{"id":362482,"date":"2025-09-01T02:25:02","date_gmt":"2025-09-01T05:25:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=362482"},"modified":"2025-09-01T02:25:05","modified_gmt":"2025-09-01T05:25:05","slug":"shopping","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/shopping\/","title":{"rendered":"Shopping"},"content":{"rendered":"<p>Entrou no centro comercial como quem conhecia a dor.<\/p>\n<p>As portas envidra\u00e7adas pelas quais atravessando ele passa deixam um suave rumor, um rugido sem alma do tr\u00e1fego indolor da cidade.<\/p>\n<p>Calmos carros passam como se n\u00e3o existissem na mente, como ondas mansas mergulham de encontro \u00e0s rotundas, aos sem\u00e1foros, \u00e0s vias r\u00e1pidas e iam dar a lugar nenhum indefinidamente, indo e vindo, num ser e n\u00e3o ser dilu\u00eddo num t\u00e9nue esquecer de carros r\u00e1pidos a passar zunindo, pelas portas envidra\u00e7adas ele a atravessar, as portas a abrir e a fechar, e tudo na mente dele a desvanecer suavemente aparecendo e se abrindo no shopping casual em que estava ali vivendo inteiro naquele tempo infindo.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o era de pedra polida, branca como marfim.<\/p>\n<p>Cada passo que dava dentro do centro comercial sentia-se acelerado, o cora\u00e7\u00e3o a bater descompassado, agitado, as pessoas nas lojas a olh\u00e1-lo cheias de brilhos e de convites e de ass\u00e9dios pl\u00e1sticos, mas ele, nada, nada dentro de um fato, caminhando decidido rumo \u00e0 loja do \u00faltimo andar como um sereno gato, um gato que cai sempre de p\u00e9, p\u00e9 ante p\u00e9 imbu\u00eddo de uma estranha f\u00e9.<\/p>\n<p>O que se passasse seria apenas subtil recorda\u00e7\u00e3o de si mesmo, em comunh\u00e3o agreste com aquela gente, gente feita de subst\u00e2ncias, de err\u00e2ncias, de agregados e de viv\u00eancias, de experi\u00eancias e de t\u00e9nues recorda\u00e7\u00f5es, vidas mal vividas aos trope\u00e7\u00f5es, gente ca\u00edda a repetir novamente li\u00e7\u00f5es, acorrentadas ao rumor mole daquele centro comercial artificial, seco e sem sol.<\/p>\n<p>M\u00fasicas como estranhos coros sa\u00edam de cima do tecto alt\u00edssimo decorado a negro e a pedra jaspe.<\/p>\n<p>Sentia-se ali um traste, sozinho, como uma sombra deslizando trilhando um \u00fanico escolhido caminho por entre os ramos da sua \u00e1rvore abrindo-se ao sol e agitando-se conforme o destino, pelo vento de um fado levado devagarinho.<\/p>\n<p>Caminhando com cem euros na carteira, indo por ir na corrente do consumo in\u00fatil e do viver f\u00fatil e tudo isso gostando mergulhado num estranho e apressado bulir, como um peixe sem cor e sem sentir, numa \u00e1gua turva, entre mil peixes de outras cores apressados e r\u00e1pidos correndo a zunir, imersos numa \u00e1gua absurda, a de ter de haver consumo e mais consumo para apagar e pagar uma t\u00e9nue existencial dor surda.<\/p>\n<p>Que calor!<\/p>\n<p>De ter de ter.<\/p>\n<p>De olhar para os outros numa altivez de \u00e1guia ferida.<\/p>\n<p>Subiu as escadas rolantes como quem levita para um outro c\u00e9u e procura no labirinto de tudo uma sa\u00edda, o ser-se seu, numa viagem de bilhete com volta e ida.<\/p>\n<p>Olhou os outros dali do alto, lentamente a subir, enquanto ia naquelas escadas com a consci\u00eancia suavemente a tremeluzir\u2026<\/p>\n<p>E em imersas palavras emitiu um estranho sentir, como se de repente se autoconhecesse nos outros num inocente acto de algo pressentir.<\/p>\n<p>\u2026 A tribo, falando a mesma l\u00edngua, pessoas ocupadas e entretidas a estar e a ser, o quanto era v\u00e3o o ter que nelas e nele persistia\u2026<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a sonhar enquanto pelas escadas rolantes sonhando subia\u2026<\/p>\n<p>\u2026 e num sonho desfazendo-se entrou de s\u00fabito numa sacristia, e falou com um velho homem que lhe dizia: est\u00e1s morto!<\/p>\n<p>Mas o sonho de viver persistia\u2026<\/p>\n<p>E assim ficou absorto, subindo numa sonol\u00eancia as escadas lentas que o levavam a um outro piso cheio de dem\u00eancia.<\/p>\n<p>Algures era ele ali mas um outro, um estado alterado da consci\u00eancia de \u00e1guia a voar sem pouso\u2026<\/p>\n<p>\u2026Gentes nas lojas passavam como se fossem lojas com coisas dentro\u2026<\/p>\n<p>Iluminadas a nadas pela vida carregadas com objectos preciosos sem durabilidade nos seus sacos pl\u00e1sticos artificializados com verdes dizeres dizendo coisas como Liberdade e mentiras condicentes.<\/p>\n<p>E as pessoas prendiam-se umas \u00e0s outras por afinidades electivas e por m\u00fatuas vibra\u00e7\u00f5es e gostos de dores partilhadas, semeadas por aquele piso como centelhas de sol que um dia estar\u00e3o iluminadas, espalhadas por aquelas doces esplanadas do nada fazer, apenas conversando a tarde e talvez fosse tarde para o fazer, sentadas em bancos de pl\u00e1stico, seriadas e bebidas r\u00e1pidas pela vida como um caf\u00e9 expresso que algu\u00e9m toma s\u00f3 e ningu\u00e9m o convida, sob os tectos falsos ao sol junto \u00e0s plantas artificiais do viver mole, imersas todas no imenso vasto universo.<\/p>\n<p>\u2026 A beber ch\u00e1 de \u00e1gua quente despachada pela empregada descart\u00e1vel de m\u00eas a m\u00eas, que sorri como quem outro avia esperan\u00e7ada em ter apenas f\u00f4lego para viver outro dia em que ter\u00e1 nova e impermanente jornada e um futuro que sempre se adia, um sal\u00e1rio que n\u00e3o dava para nada mas era ali todo o esfor\u00e7o da sua vida, disfar\u00e7ada como empregada ela, a brilhante estudante, que \u00e0s mesas servia, pois de momento isso era tudo o que a sua amedrontada m\u00e3e queria, e talvez fosse fachada, talvez tudo fosse fachada porque a menina empregada era doutorada, ardente esteta que rodopiou o olhar pelas montanhas de livros que teve de ler, pelas tardes perdidas sem sol em que leu e leu livros em bibliotecas apinhadas de gente, a ler e a ler compulsivamente e impulsivamente respirando o ar da competi\u00e7\u00e3o querendo acima de tudo dinheiro e mais dinheiro urgentemente, dinheiro urgentemente e um diploma na m\u00e3o, que hoje j\u00e1 n\u00e3o tem sabor, a n\u00e3o ser terem-lhe dado o diploma e n\u00e3o lhe terem dado a m\u00e3o ou amor, e a recorda\u00e7\u00e3o disso numa foto perdida numa gaveta, com os pais sorrindo naquela tarde de sol junto \u00e0 igreja, e o estulto orgulho de ter passado longos anos a viver num sonho imaginado pelos pais, que vais que vais, Armanda!, vais sim!<\/p>\n<p>\u2026E agora, agora, doutorada em nada, lavando as x\u00edcaras de caf\u00e9 dos eventuais comensais, nas m\u00e3os l\u00facidas o detergente quente e sentir-se de repente que simplesmente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 gente, apenas ru\u00edna a trabalhar urgente com a \u00e1gua a escaldar nas m\u00e3os cheias de detergente\u2026<\/p>\n<p>O que sonhava ela quando era adolescente? Perguntou ele enquanto as escadas subia.<\/p>\n<p>A mesma coisa como todas as meninas da sua idade, ver-se repetidamente, nas s\u00e9ries americanas repetindo-se em lugares-comuns indefinidamente proferidos pelas conversas dispersas da cidade, nos estere\u00f3tipos de poder com belas cenas e bum bums a condizer, nos carros de luxo, nas mans\u00f5es, nas festas at\u00e9 mais n\u00e3o vistas apenas pela televis\u00e3o, numa \u00e2nsia, numa inexplic\u00e1vel \u00e2nsia de foder, de ter namorado e a vida reclusa um dia largar, e imerso tudo isto num mundo de maya, a ilus\u00e3o, a ver contente e sorver com a mente como toda a gente o \u00eddolo da televis\u00e3o igualzinho aquele que nunca iria ter como namorado, a n\u00e3o ser, a n\u00e3o ser\u2026<\/p>\n<p>\u2026Aquele tipo do lado de olhos carregados de trabalho que a convidou a beber caf\u00e9 na loja dos scones, talvez fosse ele, talvez, mas agora tenho trabalho, disse, por favor tenta mais logo, e o tipo l\u00e1 ia, de olhos carregados de trabalho e de discuss\u00f5es com a m\u00e3e a passarem-lhe no olhar em cenas de desd\u00e9m, a ter de fazer o turno da noite e ainda aguentar a total e descarada explora\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o pelo cifr\u00e3o que n\u00e3o lhe aumentava nem sequer em dias de folga um \u00fanico tost\u00e3o, apesar de vinte anos de estudo e de ter um precioso canudo continuava sisudo e oculto num turno da noite, como um c\u00e3o levado na trela de um sistema cego tendo o lucro como \u00fanico lema, l\u00e1 ia o tipo a pensar nela em suaves tons carregados a vermelho, por suaves vapores de pensamento movendo-se lento como num sonho permanente de saudade de amor, ele iria parar a sua dor por um momento, talvez por um momento, sonhando com sexo casual algures num t\u00e9nue apartamento, hummm que bom seria\u2026<\/p>\n<p>Isto dizia sentindo um leve aumento\u2026<\/p>\n<p>Mas ap\u00f3s algumas semanas com ela tudo seria um tormento, as discuss\u00f5es como pistolas atirando balas sem cessar em jantares caseiros que acabariam em inevit\u00e1vel pranto e partir de pratos, e o que era bom decerto um dia iria acabar de facto, os in\u00fameros telefonemas a chorar e os comprimidos todos seguidos a tomar, sempre sempre e sempre isto e aumentando a dose da dor di\u00e1ria como um cego cavalgar para o inferno de Mefisto\u2026<\/p>\n<p>Oh dor, oh dor desta gente extraordin\u00e1ria!&#8230;<\/p>\n<p>Pensava ele isto subindo as escadas rolantes, vendo as pessoas ocasionais n\u00e3o j\u00e1 como pessoas suas iguais mas como ovelhas dispersas num pasto, num vasto verde pasto, balindo l\u00e1 no ch\u00e3o, como se o centro comercial ali fosse um grande pasto e ao mesmo tempo uma grande pris\u00e3o, com o \u00fanico intuito de sorver das ovelhas todo o resultado do seu labor, o tost\u00e3o, para depois se angariar mais raz\u00e3o para justificar todo aquele labor desenfreado de manter tudo ocupado numa perene dinamiza\u00e7\u00e3o do consumo e da produ\u00e7\u00e3o deixando a frui\u00e7\u00e3o de lado, esta alcan\u00e7ava-se por breves momentos de inspira\u00e7\u00e3o no amor, onde de s\u00fabito se trope\u00e7ava na verdade mas, logo a seguir, numa inoportuna distrac\u00e7\u00e3o, l\u00e1 vinha a dor de consentir este ter de ser assim, e o rebanho prosseguia balindo, num eterno ciclo sem fim e sem solu\u00e7\u00e3o, e S\u00edsifo sorria com a pedra rolante na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Para milhares de ovelhas nesta pris\u00e3o do capital decidir como viver era um permanente arrasto no pasto para apenas sobreviver, dar amor e conhecer era visto como algo nefasto, um diferente estranho novo pasto, e n\u00e3o havia tempo para o ver\u2026<\/p>\n<p>Ele saiu das escadas rolantes, j\u00e1 num piso superior, e continuou o seu caminho palmilhando pavimentos gran\u00edticos vidrados e espelhados, e aumentava a sua dor, pois tudo o que queria era partilhar o p\u00e3o da sabedoria do seu amor, muitas vezes o seu olhar isso dizia, mas por ser fraco ainda n\u00e3o conseguia, dar-se de corpo e alma ao pr\u00f3ximo como se a raz\u00e3o de tudo fosse isso, amar, amar e do infinito universo ser sempre aprendiz submisso, pensava nisso, passando por pessoas an\u00f3nimas que caminhavam sem nome e sem destinos badalados, falando nadas em cores difusas em suaves tons de palavras confusas emanando tribais semifusas de dizeres tipificados, n\u00e3o compreendia aquela gente, estava numa Babel de sorrisos nunca entendidos, nunca compreendidos, em si enrolou-se numa escada at\u00e9 ao fundo do ser profundo e nada mais encontrou a n\u00e3o ser a dor do mundo, e a no\u00e7\u00e3o de ter de ser algo para ele, isto dava-lhe for\u00e7as, isto dava-lhe for\u00e7as e pensando nisto foi prosseguindo, e pisou outras escadas rolantes que davam para o outro piso e levaram-no indo.<\/p>\n<p>E foi olhando.<\/p>\n<p>E haviam roupas nas montras e odores sedutores saindo das portas das lojas convidando a entrar, convidavam-no distraidamente por ocultas mensagens no inconsciente instaladas pelos brilhos da l\u00e2mpada florescente sugerindo-o a tudo olhar, a comer com o olhar em tudo e tudo de uma vez gastar, e que gozo que era gastar gastando-se ali\u2026<\/p>\n<p>E haviam roupas de veludo, rel\u00f3gios e charangas para tudo, brinquedos de pl\u00e1stico que trocavam segredos da China, mil e uma inutilidades das mais variadas variedades e uma c\u00e2mara vigiando tudo em cima, tudo para todos em todos os tamanhos, e toda a gente ali, passeando o seu estar como pav\u00f5es desfilando de plumas no ar, a passear a sua classe m\u00e9dia, empobrecendo-se alegremente, naquele centro comercial monumento da dor colossal de toda aquela gente\u2026<\/p>\n<p>Gente que vivia casual como algo que se mostra e se vende, num estar que se passa sem nada se passar, desfilando no ch\u00e3o os seus passos perdidos, idos de um s\u00edtio onde os davam a brilhar, agora ca\u00eddos ali, passeando-se na ef\u00e9mera novidade, ausentes e esquecidos da outra cidade, gente encantada com o som da m\u00fasica, pela m\u00fasica levada e pelos tocadores dela deliciada\u2026<\/p>\n<p>M\u00fasica que faz esta gente ser importante somente naqueles puros, breves instantes, em que se recordam de um tempo e lugar onde estiveram antes, em que p\u00e9 ante p\u00e9 miram e remiram as lojas dos an\u00e9is de brilhantes, fugindo \u00e0 dor de viver, sonhando-se como seriam antes, apressando-se raras para apenas sorver repentinos os restantes momentos nos ocultos movimentos que V\u00e9nus ali lhes veio conceder, passar, mirar, gastar e desejar, arder\u2026<\/p>\n<p>Como se na \u00faltima promo\u00e7\u00e3o se descobrisse o sabor da gl\u00f3ria quando num supremo acto de vit\u00f3ria se efectua uma in\u00fatil compra e se completa o ser.<\/p>\n<p>Como quando se coloca o cart\u00e3o de cr\u00e9dito na carteira com os dedos \u00e1geis e subitamente se finge rico ser.<\/p>\n<p>Quando se abandona a caixa registadora depois das compras feitas e se olha para as suas mil e uma empregadas de mil caras descart\u00e1veis triunfante por n\u00e3o se ser como elas, figurantes no teatro dos outros, remexendo tachos e panelas e morrendo de amores por caras das telenovelas.<\/p>\n<p>Quando se passa ent\u00e3o a viver realmente, porque se tem dinheiro, incertamente, e se tem a certeza de se ser triunfal porque se usa a \u00faltima marca reconhecida mundialmente inscrita na embalagem do seu detergente\u2026<\/p>\n<p>E nada nos faz mal, e tudo nos faz mal, diz-nos de repente num canto do inconsciente a imagem do m\u00e9dico ausente.<\/p>\n<p>E caminhando alegremente, carregando sacos de pl\u00e1stico com detergente, vai-se para casa confiante como toda a gente mirabolante enquanto o sol nos d\u00e1 uma r\u00e9stia de esperan\u00e7a no nosso t\u00e9nue semblante de her\u00f3i da classe trabalhadora, eterno lutador diletante, ou o que for, o que for\u2026<\/p>\n<p>\u00d3 dor, esta gente n\u00e3o tem de facto consci\u00eancia de si como peregrino errante\u2026<\/p>\n<p>Nisto pensava ele ao subir para outra escada rolante.<\/p>\n<p>E lembrava-se agora do que dissera o fil\u00f3sofo da moda nas palavras da moda sabiamente tecidas em urdiduras sociais at\u00e9 \u00e1 exaust\u00e3o repetidas, palavras n\u00edtidas palavras soando como um estranho sonho nas colunas de som do shopping que vibrando parecem ainda estar ecoando:<\/p>\n<p>\u2026O trabalhador \u00e9 consciente do seu papel social, \u00e9 servi\u00e7al e est\u00e1 ao servi\u00e7o de uma cadeia de interesses que o esquece enquanto digita n\u00fameros ao computador\u2026<\/p>\n<p>\u2026Cadeia essa que com caras de computador lhe diz o que tem de fazer n\u00e3o mostrando por ele a m\u00ednima compaix\u00e3o, n\u00e3o lhe tolerando a m\u00ednima dor, apenas imp\u00f5e e manda sorrindo enquanto est\u00e1 o trabalhador despedindo, enquanto os lucros nas suas bolsas e nos seus mercados est\u00e3o subindo numa hierarquia que s\u00f3 a submiss\u00e3o consentida privilegia\u2026<\/p>\n<p>E o que vai de sacos de pl\u00e1stico na m\u00e3o com a promo\u00e7\u00e3o do detergente da ocasi\u00e3o, aceita e beija e ama esta situa\u00e7\u00e3o, pois para ele essa \u00e9 a sua frui\u00e7\u00e3o, e l\u00e1 vai ele, triunfal de saca na m\u00e3o at\u00e9 ao p\u00f4r-do-sol encontrando nisso todo o sentido e a direc\u00e7\u00e3o de uma vida inteira feita de lhe terem mentido, de pura escravid\u00e3o e de ditadura mole\u2026<\/p>\n<p>E o que vier h\u00e1-de for, e o que vier h\u00e1-de for\u2026<\/p>\n<p>E subindo pelas escadas rolantes da sua solid\u00e3o, olhou aquela bela mo\u00e7a de olhar azul empregada precarizada com ar de fina, segurando uma meia, em p\u00e9 e de m\u00e3os apoiadas num balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Subitamente as colunas de som do shopping pareciam ecoar, numa surdez de nitidez como quem \u00e9 banhado pelo toque da morfina e est\u00e1 a gostar, estas palavras como suaves nadas passeando-se pelo ar:<\/p>\n<p>\u2026Meninas modeladas pelas teorias econ\u00f3micas da moda, empregadas da universidade tiradas, rendem-se aos encantos de serem seduzidas pela facilidade de arranjarem r\u00e1pidos fundos de maneio vendendo a sua alma pelo meio, rodando em turnos pelos balc\u00f5es de atendimento dos shoppings e pelos escuros cantos da cidade prostituindo-se como \u00fanico meio de sobreviv\u00eancia, para terem roupas, perfumes, a ilus\u00e3o da independ\u00eancia e da emancipa\u00e7\u00e3o precoce, tudo isso envolto num odor a perfume de loja cara\u2026<\/p>\n<p>\u2026Algumas mo\u00e7as vestidas de vermelho aceitaram do pai alco\u00f3lico o prudente conselho, ave rara, que as n\u00e3o educou porque putas procurou deixando a m\u00e3e com mil encargos, esgotada e revirada do ju\u00edzo por j\u00e1 n\u00e3o haver paci\u00eancia, nunca teve paci\u00eancia aquela mulher, e naquele bairro todo onde viviam houve um surto abrupto de colossal dem\u00eancia ou uma coisa assim qualquer e nada de nada sabiam\u2026<\/p>\n<p>\u2026Naquela casa onde morava a bela mo\u00e7a, \u00e1 hora do telejornal, tudo estava j\u00e1 sem consci\u00eancia, assistiu a todo o tipo de viol\u00eancia com palavras vindas do campo lexical do horror proferidas pelo afamado locutor, senhor doutor, emin\u00eancia, enquanto \u00e0 mesa se come pizza e croissants adocicados e se assiste de gra\u00e7a aquela festa da desgra\u00e7a em festins lautos de gente desorientada, falando uns para cada lado e com a conversa estragada, enquanto as crian\u00e7as jogam jogos in\u00fateis que um dia s\u00f3 lhes ser\u00e3o \u00fateis para embarcarem e consentirem em ser apenas jogos de brincar nas m\u00e3os de um patr\u00e3o que apenas quer especialistas em teclar, teclar, mexer com o rato, falar pouco e para ele facturar\u2026<\/p>\n<p>E marchava a juventude ali como in\u00fameros soldados idiotas nas m\u00e3os de agiotas marcados em mercados que os est\u00e3o lentamente a produzir, treinados para apenas cobrar e seduzir, falar e encantar e para depois com o dinheiro sumir, s\u00e3o como os farsantes da feira de olhos a reluzir olhando as ovelhas pueris nos vastos campos verdes inocentes a balir\u2026<\/p>\n<p>E um menino olha o boneco do rambo na montra, e ali mesmo um substituto para o seu pai encontra, enquanto o padrasto o leva pela m\u00e3o, ele a chorar copiosamente sempre a dizer quer n\u00e3o, quer n\u00e3o, n\u00e3o quer mais ver o pai que bateu na m\u00e3e, agora quer apenas brincar mas j\u00e1 n\u00e3o tem ningu\u00e9m, depois das oito horas da noite numa escola vazia j\u00e1 sem ningu\u00e9m, v\u00ea a sua exist\u00eancia fria entediado at\u00e9 \u00e0 morte com o que lhe d\u00e1 a escola a engolir sem nenhuma intr\u00ednseca alegria o que lhe coube por sorte, apenas forjado para consumir e produzir, o menino olha o boneco do rambo na montra e tem os olhos a luzir\u2026<\/p>\n<p>E assim passa ele para um novo piso, subidas as escadas rolantes e sentindo-se como nunca antes, agora preso porque livre, com o passo lento num r\u00e1pido movimento lento vendo este dreamy dream da gente que por ali passa, e at\u00e9 parece que o ar s\u00fabito a lix\u00edvia emanada por uma empregada desgra\u00e7ada da limpeza nunca calar\u00e1 a desgra\u00e7a que por aquele shopping feliz ali perpassa.<\/p>\n<p>E ele assim vai, cem euros no bolso para gastar, vai que n\u00e3o vai, p\u00f5e no seu olhar um s\u00fabito pensar, enquanto a caminhar vai pelo shopping a deambular o seu ser estar sem tempo nem lugar.<\/p>\n<p>E a bolsa de T\u00f3quio desceu e tamb\u00e9m o Nikei, e no cartaz do cinema exibe o seu orgulho mais um actor gay, e a mo\u00e7a que agora passa olha demoradamente para o seu telem\u00f3vel n\u00e3o reparando em mais nada a n\u00e3o ser ver se a aplica\u00e7\u00e3o est\u00e1 actualizada e j\u00e1 n\u00e3o sabe sequer para aonde vai, depois daquela sexta-feira cheia de dma e vodka est\u00e1 uma imagem em si mesma que j\u00e1 n\u00e3o sai, o puro horror de n\u00e3o ter amor e de ter estado nua frente ao chuveiro, chorando olhando os azulejos sem cor da sua casa arrendada, mora perto tem tudo perto mas est\u00e1 desempregada, olha as montras casualmente desejando ter o que nunca ir\u00e1 ter certamente, e a mo\u00e7a assim passa apressada como uma ventania, outra aparece e vem mas \u00e9 algarvia, cheia de nada mas com champ\u00f4s na cabe\u00e7a, a desejar ser igual \u00e0 mi\u00fada drunfada do an\u00fancio das cal\u00e7as de marca registada, soube-se que era multimilion\u00e1ria mas \u00e9 s\u00f3 na sua cabe\u00e7a que isso se passa, vendo desfilar coisas in\u00fateis no facebook, rolando o olhar para as fotografias coloridas da inveja green, olhando para as coisas todas atrav\u00e9s de xanax e de um esplendor t\u00e9nue a spleen, menina jeans vinda de Tavira, passa por ele como uma vis\u00e3o de sedu\u00e7\u00e3o como ele nunca antes vira, a caminho do emprego do desemprego como caixa que s\u00f3 funciona a baixa, aturando os olhares da gente rica, despedida tr\u00eas meses depois quando o telem\u00f3vel lhe tocou e lhe disse numa voz doce:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o fica!\u201d<\/p>\n<p>E tudo se esvai num suave sonhar breve\u2026<\/p>\n<p>Shopping do morde e suga, ali vai ele como um lagarto cuja pele sempre muda, sob o sol caminhando incerto alheado e l\u00facido envolto num urbano deserto, invis\u00edvel na cidade de cimento ao c\u00e9u aberto, cem euros no bolso para gastar e a morte est\u00e1 sempre perto\u2026<\/p>\n<p>E assim vai caminhando, ouvindo a m\u00fasica hipn\u00f3tica que p\u00f5e a gente rob\u00f3tica saindo dos altifalantes do supermercado.<\/p>\n<p>Vendo as gentes a escolher o que mais barato lhes apetecer. De olho vivo na promo\u00e7\u00e3o e no fant\u00e1stico pre\u00e7o de ocasi\u00e3o, colocando a m\u00e3o no bolso contando cada tost\u00e3o.<\/p>\n<p>E o fim do m\u00eas longe, longe como uma miragem que se v\u00ea como o t\u00e9dio de viver no olhar parado, mirando as prateleiras cheias daquele insano fausto de todo aquele supermercado, e assim tudo ter de ser, e assim tudo ter de ser, uma insatisfa\u00e7\u00e3o pura e urgente de toda a gente a felicidade querer ter e isso saber, de ter gozo de querer viver e isso a todos partilhando, os seus olhos rebrilhando quando aquela mulher est\u00e1 passando, como que se nela visse as rodas do destino girando, como se isso estivesse constantemente a acontecer, e assim por entre transeuntes clientes vai caminhando em passos silentes isto suavemente pensando:<\/p>\n<p>\u2026 Quando, \u00f3 quando\u2026<\/p>\n<p>\u2026Meu ser num mar alto est\u00e1 a luz esperando, aqui nestas \u00e1guas paradas meu cais est\u00e1 apenas estagnando\u2026<\/p>\n<p>\u2026 Quando \u00f3 quando\u2026<\/p>\n<p>\u2026O fim de n\u00e3o saber, pois sempre a nascer morrendo aqui simplesmente estou, ficando s\u00f3, com o Sou, subindo estas escadas, e mais nada sei, o tempo parou, e mais nada sei, nem mesmo o lugar onde estou, e tudo o que sei \u00e9 ser nadas pelo vivendo em que me vou, subindo estas escadas, at\u00e9 ao \u00faltimo piso para encontrar quem sou\u2026<\/p>\n<p>\u2026 E parece n\u00e3o haver final para o incr\u00edvel labirinto do pensamento entrando em todas estas vidas, levantando v\u00e9us e acendendo instant\u00e2neas labaredas que s\u00fabitas se v\u00e3o com o vento\u2026<\/p>\n<p>Ele pisou o \u00faltimo piso num suave lamento.<\/p>\n<p>Foi \u00e0 varanda ver o sol e o jardim.<\/p>\n<p>Demorou-se um pouco a contemplar a paisagem.<\/p>\n<p>Depois.<\/p>\n<p>Desceu de elevador.<\/p>\n<p>E saiu do centro comercial como quem conhecia a dor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrou no centro comercial como quem conhecia a dor. As portas envidra\u00e7adas pelas quais atravessando ele passa deixam um suave rumor, um rugido sem alma do tr\u00e1fego indolor da cidade. Calmos carros passam como se n\u00e3o existissem na mente, como ondas mansas mergulham de encontro \u00e0s rotundas, aos sem\u00e1foros, \u00e0s vias r\u00e1pidas e iam dar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":362483,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-362482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=362482"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":362487,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/362482\/revisions\/362487"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/362483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=362482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=362482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=362482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}