{"id":363603,"date":"2025-09-17T00:30:41","date_gmt":"2025-09-17T03:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363603"},"modified":"2025-09-10T20:57:30","modified_gmt":"2025-09-10T23:57:30","slug":"estigmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/estigmas\/","title":{"rendered":"Estigmas"},"content":{"rendered":"<p>Era uma manh\u00e3 qualquer em S\u00e3o Paulo, daquelas em que o sol tenta furar o concreto cinza da cidade, mas a pressa das pessoas parece n\u00e3o dar espa\u00e7o pra ele. No metr\u00f4, lotado como sempre, Ana segurava firme no corrim\u00e3o, fones de ouvido plugados, tentando ignorar o aperto e o cheiro de caf\u00e9 requentado que vinha de algum canto. Ao lado dela, um rapaz de cabelo colorido e piercing no nariz mexia no celular, alheio aos olhares tortos que recebia de uma senhora de meia-idade. &#8220;Esses jovens de hoje&#8230;&#8221;, a senhora murmurou, alto o suficiente pra ser ouvida, baixo o suficiente pra fingir que n\u00e3o era com ele.<\/p>\n<p>Ana sorriu por dentro. J\u00e1 tinha ouvido algo assim antes, mas n\u00e3o sobre cabelo colorido. No caso dela, era o fato de ser uma mulher de 35 anos, solteira, sem filhos, e pior sem vontade de ter filhos. &#8220;Voc\u00ea t\u00e1 esperando o qu\u00ea? O tempo passa, viu?&#8221;, diziam as tias no Natal, com aquele tom que misturava preocupa\u00e7\u00e3o e julgamento. O estigma, esse velho conhecido, n\u00e3o perdoava. N\u00e3o importava se Ana era bem-sucedida na carreira, se viajava o mundo ou se sentia plena com suas escolhas. Para muitos, ela era uma pe\u00e7a fora do tabuleiro, uma anomalia que desafiava o &#8220;script&#8221; da vida.<\/p>\n<p>Enquanto o metr\u00f4 sacolejava, Ana pensava em como os estigmas ainda moldam o jeito que as pessoas se veem e se julgam. O rapaz de cabelo colorido, por exemplo. Provavelmente um artista, um estudante, algu\u00e9m com sonhos t\u00e3o v\u00e1lidos quanto os de qualquer outro. Mas, para a senhora do metr\u00f4, ele era &#8220;rebelde sem causa&#8221;, um estere\u00f3tipo ambulante. E o que dizer da colega de trabalho de Ana, que, por ser gorda, ouvia piadinhas disfar\u00e7adas de &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade&#8221;? Ou do amigo que, por ser gay, ainda precisava se explicar em rodas de conversa, como se sua vida precisasse de um selo de aprova\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Os estigmas de hoje n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o diferentes dos de ontem, Ana refletia. Eles s\u00f3 mudaram de roupa. Antes, vinham em forma de fofoca na vila ou olhares na igreja. Agora, est\u00e3o nas redes sociais, nos coment\u00e1rios an\u00f4nimos, nas indiretas em grupos de WhatsApp. A tecnologia deu ao julgamento uma vitrine maior, mais brilhante, mas n\u00e3o menos cruel. \u00c9 o &#8220;voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 magra o suficiente&#8221; nas fotos editadas do Instagram, o &#8220;homem n\u00e3o chora&#8221; que ainda ecoa quando algu\u00e9m ousa mostrar vulnerabilidade, ou o &#8220;voc\u00ea \u00e9 velho demais pra isso&#8221; quando algu\u00e9m de 50 anos decide aprender algo novo.<\/p>\n<p>Mas havia algo de esperan\u00e7oso naquele vag\u00e3o, Ana notou. O rapaz de cabelo colorido sorriu pra uma crian\u00e7a que o encarava com curiosidade, n\u00e3o com julgamento. A crian\u00e7a riu de volta, apontando pro cabelo como se fosse uma obra de arte. Talvez o futuro fosse menos r\u00edgido, pensou Ana. Talvez as novas gera\u00e7\u00f5es, com sua mania de questionar tudo, estivessem come\u00e7ando a desmontar esses r\u00f3tulos, um de cada vez.<\/p>\n<p>Quando desceu na sua esta\u00e7\u00e3o, Ana decidiu que hoje n\u00e3o se importaria com os olhares ou os &#8220;conselhos&#8221; n\u00e3o solicitados. Ela era quem era solteira, feliz, livre. E se algu\u00e9m quisesse colar um estigma nela, que colasse. Ela j\u00e1 sabia que r\u00f3tulos n\u00e3o definem quem a gente \u00e9. S\u00e3o s\u00f3 palavras mal costuradas, que desmancham com o tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma manh\u00e3 qualquer em S\u00e3o Paulo, daquelas em que o sol tenta furar o concreto cinza da cidade, mas a pressa das pessoas parece n\u00e3o dar espa\u00e7o pra ele. 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