{"id":362488,"date":"2025-09-07T00:30:33","date_gmt":"2025-09-07T03:30:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=362488"},"modified":"2025-08-28T20:17:32","modified_gmt":"2025-08-28T23:17:32","slug":"entre-poesias-e-revolucao-cubana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entre-poesias-e-revolucao-cubana\/","title":{"rendered":"Entre poesias e Revolu\u00e7\u00e3o Cubana"},"content":{"rendered":"<p>Aos 15 anos, quase 16, o futuro de Cl\u00e1udio prenunciava-se sem nuvens, um c\u00e9u de brigadeiro. Ele cursava o primeiro colegial e era um dos melhores alunos da classe. Mas n\u00e3o correspondia \u00e0 imagem cl\u00e1ssica de cdf: era popular, um esportista de razo\u00e1vel para bom e inigual\u00e1vel como animador de torcida, improvisando musiquinhas que zoavam com o advers\u00e1rio e estimulavam as equipes do col\u00e9gio \u00e0 vit\u00f3ria. Ao mesmo tempo, vivia uma fase de descobertas \u2013 da literatura, com destaque para a poesia de Carlos Drummond de Andrade, da pol\u00edtica de esquerda (gra\u00e7as \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e \u00e0 Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola, que derrotou um golpe militar ou, no m\u00ednimo, o adiou por quase tr\u00eas anos), do amor e do sexo.<\/p>\n<p>Esses dois aspectos eram decisivos em seu devir. Cl\u00e1udio e Helena, sua namoradinha da mesma idade, morriam de tes\u00e3o mas n\u00e3o avan\u00e7avam (muito) o sinal, mantendo-se virgens a contragosto. Na \u00faltima semana, por\u00e9m, ele havia recebido um bilhete de uma colega de quase 17 anos, uma das meninas mais gostosas do col\u00e9gio. Dizia o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cGatinho, voc\u00ea deve ser virgem. Quer deixar de ser? Passe na minha casa sexta que vem, \u00e0s 19 horas. Meus pais s\u00f3 voltar\u00e3o no domingo.<\/p>\n<p>PS \u2013 Nada de namoro, n\u00e3o vou competir com Helena. S\u00f3 t\u00f4 a fim de sacanagem\u201d.<\/p>\n<p>O rapaz quase desmaiou de emo\u00e7\u00e3o. A sexta-feira custava a chegar, os dias pareciam se arrastar. E, a cada um deles, relia vezes sem conta o bilhete, passaporte para o prazer.<\/p>\n<p>Outra dimens\u00e3o que tornou ainda mais luminoso o seu futuro foi a da pol\u00edtica estudantil. Uma semana antes de receber o bilhete da proposta sexual, Cl\u00e1udio foi procurado pelo presidente do gr\u00eamio. Depois de muitas idas e vindas, o pr\u00f3cer mirim sugeriu \u2013 pol\u00edtico que \u00e9 pol\u00edtico n\u00e3o promete nada, s\u00f3 faz sugest\u00f5es \u2013 que ele poderia ter o apoio da atual diretoria, caso se candidatasse a presidente do gr\u00eamio escolar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o porque voc\u00ea seja um excelente aluno, seja progressista ou tenha fundado um dos jornais da nossa escola \u2013 concluiu o presidente. \u2013 Tudo isso conta, mas n\u00e3o \u00e9 decisivo. \u00c9 que voc\u00ea \u00e9 popular, todo mundo, dos l\u00edderes estudantis \u00e0 tigrada repetente, te acha legal.<\/p>\n<p>Nisso, o pol\u00edtico em miniatura estava errado. Havia pelo menos um aluno que n\u00e3o ia com a cara de Cl\u00e1udio e era pago na mesma moeda.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o chamava-se Adilson. Ele e Cl\u00e1udio estiveram na mesma classe no segundo ginasial, quando as turmas foram organizadas por ordem alfab\u00e9tica (Cl\u00e1udio era um dos \u00faltimos na chamada). Eram diferentes como \u00e1gua e vinho, Adilson baixinho, forte e um candidato a sucessivas repet\u00eancias, o outro alto, magro e um excelente aluno. Os dois se desprezavam mutuamente, seus santos n\u00e3o batiam. Mas n\u00e3o seria a hostilidade isolada de uma ovelha negra que iria prejudicar a vitoriosa carreira pol\u00edtica do favorito dos deuses,<\/p>\n<p>Na quarta, quando faltavam dois dias para a perda da virgindade, Adilson e Cl\u00e1udio se esbarraram no p\u00e1tio do col\u00e9gio, na hora do recreio. Talvez algo tenha sido dito, talvez o desprezo nos olhos de ambos transparecesse mais forte que o habitual. O fato foi que Adilson desferiu, sem aviso, sem a troca de ofensas t\u00edpica da fase inicial de uma briga entre rapazes, uma bofetada que fez arder a face de Cl\u00e1udio e lhe encheu os olhos de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>E algo se quebrou.<\/p>\n<p>Aturdido, quase em choque, Cl\u00e1udio n\u00e3o reagiu. Voltou \u00e0 sala, cambaleando como se estivesse b\u00eabado. Alguns, uns poucos, viram o sucedido; no dia seguinte, toda a escola comentava o caso. A grande maioria negou veementemente que ele fosse covarde, j\u00e1 o tinha visto sair na porrada com rapazes mais velhos e mais fortes; mas admitia que sua apatia era \u201cmeio esquisita\u201d. Mentes jovens n\u00e3o perceberam a quebra no psiquismo da v\u00edtima do tabefe, como uma rachadura quase impercept\u00edvel em um cristal antes valioso.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o veio da ex-quase futura desvirginadora. Na quinta, o esbofeteado recebeu um bilhete curto e grosso: \u201cVamos adiar\u201d. Nenhum \u201dgatinho\u201d, nenhuma men\u00e7\u00e3o a namoro ou sacanagem. Ele percebeu que daquele mato pubiano nunca mais sairia coelho.<\/p>\n<p>Depois houve o sil\u00eancio ensurdecedor da mo\u00e7ada do gr\u00eamio. Cl\u00e1udio n\u00e3o podia reclamar, nunca ocorrera uma promessa formal de apoio. Simplesmente, n\u00e3o se falou mais em candidatura.<\/p>\n<p>Desse modo, o c\u00e9u de brigadeiro do futuro do rapaz cobriu-se de nuvens sombrias. Pior, ele passou a tomar decis\u00f5es prudentes em todas as esferas de sua vida, decis\u00f5es que n\u00e3o trouxessem o risco de novo golpe de surpresa, de mais um bofet\u00e3o. Ele e Helena perderam a virgindade juntos, numa transa sem muito entusiasmo, um ano depois; casaram cedo, tiveram um casal de filhos, viveram um arremedo morno de amor. Ele cursou Direito, seguindo o exemplo tedioso do av\u00f4 e do pai. Na primeira oportunidade, fez um concurso p\u00fablico que lhe deu seguran\u00e7a \u00e0 custa de rendimentos med\u00edocres. E assim seguiu pela estrada da vida, sempre com passinhos curtos e cuidadosamente medidos, sempre atento a uma eventual bofetada vinda n\u00e3o se sabe de onde, desferida n\u00e3o se sabe por quem.<\/p>\n<p>Repetindo, em sua descoberta da poesia, Cl\u00e1udio encantou-se com os versos de Drummond de Andrade. Se tivesse lido, aos 15-16 anos, o livro Pauliceia Desvairada, do paulista M\u00e1rio de Andrade, talvez se detivesse no poema Ode ao burgu\u00eas, cheio de sarcasmo dirigido ao homem-curva, ao homem-n\u00e1degas, que \u201c\u00e9 sempre um cauteloso pouco-a-pouco\u201d. E talvez compreendesse como o tapa havia afetado irremediavelmente seu equil\u00edbrio ps\u00edquico, tornando-o um burgu\u00eas bem comportado, um homem-n\u00e1degas, apesar de seu esquerdismo, de sua cren\u00e7a sincera na revolu\u00e7\u00e3o e no socialismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 15 anos, quase 16, o futuro de Cl\u00e1udio prenunciava-se sem nuvens, um c\u00e9u de brigadeiro. 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