegui faz\u00ea-lo algumas vezes.<\/p>\n<p>Outra mem\u00f3ria: a depender do n\u00famero, ou do local em que se estivesse no Rio de Janeiro, o som do sinal de discagem ou da chamada podia variar ligeiramente. Fiquei sabendo, mais tarde, que isso se devia \u00e0 exist\u00eancia de centrais diferentes pela cidade, instaladas em \u00e9pocas distintas e mesmo por companhias diversas que, no entanto, comunicavam-se entre si porque para isso haviam sido adaptadas.<\/p>\n<p>Possuir telefone fixo em casa n\u00e3o era para todos. Uma linha custava caro, quase o pre\u00e7o de um autom\u00f3vel novo. Em nossos dias, telefone fixo em casa \u00e9 raridade cada vez maior.<\/p>\n<p>Ainda conservo uma pequena agenda com n\u00fameros de telefone anotados. Colegas da escola, amigos perdidos de vista, uma mo\u00e7a de quem gostei, parentes mais velhos, muitos dos quais eram atendidos por pessoas que j\u00e1 n\u00e3o habitam este mundo de dores e ang\u00fastias. Um objeto praticamente in\u00fatil, que s\u00f3 o apego me faz guardar.<\/p>\n<p>Mas, por vezes, tenho vontade de pegar dentro de um arm\u00e1rio o aparelho fixo que conservo em minha casa, de antigo baquelite preto, conectar a alguma tomada e, se der sinal \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 discar aqueles n\u00fameros, da esperan\u00e7a que alguma voz do passado, j\u00e1 h\u00e1 muito calada, ressurja hoje, sendo ouvida com clareza, limpidez, e, reconhecendo meu chamado, responda-o prontamente:<\/p>\n<p>\u2013 Al\u00f4, pois n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o testemunhei a \u00e9poca, mas cheguei a ver, em alguns lugares de minha inf\u00e2ncia, placas de estabelecimentos comerciais, ou suas fachadas, onde se conservavam os n\u00fameros de telefone muito antigos, com surpreendentes dois algarismos apenas. 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