{"id":362045,"date":"2025-09-06T03:00:49","date_gmt":"2025-09-06T06:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=362045"},"modified":"2025-08-24T13:46:16","modified_gmt":"2025-08-24T16:46:16","slug":"murilo-e-fernando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/murilo-e-fernando\/","title":{"rendered":"Murilo e Fernando"},"content":{"rendered":"<p>Fernando escrevia contos. Uma amiga mineira, Clarice, gostava deles e sempre comentava que lembravam os de seu conterr\u00e2neo Murilo Rubi\u00e3o, expoente do realismo fant\u00e1stico nas letras brasileiras. (Ele descobriu recentemente que Cec\u00edlia Baumann, editora-assistente de Cultura no <strong>Notibras<\/strong>, compartilhava essa cren\u00e7a, e convenceu disso o Cassiano Cond\u00e9, colunista de O lado B da literatura, tamb\u00e9m no <strong>Notibras<\/strong>) Fernando explicou \u00e0 Clarice \u2013 e agora o faz aos outros dois \u2013 que n\u00e3o conhecia o atleta, nunca havia lido nada dele, nem sabia se j\u00e1 tinha morrido ou se continuava a saltitar pelas ruas de Belzonte; Clarice, tiete murilista (e, admitamos, tamb\u00e9m fernandista), informou que Rubi\u00e3o havia morrido fazia tempim, em 1991, e insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; L\u00ea os contos dele, bobo. C\u00ea vai ver que lembram muito os seus. Beijim \u2013 e despediu-se.<\/p>\n<p>Fernando prometeu ler. E esqueceu o assunto.<\/p>\n<p>Mas aquilo ficou remoendo em sua mente. A verdade era que ele n\u00e3o se considerava um literato, n\u00e3o cursara Letras, e sim Direito. Lera bastante, de maneira ca\u00f3tica, de Machado de Assis \u2013 a partir de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, de 1881, nada anterior \u2013 a Luis Fernando Verissimo, passando pelos cronistas, todos, Jorge Amado, Erico Verissimo, Nelson Rodrigues, Guimar\u00e3es Rosa e alguns menos votados. Em resumo, estava no m\u00ednimo 25 anos defasado em termos de literatura brasileira. O que n\u00e3o o incomodava nem um pouco, n\u00e3o o impedia de escrever e postar seus textos.<\/p>\n<p>Certo dia, sem ter nada o que fazer, digitou no google \u201cMurilo Rubi\u00e3o\u201d. Apareceram dados biogr\u00e1ficos e v\u00e1rios contos, devidamente devorados. Na mesma noite, ligou para Clarice.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, mineirinha, acabei de ler contos do \u201cseu\u201d Murilo Rubi\u00e3o. Gostei da maioria. Temos em comum par\u00e1grafos iniciais instigantes, que tentam prender o leitor. Mas meus textos s\u00e3o mais curtos, conduzem mais r\u00e1pido ao final, em muitos casos com uma reviravolta surpreendente. Nos dele, n\u00e3o vi muito essa preocupa\u00e7\u00e3o. E certas solu\u00e7\u00f5es&#8230; francamente, eu jamais colocaria um drag\u00e3o como amante de uma mulher; e devorar um bando de le\u00f5es&#8230; n\u00e3o vejo isso como realismo fant\u00e1stico, e sim como mau gosto!<\/p>\n<p>Clarice ficou indignada, lembrou contos dele sobre monstros \u2013 \u201cprimos-irm\u00e3os de drag\u00f5es, n\u00e9, bobim?\u201d \u2013 e prometeu apontar \u201cmurilices\u201d nos textos, rsrs.<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza ser\u00e3o fernandices, kkk. Beijim, mineirinha.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, foi dormir cedo, n\u00e3o estava muito bem. Teve um sono intranquilo. L\u00e1 pelas tantas, acordou com algu\u00e9m que o sacudia, enquanto dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, contista.<\/p>\n<p>Levantou-se, apavorado, e viu um homem moreno, de chap\u00e9u e bigode aparado, como se usava nos anos 1940. A apari\u00e7\u00e3o apresentou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m sou contista. Ou fui, n\u00e9? Rsrs. Murilo Rubi\u00e3o. Vim aqui porque uma leitora fiel de n\u00f3s dois acha nossos estilos parecidos, e queria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Verificar se n\u00e3o \u00e9 pl\u00e1gio de minha parte? \u2013 cortou Fernando, indignado. Por estranho que pare\u00e7a, a raiva o fazia aceitar a presen\u00e7a fantasmag\u00f3rica. Levantou-se da cama e falou:<\/p>\n<p>\u2013 Olha, at\u00e9 o in\u00edcio da semana, nunca tinha lido uma s\u00f3 linha escrita por voc\u00ea.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o olhou-o, em sil\u00eancio, e Fernando prosseguiu, mais calmo.<\/p>\n<p>&#8211; Clarice, nossa leitora fiel, acha que tamb\u00e9m enveredo pelo realismo fant\u00e1stico. N\u00e3o sei se concordo, mas passemos. De fato, percebo resson\u00e2ncias entre os seus contos e os meus. N\u00e3o influ\u00eancias, muito menos c\u00f3pias: resson\u00e2ncias \u2013 respirou fundo e tentou explicar.<\/p>\n<p>&#8211; Meus textos s\u00e3o em geral divertidos, talvez sob a influ\u00eancia do Luis Fernando Verissimo. Tamb\u00e9m escrevo contos escrachados \u2013 e a\u00ed os influenciadores s\u00e3o Jorge Amado, Nelson Rodrigues e o mestre Carlos Z\u00e9firo, passei horas com os catecismos dele em uma das m\u00e3os \u2013 riu, malicioso. \u2013 E com a idade, a proximidade da morte, passei a escrever tamb\u00e9m contos tristes e melanc\u00f3licos. Desses, n\u00e3o sei quem foi o influenciador.<\/p>\n<p>Percebeu que Rubi\u00e3o mal ouvia suas palavras, olhava n\u00e3o para seu rosto e sim para a cama, por tr\u00e1s dele. Voltou-se e viu um corpo deitado. Seu corpo.<\/p>\n<p>&#8211; Tava achando que era parte de um sonho, n\u00e9 mesmo, contista? \u2013 disse o fantasma, em tom suave e olhando-o com carinho. \u2013 C\u00ea teve sorte, morreu enquanto dormia, sem muita dor&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o vim aqui para verificar eventuais pl\u00e1gios, e muito menos para discutir literatura. Queria gui\u00e1-lo at\u00e9 o astral, pedi esse privil\u00e9gio, por termos leitores fi\u00e9is em comum, e me foi concedido.<\/p>\n<p>Segurou-o pela m\u00e3o e os dois come\u00e7aram a se desmaterializar, rumo a outro plano, onde teriam tempo de sobra para discutir influ\u00eancias, resson\u00e2ncias, le\u00f5es devorados, a vida sexual de monstros e drag\u00f5es e coisinhas que tais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando escrevia contos. Uma amiga mineira, Clarice, gostava deles e sempre comentava que lembravam os de seu conterr\u00e2neo Murilo Rubi\u00e3o, expoente do realismo fant\u00e1stico nas letras brasileiras. 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