{"id":363561,"date":"2025-09-09T01:30:50","date_gmt":"2025-09-09T04:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363561"},"modified":"2025-09-08T12:32:18","modified_gmt":"2025-09-08T15:32:18","slug":"indio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/indio\/","title":{"rendered":"\u00cdndio"},"content":{"rendered":"<p>A noite come\u00e7a e tudo se acalma no escuro claro da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A cidade dorme, de olhos fechados nas fachadas, nas estradas molhadas, no nevoeiro leve que sobe das cal\u00e7adas pisadas.<\/p>\n<p>Assisto a tudo isto do canto da minha alma, tomando um ch\u00e1 e brindando ao infinito.<\/p>\n<p>Desliguei a televis\u00e3o in\u00fatil.<\/p>\n<p>Desliguei o trabalho de ca\u00e7a n\u00edqueis.<\/p>\n<p>Sou agora imperador do tempo todo, da noite toda.<\/p>\n<p>Subo aos sonhos do que sinto pelos caminhos da minha mente percorrendo um interno labirinto.<\/p>\n<p>Fecho os olhos e estou longe, a mil milhas daqui, numa floresta densa com troncos de \u00e1rvores erguidos como bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Caminho como um guerreiro s\u00f3, descal\u00e7o, sobre as pedras e as ervas dispersas.<\/p>\n<p>Perten\u00e7o a uma tribo de caras desconexas que se re\u00fane \u00e0 noite para dan\u00e7ar em transe a festa da lua enquanto a fogueira arde.<\/p>\n<p>Ouvimos as hist\u00f3rias do velho paj\u00e9 que jura a p\u00e9s juntos que j\u00e1 fora muitos.<\/p>\n<p>E regresso \u00e0 minha cabana.<\/p>\n<p>Ela dorme na cama, e \u00e9 lenta a sua respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sonha h\u00famidos desejos que se esfumam em imagens ba\u00e7as com gente e gritos dentro.<\/p>\n<p>Deito-me com ela e fico feliz, olhando da janela a lua magra e relento lento.<\/p>\n<p>Algumas velas na mesa, acesas e silenciosas, tr\u00e9mulas de meia-noite fugindo repentinas do esvoa\u00e7ar de sombras invis\u00edveis.<\/p>\n<p>H\u00e1 gente aqui\u2026<\/p>\n<p>Deixo os minutos passarem como instantes que apenas deixo ser, despercebidos e sem pensamentos junto.<\/p>\n<p>As velas ardem.<\/p>\n<p>Ela dorme silenciosa morna e doce como a tepidez do len\u00e7ol entre a macieza da sua pele.<\/p>\n<p>Passo a minha m\u00e3o na sua perna.<\/p>\n<p>Sinto-me feliz.<\/p>\n<p>A lua dorme quieta e morna.<\/p>\n<p>Enche-se devagar a emanar prata reluzente.<\/p>\n<p>Penso por vezes que fui lobo, algures lobo, correndo pela floresta permanentemente, pelas pedras e pelas ervas, em noites como esta, por selvas, a mil milhas daqui\u2026<\/p>\n<p>A mil milhas daqui bem agora na minha consci\u00eancia enquanto bebo ch\u00e1 e brindo ao infinito e estou aqui.<\/p>\n<p>Desliguei a televis\u00e3o in\u00fatil.<\/p>\n<p>Desliguei o trabalho de ca\u00e7a n\u00edqueis.<\/p>\n<p>Sou agora imperador do tempo todo, da noite toda que se abre a mim enquanto fecho os olhos e vou subindo, pelos sonhos do que sinto, pelos caminhos da minha mente em que me minto percorrendo um interno e longo labirinto.<\/p>\n<p>E sou agora um outro, o que voa de noite e salva pessoas.<\/p>\n<p>Ele sobe a pr\u00e9dios e olha as ruas em redor iluminadas a vago s\u00e9culo vinte e um.<\/p>\n<p>Do alto do pr\u00e9dio ele v\u00ea e espera no frio da noite pela mudan\u00e7a do vento.<\/p>\n<p>Olha o tempo que faz depois de dormir, enquanto os corpos dormem jazendo em camas pr\u00e9-fabricadas sem nada sentir.<\/p>\n<p>Os seus sonhos s\u00e3o feitos de pedra e de bet\u00e3o, de passos e de desejos dando em nada na fumarada do mundo v\u00e3o.<\/p>\n<p>E v\u00ea no seu olhar a abrir\u2026 Tantas pessoas agarradas ao ch\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Do alto do pr\u00e9dio ele vigia, e espera o vento mudar.<\/p>\n<p>Olha a lua magra no c\u00e9u emanando um reluzir de prata lembrando a recorda\u00e7\u00e3o de sempreaqui estar.<\/p>\n<p>Esta imagem lentamente a desfocar\u2026<\/p>\n<p>Sou este agora, diz na aus\u00eancia da hora, o que salva pessoas\u2026<\/p>\n<p>E o vento muda de repente e soa-lhe que alguns quil\u00f3metros dali est\u00e1 gente.<\/p>\n<p>Gente que vai num autom\u00f3vel, fumando e bebendo, a m\u00fasica do r\u00e1dio demasiado alta, grita-se e canta-se l\u00e1 no interior da viatura, \u00e1lcool e drogas, a estrada atravessando-se no olhar cansado do condutor, \u00e9 jovem, uns vinte anos mal dormidos, sorri e canta e \u00e9 demasiado sens\u00edvel nos ouvidos, olha a namorada que vai do seu lado e bebe da garrafa de Vodka mais um trago alucinado\u2026<\/p>\n<p>De repente, sem avisar, uma luz forte de um cami\u00e3o gigante atravessa-se em frente, o cami\u00e3o buzina como um navio partindo do cais. Um choque violento\u2026<\/p>\n<p>As pessoas despedem-se no cais acenando.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel fica desfeito e os dois no interior est\u00e3o dormindo de pele demasiado branca.<\/p>\n<p>Do alto do pr\u00e9dio ele voa e atravessa a noite e a floresta e a estrada e tudo passa como linhas brancas tracejantes.<\/p>\n<p>Chega perto da viatura desfeita.<\/p>\n<p>O homem do cami\u00e3o fala ao telem\u00f3vel chorando e gritando pela ambul\u00e2ncia, r\u00e1pido, r\u00e1pido\u2026<\/p>\n<p>A sua voz rouca e espessa como quem nunca dormiu e vive entre as urzes da vida.<\/p>\n<p>O homem que salva pessoas entra na viatura, atravessa-a e fala com o jovem transido que saiu do corpo inanimado de pele demasiado branca.<\/p>\n<p>Como est\u00e1s? Sabes onde est\u00e1s agora?<\/p>\n<p>E o jovem alcoolizado est\u00e1 tonto, \u00e9 todo alma apenas, girando na confus\u00e3o de querer apenas<\/p>\n<p>cumprir penas, olha estupefacto para o seu pr\u00f3prio corpo na viatura\u2026<\/p>\n<p>E foge como um gato assustado.<\/p>\n<p>Foge e corre como alma desvairada e corre e corre pelo cinzento alcatr\u00e3o da estrada, sob a noite dos penedos e da lua magra, uivando de dor por n\u00e3o saber nada que n\u00e3o h\u00e1 morte que \u00e9 apenas o seu corpo na estrada\u2026<\/p>\n<p>A sua namorada acorda do seu sono de alma jovem e olha para o seu pr\u00f3prio corpo inanimado com o olhar espantado.<\/p>\n<p>Mas onde estou?<\/p>\n<p>Exclama com voz doce e o olhar agu\u00e7ado de surpresa.<\/p>\n<p>O homem que salva pessoas \u00e9 transparente como ela, aproxima-se lento como uma luz e de voz confiante vai-lhe explicando que a fase no mundo denso tem um fim mas que no fundo n\u00e3o existe fim para a consci\u00eancia que est\u00e1 sempre evolucionando.<\/p>\n<p>E pega-lhe na m\u00e3o transparente e pede-lhe paci\u00eancia, agora ela est\u00e1 num mundo novo, o mundo daqueles que partiram, paci\u00eancia, muitos para aqui subiram\u2026<\/p>\n<p>Ela olha o homem que salva pessoas e sente um vento quente na cara.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores na escurid\u00e3o abanam lentas\u2026<\/p>\n<p>O homem denso do cami\u00e3o est\u00e1 inconsol\u00e1vel, de telem\u00f3vel in\u00fatil na m\u00e3o a desejar o fim do sofrimento, porque \u00e9 que tudo \u00e9 pag\u00e1vel quando n\u00e3o se paga o lamento\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 naquele instante que a ambul\u00e2ncia aparece.<\/p>\n<p>E os corpos inanimados s\u00e3o levados como algo que se esquece.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a chover\u2026<\/p>\n<p>O homem que salva pessoas n\u00e3o sabe do paradeiro do jovem alcoolizado.<\/p>\n<p>O jovem fugiu pela estrada, transparente, correndo como uma sombra silente pelo alcatr\u00e3o cinzento, sob o rugido dos penedos e o tinir da prata da lua magra reluzente, evanescendo uma palidez de p\u00e1tria ausente e dormente.<\/p>\n<p>O jovem goge como quem foge de si permanentemente.<\/p>\n<p>A noite o acompanha por entre os ciprestes, por entre os risos dos esp\u00edritos dos elementos esfomeados e os bra\u00e7os dos ramos silvestres numa aus\u00eancia de momentos estilha\u00e7ados\u2026<\/p>\n<p>E o tempo passa arrastando lento mil desejos.<\/p>\n<p>Parou de chover.<\/p>\n<p>Algumas horas depois o sol nasce, irrompem os raios de luz das montanhas. Iluminam-se os penedos e os lajedos na dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O esquecimento cobriu toda a madrugada.<\/p>\n<p>O homem que salva pessoas regressou ao alto do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>O vento \u00e9 ameno agora.<\/p>\n<p>A jovem namorada l\u00e1 ficara com a sua alma penada albergada num pequeno templo.<\/p>\n<p>Feito de luz e amor, com gente boa desencarnada a tratar dela, olhando-a levemente da janela.<\/p>\n<p>E tudo se esfumou num sonho de olhos abertos.<\/p>\n<p>E sou agora o mesmo, no mesmo lugar onde ontem estive.<\/p>\n<p>Acordado na cama onde o rel\u00f3gio electr\u00f3nico ainda vigora.<\/p>\n<p>Vejo-o na mesa de cabeceira impondo o ritmo \u00e0s formigas ca\u00e7a n\u00edqueis que andam l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Nas ruas, nas cidades, por todo o lado em bandos procurando o alimento para o corpo que adiado sobrevive dia-a-dia sem uma luz de amor de gra\u00e7a dado que lhe d\u00ea sentido.<\/p>\n<p>E penso se um dia ser\u00e1 poss\u00edvel dizer a toda a gente, que os sonhos de temos de madrugada s\u00e3o frescas mem\u00f3rias da morada onde de facto se vive alegremente.<\/p>\n<p>O dia come\u00e7a e tudo se acalma no escuro claro da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A cidade lentamente acorda, de olhos estremunhados nas fachadas, nas estradas molhadas, no nevoeiro leve que sobe das cal\u00e7adas das madrugadas.<\/p>\n<p>Ele levanta-se de cama e vai lutar.<\/p>\n<p>Seis e meia, \u00e9 altura de ir trabalhar\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite come\u00e7a e tudo se acalma no escuro claro da consci\u00eancia. 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