{"id":363064,"date":"2025-09-04T03:00:27","date_gmt":"2025-09-04T06:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363064"},"modified":"2025-09-03T14:20:46","modified_gmt":"2025-09-03T17:20:46","slug":"isto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/isto\/","title":{"rendered":"Isto"},"content":{"rendered":"<p>Amanhece.<\/p>\n<p>Deus d\u00e1 o imenso a quem o v\u00ea.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 submerge da escurid\u00e3o trazendo os sons usuais de quem acorda estremunhado vindo de um mundo de sonho de onde caiu no que diz ser acordado mas que foi de facto outro sonho para onde caiu e que sempre continua em qualquer lado.<\/p>\n<p>Ele desperta para este mundo com a estranha sensa\u00e7\u00e3o de j\u00e1 ter visto tudo.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>O corpo entranha-se de mundo f\u00edsico, de desejos e impress\u00f5es, de suaves percep\u00e7\u00f5es que aparecem como ondas do mar, vagas leves a rolar repetindo-se irrepet\u00edveis na vastid\u00e3o do som e do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>Acordou com o c\u00e9u e o sol a abrirem-se dos montes a nascente como uma forte torrente de emo\u00e7\u00e3o e plenitude. Tudo estava no seu devido lugar, como sempre esteve e estar\u00e1, pensou breve, enquanto via o nascer do sol a dedilhar raios de luz por entre os montes e o azul indefinido, que todo o tempo era uma sucess\u00e3o de acontecimentos, movidos no correr de um rio, levados na correnteza das suas \u00e1guas agitadas, embalados por uma for\u00e7a desconhecida que se desenrolava rolando e rolando numa aspira\u00e7\u00e3o de chegar ao mar, e talvez l\u00e1 parar e unir-se com o vasto imenso, que mais n\u00e3o \u00e9 que o saber que o tempo e n\u00f3s somos fundos, profundos imersos num sil\u00eancio ensurdecedor, a escutar a vida do tempo no fundo do mar, subindo por correntes do pensamento at\u00e9 sairmos das \u00e1guas e sermos o vento, agitando-se como o esp\u00edrito que n\u00e3o sabe de onde vem nem para onde vai, at\u00e9 se fundir com o sol de luz fina, dedilhando uma suave melodia em quem acorda, tudo olha e tudo esquece.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>Tudo o mais acontece como tem de acontecer, no fundo superficialmente a amanhecer, sucessivamente pelas ondas do espa\u00e7o, ele enche-se de ar e abre os bra\u00e7os em abra\u00e7o, sorve a plenitude do sol, da manh\u00e3 e do que vier a acontecer, ser\u00e1 sempre e apenas o rio de si em si mesmo a correr, levado n\u00e3o criado como \u00e1guas num espelho luminoso, o tempo \u00e9 algo que se espalha como a luz num lugar sombreado. Ficou a olhar o sol e deixou-se ficar um bocado demorando-se nisto, sei que estou aqui, sei que existo, viver \u00e9 algo que sou e que vivendo insisto\u2026 Pensa nestas coisas como que dizendo uma prece. Pensa nestas coisas como que interiormente dissesse as palavras m\u00e1gicas de uma prece.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>A luz entrecortou o sol e o seu pensamento. O que lembrou de ontem foi apenas um momento. O agora e o futuro \u00e9 uma luz abrindo-se no escuro. E vai e vem como as ondas do mar todo o seu pensar. Todo o repetir-se do pensar e do acontecer no mundo que os seus olhos v\u00eaem. Isto est\u00e1 a parecer um imenso teatro, um imenso teatro onde ajo e actuo. J\u00e1 n\u00e3o penso, flutuo. Sou vaga de mar repetindo-me devagar, espraiando-me em espuma a enrolar e desfiando-me em sonho areais dentro. B\u00f3io ausente num tempo que me esquece.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>No encanto de viver pelo tempo fundo minha alma viaja como se o mundo fosse apenas um espelho que reflecte o meu e outros mundos sempre que a alma embarca numa barca onde no mar lento se desvanece, e que num fumo deixa de ser mar para ser apenas o escuro universo que num long\u00ednquo eco aparece, e minha barca est\u00e1 parada na terra ressecada e o universo em cima se abre e transparece em estrelas sem fim e sois que s\u00f3 agora o olhar descobriu neste olhar que tudo aquece. Sinto isto e o mundo acontece.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>O tempo \u00e9 algo que me esquece. Olho com o olhar as coisas rudas e de s\u00fabito meu olhar muda a beleza das coisas mudas que a luz faz florescer. A beleza das coisas \u00e9 um sol rodando que nos faz aquecer. Isto sei e nisto me perco. Pois \u00e9 no longe onde me sinto perto. Como um alcan\u00e7ar com a m\u00e3o o universo todo e tocar um peda\u00e7o de luz que irradia para mim, eu, l\u00f3tus saindo do lodo, rodeado de p\u00e2ntano e \u00e1guas paradas, nascendo do fim.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>Amanhece e as pessoas acordam estremunhadas, Levantam-se dos leitos e v\u00e3o trabalhar apressadas. Sustentar-se \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o que as fazem se ocupar. A beleza das coisas est\u00e1 em primeiro lugar. Como este sol que irradia. Crescendo em luz e cor e j\u00e1 \u00e9 comigo este dia. E a corrente do rio arrasta-me pelo tempo. Que vou sentindo como apenas um lento suceder do momento. Cresce e desenvolve-se em novas cenas ininterruptas. O tempo n\u00e3o existe, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o para estarmos ocupados, das gentes rudas e das vidas sincronizadas domesticadas pelas m\u00e1quinas acinzentadas dos fazedores de escravos donos da planta\u00e7\u00e3o. A pensar fragmentados que a sua vida n\u00e3o \u00e9 una mas apenas uma ilus\u00e3o de liberdade estando pela estranha no\u00e7\u00e3o do tempo acorrentados acreditando pelos seus desejos esfumados que pela verdade est\u00e3o jurados. Acorrentados ao tempo e ao dever de o ocupar subordinados.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Quero esquecer\u2026<\/p>\n<p>O destino \u00e9 uma sucess\u00e3o de rios a correr. Dando para um mar cuja profundidade parece nunca acabar. E a esperan\u00e7a de l\u00e1 chegar e ser o tempo e o rio a correr faz-nos alegrar, \u00b4da-nos luz no ser. \u00c9 o que faz a alegria de ver este dia a amanhecer como um sol que l\u00e1 fora cresce em mim \u00e9 j\u00e1 luz a subir numa rosa que floresce. Pelos mares do sentir vou vaga a vaga mentindo-me a sumir. Levado pelo embalar das ondas num mar aberto que me esmaga de t\u00e3o pequeno ser e querer subir. Ah pudesse saber, o segredo todo do universo e o contar e depois tudo, tudo descrer. As palavras n\u00e3o serviriam para o descrever, se calhar o sentir tamb\u00e9m n\u00e3o, nunca o irei ver nesta luz do sol a esmorecer. Pens\u00e1-lo muito menos. A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma sensa\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 de haver algo mais forte. Um sorver do universo na minha consci\u00eancia. Ir al\u00e9m do universo e de toda a sucess\u00e3o de palavras e de n\u00fameros da ci\u00eancia e da supra-ci\u00eancia. Ser j\u00e1 tudo, iman\u00eancia. Poder ser j\u00e1 tudo, presen\u00e7a e clarivid\u00eancia. Imagem pura a rodar em fosforesc\u00eancia. O futuro est\u00e1 em mim contudo perdido num sonho de aus\u00eancia. Agarro o futuro comigo dentro e alcan\u00e7o o gozo desta manh\u00e3 na sua luz que resplandece, num ventre que se abre, num ser que volta e que de novo se esquece. Sol e eu somos g\u00e9meos num rodar de cores e esta manh\u00e3 agora e sempre em mim s\u00e3o gozos e dores num rodar que permanece e n\u00e3o parece haver fim nisto que acontece. A ver as pessoas a acordar de um sonho que de s\u00fabito empalidece. As suas cores agitando-se como breves flores numa imagem que lentamente se desvanece.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>O que sou vir\u00e1 com as teias que o destino tece.<\/p>\n<p>Emparedado pelo universo que me esquece sendo j\u00e1 libertado das correntes do que me acontece simplesmente pelo acto de respirar e de ver o mundo a libertar-se sucedendo-se devagar neste fogo meu a queimar-se\u2026<\/p>\n<p>Como um sonho a passar que a corrente do rio movimenta\u2026<\/p>\n<p>Creio que soube tudo quando vivia na placenta.<\/p>\n<p>Agora quando acordo, o mundo com os seus medos tenta fazer do conhecimento algo que afugenta.<\/p>\n<p>E vivemos lobos selvagens com medo do fogo.<\/p>\n<p>Cercados por rochas e por ignor\u00e2ncia nos montes ermos de n\u00e3o termos compaix\u00e3o nem esperan\u00e7a nem sermos nem termos inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Uivamos uns aos outros e \u00e0 lua.<\/p>\n<p>E o fogo est\u00e1 j\u00e1 no olhar, mora nesta rua.<\/p>\n<p>Onde tudo subitamente acontece.<\/p>\n<p>Como tudo tem de acontecer.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>E sinto-me perder.<\/p>\n<p>Acho-me no lume a arder da outra alma no olhar.<\/p>\n<p>Que de s\u00fabito se encontra a rir e a chorar e encontrando-me sai de si devagar olhando-me assustado para nenhum lado do seu lugar.<\/p>\n<p>E sou irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Lobo que saiu da toca do monte ermo da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Olho agora o outro que em sereno encontro me acha como que saindo de uma n\u00e9voa.<\/p>\n<p>E olhando-me escuta as minhas palavras feitas de m\u00e3os que se unem num cumprimento feito do t\u00e1cito consentimento de que as estrelas s\u00e3o para todos e de que o melhor por amor ser\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Isto e tudo isto a pensar vai acontecendo.<\/p>\n<p>Neste suave estar onde a contemplar isto vou vendo.<\/p>\n<p>O todo a acontecer enquanto uma brisa desce e est\u00e1 amanhecendo.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>E a perder-me o mundo resplandece.<\/p>\n<p>Talvez comigo ou mesmo sem eu.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 uma palavra que universo desconheceu quando se fez.<\/p>\n<p>J\u00e1 era eu quando tudo teve in\u00edcio e quando olhei o lago espelhado antes de para aqui descer, o eu era o universo e era todas as coisas que a mim estavam a aparecer.<\/p>\n<p>Como o agora e este amanhecer.<\/p>\n<p>Partindo-se em espelhos reflectindo-se at\u00e9 ao infinito.<\/p>\n<p>Escuto o amanhecer como quem de repente quer dar um grito e ser, o sol o grito e o amanhecer, entrecortado com esta luz e as pessoas a acordar e nunca morrer.<\/p>\n<p>Morro a viver depressa num esquecer demorado e devagar.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o sabemos \u00e9 uma compressa com que estancamos o sangue que corre no rio do tempo a avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ininterruptamente tempo fora a desenrolar-nos nas \u00e1guas frias da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O que somos foi-nos pensado por uma esp\u00e9cie de fogo de tudo, que nos queima por dentro como como sempre o tempo foi, um fogo que a viver nos cria e destr\u00f3i, n\u00f3s os amados do imenso.<\/p>\n<p>E viver d\u00f3i\u2026<\/p>\n<p>Penso isto, amanhece e fico um pouco tenso.<\/p>\n<p>Estou num fio.<\/p>\n<p>Num fio a pensar o fio fino com que nos tece a l\u00f3gica de tudo ser.<\/p>\n<p>Respiro fundo e esque\u00e7o tudo isto enquanto assisto ao amanhecer e desisto\u2026<\/p>\n<p>Mas Ser \u00e9 algo que persisto.<\/p>\n<p>Conhecer \u00e9 algo que persisto mas talvez nunca o possa ter.<\/p>\n<p>Ao menos de tentar jamais desisto.<\/p>\n<p>Pelas montanhas e pelos vales de ser a tudo assisto.<\/p>\n<p>Como um comboio avan\u00e7ando pelo amanhecer.<\/p>\n<p>O amanhecer do anoitecer que da montanha ao vale desce.<\/p>\n<p>Amanhece.<\/p>\n<p>Sou isto.<\/p>\n<p>Isto\u2026<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Conto &#8220;Isto&#8221; faz parte do livro &#8220;Breves Contos Modernos&#8221;, do escritor Castro Oliveira, dispon\u00edvel na Amazon.com.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanhece. 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