{"id":363805,"date":"2025-09-23T01:15:49","date_gmt":"2025-09-23T04:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363805"},"modified":"2025-09-09T23:09:41","modified_gmt":"2025-09-10T02:09:41","slug":"saberes-surpresas-expectativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/saberes-surpresas-expectativa\/","title":{"rendered":"Saberes, surpresas, expectativa"},"content":{"rendered":"<p>Um dia, recostado a uma cadeira de vime na saleta, o Coronel lia uma folha vinda pelo Correio Imperial havia algumas horas, e o pequeno Erasmo, \u00e0 roda dele, achou engra\u00e7ada a figura de um homenzinho com uma trouxa sobre o ombro, sustentada numa vareta, e o numeral \u201c100U000\u201d. E leu: es-cra-vo fu-gi-do.<\/p>\n<p>O Coronel tirou os olhos do jornal e olhou-o aturdido.<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 que voc\u00ea aprendeu a ler, menino?<\/p>\n<p>\u2013 Foi a Frau branca, nhonh\u00f4. Ela me ensina junto a Euriquinho.<\/p>\n<p>O Coronel achou gra\u00e7a, e disse para, dali em diante, a preceptora dar o mesmo ensino a ambos os meninos. N\u00e3o que lhe tocasse o cora\u00e7\u00e3o o desenvolvimento de um escravizado, mas \u00e9 que um moleque daqueles sabendo ler, escrever e fazer contas, sabendo um pouco de corografia e hist\u00f3ria, seria uma bela curiosidade para exibir \u00e0s visitas.<\/p>\n<p>Pois, ao longo do tempo, Erasmo mostrou-se muito mais afeito aos estudos que o pr\u00f3prio Eurico. Desenvolveu-se inteligente e repleto de ideias novas, muitas delas trazidas pela preceptora, pelos livros que lia, pelos jornais da Corte.<\/p>\n<p>A vida passou ligeira na grande fazenda, sem sobressaltos, at\u00e9 o ano de 1879, quando o Coronel foi acometido de renhida doen\u00e7a. Cl\u00ednicos e cirurgi\u00f5es vieram da corte, mas n\u00e3o houve resultados positivos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca desses sucessos, brigado com o pai, Eurico j\u00e1 se retirara da fazenda por dois anos. No primeiro, come\u00e7ara a faculdade de direito em S\u00e3o Paulo. No segundo, havendo desistido do curso, trabalhara na corte como jornalista, causando no velho alguma revolta.<\/p>\n<p>\u2013 Isto \u00e9 profiss\u00e3o sem futuro. Tu j\u00e1 gastaste uns bons contos da heran\u00e7a materna, e n\u00e3o disseste a que veio.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor meu pai, escrevo em uma das mais importantes folhas da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastava. O Coronel queria que o filho seguisse a profiss\u00e3o militar, ou se empenhasse na faculdade. Recebera informes da corte, dando conta que o filho se entregava a toda sorte de dissipa\u00e7\u00f5es. Noitadas, bord\u00e9is, bebedeiras&#8230; O lugar em que menos o encontravam era na reda\u00e7\u00e3o. Tiveram um grave atrito quando discutiram o direito de Eurico controlar sua parte na heran\u00e7a da finada m\u00e3e. Romperam.<\/p>\n<p>Francisco Antunes, senhor de homens e campos, era feito de duras certezas e de um bom punhado de remorsos que vinha escondendo no bolso do colete. Em cavalgadas compridas por Morro Verde, lembrava da m\u00e3o de Zen\u00f3bia afrouxando no len\u00e7ol e do olhar de Sabina \u2014 a um s\u00f3 tempo servil e consolador \u2014 quando o leite passou de um seio para outro.<\/p>\n<p>As visitas, o compadre, o padre-confessor Manoel Estrela, todos sabiam, e lhe diziam, que a morte cobra contas. O Coronel, que mandara mais do que qualquer juiz, come\u00e7ou a desconfiar que, diante da eternidade, seu comando era p\u00f3.<\/p>\n<p>Lembrava de Erasmo a soletrar nomes de reis e batalhas, recitando versos de Cam\u00f5es, trechos das escrituras, os rios do Amazonas; Eurico, de temperamento irrequieto, debater-se entre a disciplina e as tenta\u00e7\u00f5es da Corte. E a cada noite, a pena descansava ao lado do tinteiro como quem espera ordem: escrever o que a boca n\u00e3o ousava.<\/p>\n<p>Numa carta cerrada ao compadre Dilermando Barbosa, homem de leis e lealdades, o Coronel ditou, com letra tr\u00eamula, os ossos do que viria a ser esc\u00e2ndalo: reconhecer sangue, repartir bens, libertar os cativos e mandar que a fazenda mudasse o bra\u00e7o do cativeiro para o sal\u00e1rio do imigrante. N\u00e3o por virtude que se alardeie, mas por uma mistura de culpa, claridade tardia e desejo de salvar a pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<p>Euriquinho s\u00f3 voltou \u00e0 fazenda porque recebeu carta de Erasmo dizendo para que ele viesse ver o pai doente. Nas \u00faltimas.<\/p>\n<p>Foi a conta. Duas semanas ap\u00f3s a chegada do filho, o Coronel expirou entre sofrimentos atrozes. Pela segunda vez, um raio se abatia sobre o universo daquela gente.<\/p>\n<p>Um golpe de remorso caiu sobre a cabe\u00e7a de Euriquinho. Sentiu que a decep\u00e7\u00e3o causada ao pai apressara sua morte. Erasmo o consolou:<\/p>\n<p>\u2013 Ficamos muito pr\u00f3ximos depois da sua partida. Diversas vezes ele disse \u201ca felicidade de meu filho \u00e9 minha maior preocupa\u00e7\u00e3o\u201d. Era s\u00f3 zelo, Euriquinho. S\u00f3 zelo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas sinto que poderia t\u00ea-lo feito mais orgulhoso de mim.<\/p>\n<p>Era tarde.<\/p>\n<p>Erasmo contou ao agora Senhor o que se passara. Nos \u00faltimos tempos, preocupado com os destinos da lavoura, o Coronel ouvira do escravo que, em alguns lugares do Brasil, j\u00e1 se substitu\u00eda paulatinamente a m\u00e3o-de-obra servil pela assalariada, e que a escravid\u00e3o tinha cada vez mais cr\u00edticos atrozes. Era quest\u00e3o de tempo para ser abolida.<\/p>\n<p>O velho homem, sens\u00edvel \u00e0s ideias do inteligente companheiro, refletia e refletia.<\/p>\n<p>Nos sete dias que sucederam o enterro do Coronel, Eurico ia diariamente ao cemit\u00e9rio, acompanhado de Erasmo, ao lado da igreja matriz da vila. L\u00e1, na beira da sepultura, Eurico pranteava o pai, sempre consolado pelo escravo fiel, antigo \u201cirm\u00e3o de leite\u201d.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sabiam, mas um germe de resolu\u00e7\u00e3o vinha tomando forma na alma do jovem, que agora seria chamado a decidir os destinos da grande fazenda e todo seu povo. Secretamente, ansiava liquidar tudo. Vender as terras de porteira fechada, seus aprestos, os trens de casa, com ou sem o plantel de escravos, o que rendesse melhor pre\u00e7o. Chamaria Erasmo e iriam, juntos, para a cidade. O escravo lhe serviria de pajem. Mas decidira nada dizer, enquanto n\u00e3o come\u00e7asse o processo de sucess\u00e3o. Pois ainda era preciso cumprir o testamento em ju\u00edzo e, depois, come\u00e7ar o invent\u00e1rio. N\u00e3o seria r\u00e1pido, nem f\u00e1cil. Mas compreendera que sua vida n\u00e3o era mais ali.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Cap\u00edtulo III deste folhetim ser\u00e1 publicado na quarta-feira, 24.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, recostado a uma cadeira de vime na saleta, o Coronel lia uma folha vinda pelo Correio Imperial havia algumas horas, e o pequeno Erasmo, \u00e0 roda dele, achou engra\u00e7ada a figura de um homenzinho com uma trouxa sobre o ombro, sustentada numa vareta, e o numeral \u201c100U000\u201d. E leu: es-cra-vo fu-gi-do. 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