{"id":362278,"date":"2025-09-01T00:30:13","date_gmt":"2025-09-01T03:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=362278"},"modified":"2025-08-31T19:20:57","modified_gmt":"2025-08-31T22:20:57","slug":"o-sujeito-distraido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-sujeito-distraido\/","title":{"rendered":"O SUJEITO DISTRA\u00cdDO"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Vivemos a Era do barulho, do banal, da atra\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida pelo superficial. A pol\u00edtica se torna um show. E o show n\u00e3o se importa com justi\u00e7a, se importa com audi\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>(Sociedade do Espet\u00e1culo: Imagem \/ Simulacro, Guy Debord \u2013 A Sociedade do Espet\u00e1culo (1967)<\/p>\n<p>No consumo, o padr\u00e3o se repete. Compramos n\u00e3o o que precisamos, mas o que nos disseram o que queremos. Livros s\u00e3o lidos porque viralizaram, n\u00e3o porque carregam ideias transformadoras. A intelig\u00eancia \u00e9 substitu\u00edda pela tend\u00eancia, o discernimento pelo modismo. Esse processo gera um ciclo perverso: menos pensamento cr\u00edtico, mais aliena\u00e7\u00e3o, mais injusti\u00e7a, mais consumo de superficialidade.<\/p>\n<p>O sistema se retroalimenta. O pre\u00e7o \u00e9 alt\u00edssimo. Uma sociedade que n\u00e3o pensa e uma sociedade que n\u00e3o se protege. E nesse cen\u00e1rio a idolatria ao superficial n\u00e3o \u00e9 inofensiva. Ela \u00e9 funcional ao sistema. Forma um tipo de ser humano ideal, passivo, distra\u00eddo, reativo, desinformado, viciado em dopamina, treinado para obedecer aos algoritmos e incapaz de sustentar uma ideia. Quando chega o momento de decidir na urna, na cria\u00e7\u00e3o dos filhos, nas escolhas \u00e9ticas, o vazio cobra a conta.<\/p>\n<p>A distra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutra. Tudo \u00e9 representa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se vive, se assiste, n\u00e3o se participa, se consome. Isto enfraquece a pol\u00edtica, a cr\u00edtica, a solidariedade. O sujeito distra\u00eddo \u00e9 um sujeito desmobilizado, e isto interessa n\u00e3o s\u00f3 aos algoritmos, mas ao poder. A cultura da distra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma cultura sofisticada. Enquanto brigamos nas redes sociais, as estruturas permanecem intocadas. A energia que poderia gerar ruptura \u00e9 dissipada em debates irrelevantes, esc\u00e2ndalos fabricados e rivalidades t\u00f3xicas. Nietzsche via na d\u00favida um sopro de vida. Pensar \u00e9 romper com o conforto, \u00e9 suportar a ang\u00fastia, \u00e9 perder certezas, mas \u00e9 tamb\u00e9m a \u00fanica chance de liberdade. A burrice se apega ao dogma, a autoridade ao senso comum, porque ali est\u00e1 o repouso. Apesar do ru\u00eddo, ainda existe sil\u00eancio. Apesar da distra\u00e7\u00e3o, ainda existe a tens\u00e3o. Apesar do vazio, ainda existe sentido. Mas o sentido est\u00e1 morto, n\u00e3o brilha, n\u00e3o contamina, n\u00e3o aparece na vitrine.<\/p>\n<p>O sentido precisa ser buscado. O valor verdadeiro est\u00e1 na pesquisa, na leitura que transforma, na arte que incomoda, no pensamento que desinstala, na espiritualidade que n\u00e3o se vende. Tudo isto exige disposi\u00e7\u00e3o para o invis\u00edvel. E tudo se perde na distra\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o. O sistema do mundo digital contempor\u00e2neo n\u00e3o tema a superficialidade. Ele a promove. O que ele teme \u00e9 o sujeito que para, que respira, que pergunta, que duvida, que resiste. Esse sujeito, mesmo sozinho, j\u00e1 \u00e9 perigoso porque resgata o poder de escolher com consci\u00eancia, de dizer n\u00e3o, de criar. Resgatar o invis\u00edvel n\u00e3o \u00e9 alienar-se do mundo, \u00e9 transform\u00e1-lo de dentro.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta, escritor e aprendiz de racioc\u00ednios e reflex\u00f5es. Vive em uma pequena vila de pescadores na Guarda do Emba\u00fa SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Vivemos a Era do barulho, do banal, da atra\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida pelo superficial. A pol\u00edtica se torna um show. E o show n\u00e3o se importa com justi\u00e7a, se importa com audi\u00eancia&#8221;. (Sociedade do Espet\u00e1culo: Imagem \/ Simulacro, Guy Debord \u2013 A Sociedade do Espet\u00e1culo (1967) No consumo, o padr\u00e3o se repete. 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