{"id":362583,"date":"2025-09-01T02:18:25","date_gmt":"2025-09-01T05:18:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=362583"},"modified":"2025-09-01T02:22:13","modified_gmt":"2025-09-01T05:22:13","slug":"cura-e-segredo-escrever-e-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cura-e-segredo-escrever-e-sagrado\/","title":{"rendered":"Cura \u00e9 segredo, escrever \u00e9 sagrado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tanto n\u00e3o escrevo; ouvi que se devia ao fato de estar feliz. Bobagem. Vez ou outra, alguns pensamentos ainda me v\u00eam po\u00e9tico-narrativos, mas me poupo de escrev\u00ea-los. \u00c9 que, recentemente, vi nalgum lugar sobre aqueles que pensam com sinestesia e, desde ent\u00e3o, pego-me fazendo artesanias de pensar o sabor do amarelo ou sentir o cheiro do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Hoje, em que acordei demasiado silenciosa, uma raridade entre meus dias, quis igualmente escutar uma m\u00fasica cuja constru\u00e7\u00e3o das imagens n\u00e3o necessitasse de palavras. Li nalgum lugar \u2014 perd\u00e3o, meu leitor, pela imprecis\u00e3o de minhas refer\u00eancias, bem sei que seria uma professora med\u00edocre \u2014 que Debussy usa as espumas morrendo na areia para compor os m\u00fasculos da harmonia; assim, abri as janelas para o frescor das seis da manh\u00e3 tocar meu rosto quente de sono e fechei meus olhos para me encontrar com o mar.<\/p>\n<p>Do meu apartamento seco em meio \u00e0 clausura de Bras\u00edlia, senti-me de novo com meus 25 anos numa praia, cujo nome tamb\u00e9m n\u00e3o me lembro, no norte da Alemanha. Prefiro as praias brasileiras, evidentemente, mas aquela lembran\u00e7a me foi, e \u00e9, um aveludado abra\u00e7o em meio a esse rasgo que, por vezes, chamo de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, a vida ia dura; a estrada, longa. Mais areia, mais \u00e1gua, repentinamente uma floresta e um profundo sil\u00eancio. Volto meus olhos em meio \u00e0 trilha e me deparo com uma placa \u201cKurhaus\u201d, \u201ccasa de cura\u201d em alem\u00e3o. O resto do que senti ali \u00e9 segredo at\u00e9 para mim: a cura duma dor antiga se operou naquela tarde.<\/p>\n<p>Minha face fresca havia tornado quente, com aquele fervor que antecede o pranto imprevisto. O gosto da lembran\u00e7a escorreu pelos sulcos do rosto e, em minha ingenuidade, abri os olhos para enxergar o cheiro do mar. Deparei-me com a janela aberta no planalto de agosto.<\/p>\n<p>Ir \u00e0 cura num fechar de olhos \u00e9 loucura do corpo; mas sentir o gosto das ondas morrendo \u00e9 mist\u00e9rio de Debussy. Ainda que livre em minha imagina\u00e7\u00e3o, permane\u00e7o presa \u00e0 linguagem; ent\u00e3o, como revolta, crio o sil\u00eancio s\u00f3 para poder viver o inexistente e me esquecer depois.<\/p>\n<p>Talvez por isso n\u00e3o tenha escrito antes: perdida no sil\u00eancio que criei, com ardor, para mim mesma; vejo a escrita com tanta sacralidade que sua banaliza\u00e7\u00e3o macularia meu compromisso: nem sempre \u00e9 preciso dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tanto n\u00e3o escrevo; ouvi que se devia ao fato de estar feliz. Bobagem. 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