{"id":363797,"date":"2025-09-22T01:15:17","date_gmt":"2025-09-22T04:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363797"},"modified":"2025-09-09T23:02:59","modified_gmt":"2025-09-10T02:02:59","slug":"dois-meninos-dois-destinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dois-meninos-dois-destinos\/","title":{"rendered":"Dois Meninos, Dois Destinos"},"content":{"rendered":"<p>Encravada num belo vale, pontuado aqui e ali de ip\u00eas em flor, ao fim de uma alameda cercada de palmeiras imperiais, estendendo-se, sobre um plat\u00f4, por muitos metros, com mais de 30 janelas na fachada, estava a casa grande da Fazenda Morro Verde, que pertencia a um dos mais proeminentes produtores rurais do ent\u00e3o Imp\u00e9rio do Brasil.<\/p>\n<p>A fazenda era um organismo vivo e quase autossuficiente. Tudo de que necessitavam seus moradores, em mat\u00e9ria de alimenta\u00e7\u00e3o, era ali produzido, exceto alguns itens obtidos em compras na vila pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>\u00c0 tardinha, imenso grupo de trabalhadores escravizados, vigiados por alguns capatazes, voltava do eito trazendo suas ferramentas. Entoavam um c\u00e2ntico lamentoso enquanto andavam, pisando pesadamente o ch\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>A chamin\u00e9 do fog\u00e3o, na parte de tr\u00e1s da casa, soltava t\u00eanue fuma\u00e7a, que se desfazia a poucos metros de altura em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u alaranjado. As sombras cresciam e se preparavam para engolir o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dentro da casa, naquele tempo, desenrolava-se o drama do poderoso propriet\u00e1rio e sua mulher.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos de casamento sem fruto, nascera o filho do Coronel Francisco Antunes. Foi batizado de Eurico, o mesmo nome de seu av\u00f4 paterno. A m\u00e3e, Dona Zen\u00f3bia de Fran\u00e7a Antunes, no entanto, foi desafortunada, e morreu de infec\u00e7\u00e3o poucas semanas depois do parto do menino. Aconteceu como se um raio houvesse ca\u00eddo naquela casa grande da fazenda, do interior do Rio de Janeiro, no ano da gra\u00e7a de 1858.<\/p>\n<p>Os esfor\u00e7os dos facultativos, vindos da Corte, que custaram alguns contos de r\u00e9is, foram in\u00fateis. A mulher n\u00e3o resistiu. Os \u00faltimos dias foram de inconsci\u00eancia. Nos del\u00edrios, ela dizia, intensamente:<\/p>\n<p>\u2013 Os meninos&#8230; os meninos&#8230; Cuidem dos meninos. Por gra\u00e7a de Deus, cuidem dos meninos.<\/p>\n<p>Suava e mantinha os olhos cerrados.<\/p>\n<p>As poucas pessoas que assistiam seus estertores olhavam-se estranhadas, pois quem haveriam de ser \u201cos meninos\u201d? O parto havia sido de apenas um var\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sorte do rec\u00e9m-nascido, quase ao mesmo tempo engravidara a escrava Sabina, tamb\u00e9m prim\u00edpara, da grande senzala do Coronel, mucama da sinh\u00e1, por quem o senhor tivera sempre muito afeto. Afeto t\u00e3o grande que deu fruto: Erasmo, meses apenas mais velho que Eurico. Sabina foi feita ama de leite do filho do Coronel.<\/p>\n<p>Erasmo e Eurico cresceram juntos, quase como g\u00eameos desencontrados, um no quarto de sinh\u00e1, outro \u00e0 sombra do fog\u00e3o a lenha. Mas eram iguais em brincadeiras, folguedos, cavalgadas, traquinagens. O terreiro vermelho era campo de guerra e de paz: corridas, quedas, joelhos esfolados, mergulhos no c\u00f3rrego raso que cantava na beira da v\u00e1rzea. Euriquinho, de botinas que vinham da Corte nas malas do caixeiro, media a altura das mangueiras; Erasmo, descal\u00e7o, subia mais alto. Em dias de festa, o Coronel mandava vesti-los igual \u2013 a mesma jaqueta de brim, \u00e0 alferes, as cal\u00e7as de algod\u00e3o, cinta encarnada. Iguais no tecido, diferentes nos p\u00e9s: Euriquinho usava sapatos e Erasmo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>As senhoras, de visita, sorriam amarelo. Um ou outro vizinho, mais atrevido, murmurava a ousadia de p\u00f4r escravo ao lado do herdeiro, sendo criado assim t\u00e3o juntos.<\/p>\n<p>Erasmo era a sombra de seu meio-irm\u00e3o, n\u00e3o raro comiam do mesmo prato, e a proximidade causava falat\u00f3rio tamb\u00e9m entre as outras escravas da casa, que, maldosas, recebiam reprimenda de Matilde, a mais velha de todas, j\u00e1 meio cega, agora encarregada de tingir tecidos e fazer sab\u00e3o de cinza num grande tacho de cobre, no p\u00e1tio de dentro, perto da cozinha.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o v\u00e3o metendo o bedelho nisso n\u00e3o, s\u00f4. Fica de fofocaiada. O sinh\u00f4 \u00e9 b\u00e3o, quer a Erasmo como se fosse filho dele.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cComo se fosse\u201d, Matilde? \u2013 provocava uma delas, Evangelina, a mais jovem.<\/p>\n<p>\u2013 Psiiiiu \u2013 fazia a velha negra, com o indicador sobre o l\u00e1bio, a demandar sil\u00eancio. Certas verdades eram proibidas naqueles rinc\u00f5es. Sabina chegara perto do grupo, e Matilde a queria muito bem para que tais conversas a magoassem.<\/p>\n<p>Sabina ajeitava o colarinho do filho do senhor com a mesma m\u00e3o que alisava o crespo de Erasmo. E, num descuido doce, Euriquinho chamou-a \u201cm\u00e3e preta\u201d.<\/p>\n<p>Eurico aprendia no sal\u00e3o azul da casa grande as li\u00e7\u00f5es ensinadas pela preceptora Frau Anne, uma alem\u00e3 curta de sorriso e larga de rigores, que viera da Corte e passava temporadas na fazenda, de cabelos louros, face vermelha e olhos muito azuis. Sua face dura quase nunca esbo\u00e7ava um sorriso. Exceto para Erasmo, que lhe ca\u00edra nas gra\u00e7as e, n\u00e3o raro, ficava sentado ao p\u00e9 da mesa onde as li\u00e7\u00f5es, que pareciam um pelot\u00e3o de letras, ocorriam. Em princ\u00edpio, Frau Anne, secretamente, dava li\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m ao menino escravo, dentro do qual as s\u00edlabas escorriam como \u00e1gua de mina. \u00c0s vezes respondia primeiro ao que a mestra perguntava ao branco. E ele j\u00e1 sabia ler perfeitamente, enquanto o filho do senhor se desenvolvera na leitura e na escrita, mas certos saberes lhe pareciam pedras descendo pela garganta. O ar do menino-senhor pesava, e um surdo ci\u00fame, sem nome ainda, punha raiz no cora\u00e7\u00e3o de Eurico.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Cap\u00edtulo II deste folhetim ser\u00e1 publicado na ter\u00e7a-feira, 23.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encravada num belo vale, pontuado aqui e ali de ip\u00eas em flor, ao fim de uma alameda cercada de palmeiras imperiais, estendendo-se, sobre um plat\u00f4, por muitos metros, com mais de 30 janelas na fachada, estava a casa grande da Fazenda Morro Verde, que pertencia a um dos mais proeminentes produtores rurais do ent\u00e3o Imp\u00e9rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":363802,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-363797","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/363797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=363797"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/363797\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":363804,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/363797\/revisions\/363804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/363802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=363797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=363797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=363797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}