{"id":36381,"date":"2015-02-08T10:35:25","date_gmt":"2015-02-08T13:35:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=36381"},"modified":"2015-02-08T18:19:55","modified_gmt":"2015-02-08T21:19:55","slug":"crise-cresce-e-a-ameaca-de-uma-guerra-total-assombra-a-ucrania-e-a-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/crise-cresce-e-a-ameaca-de-uma-guerra-total-assombra-a-ucrania-e-a-europa\/","title":{"rendered":"Crise cresce e amea\u00e7a de guerra total assombra Ucr\u00e2nia e Europa"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s sempre pensamos que a guerra est\u00e1 distante. Ainda assim, a poucas horas de voo, no leste da Europa, h\u00e1 homens e mulheres \u2500 civis \u2500 que est\u00e3o morrendo todos os dias.&#8221;<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o sombria do presidente franc\u00eas, Fran\u00e7ois Hollande, foi ouvida quando ele e a chanceler alem\u00e3, Angela Merkel, se preparavam para uma reuni\u00e3o com Vladimir Putin em Moscou na sexta-feira. Na pauta, o que o pr\u00f3prio Hollande definiu como possibilidade de uma &#8220;guerra total&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase um ano, a fuga do presidente ucraniano Viktor Yanukovich para a R\u00fassia marcava a vit\u00f3ria do movimento pr\u00f3-Uni\u00e3o Europeia na Ucr\u00e2nia e, consequentemente, uma derrota da R\u00fassia, cuja influ\u00eancia pol\u00edtica, hist\u00f3rica, \u00e9tnica e lingu\u00edstica na Ucr\u00e2nia foram ignoradas em prol de um sonho \u2500 o de uma Ucr\u00e2nia integrada aos seus vizinhos do oeste.<\/p>\n<p>Mas o que se seguiu foi uma sinistra escalada militar sem precedentes na Europa desde o final da Guerra Fria, envolvendo duas vis\u00f5es irreconcili\u00e1veis do mundo p\u00f3s-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, alimentada pelos fantasmas nacionalistas ucranianos e russos e pela incapacidade da diplomacia europeia e americana.<\/p>\n<blockquote><p>Com os rebeldes pr\u00f3-R\u00fassia mostrando vigor assustador, tendo conquistado cerca de 500 quil\u00f4metros quadrados de territ\u00f3rio em quatro meses, europeus e EUA agora voltam a se mexer e cogitam solu\u00e7\u00f5es radicalmente diferentes para paralisar o conflito, depois do fracasso imediato das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas a Moscou.<\/p><\/blockquote>\n<p>Resta saber se essas solu\u00e7\u00f5es ser\u00e3o eficientes ou se o mais prov\u00e1vel \u00e9 a &#8220;guerra total&#8221; \u2500 com envolvimento direto de outros pa\u00edses, escalada atrav\u00e9s de outras fronteiras e muito mais sangue.<\/p>\n<p>Richard Sakwa \u00e9 considerado uma das maiores autoridades acad\u00eamicas do mundo em pol\u00edtica russa e p\u00f3s-sovi\u00e9tica, tendo escrito dezenas de ensaios e livros sobre a l\u00f3gica por tr\u00e1s do &#8220;inimigo&#8221; do Ocidente no Kremlin.<\/p>\n<p>Em seu livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado na Gr\u00e3-Bretanha, Frontline Ukraine &#8211; Crisis in the Borderlands (&#8220;Frente de Batalha Ucr\u00e2nia \u2500 Crise na Fronteira&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), Sakwa resume as duas principais causas do conflito que hoje vemos \u2500 a incapacidade do Ocidente de criar uma nova ordem geopol\u00edtica inclusiva para a Federa\u00e7\u00e3o Russa no p\u00f3s-Guerra Fria e a divis\u00e3o pol\u00edtica ucraniana.<\/p>\n<p>A primeira causa \u00e9 associada ao fato de o Ocidente nunca ter sido capaz de superar as institui\u00e7\u00f5es &#8220;vitoriosas&#8221; da Guerra Fria, criando um ambiente inclusivo para Moscou. Pelo contr\u00e1rio, a Otan avan\u00e7ou para o leste, para perto da fronteira russa, no que Moscou sempre considerou uma amea\u00e7a a seu espa\u00e7o de influ\u00eancia e exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A segunda causa tem \u00edntima liga\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia como na\u00e7\u00e3o \u2500 leste e sul russ\u00f3fonos, com forte influ\u00eancia do poderoso vizinho e favor\u00e1vel a um pa\u00eds multilingu\u00edstico, neutro, com boas rela\u00e7\u00f5es com Moscou; oeste querendo ser &#8220;europeu&#8221;, com uma distinta identidade ucraniana, deixando para tr\u00e1s a &#8220;ocupa\u00e7\u00e3o&#8221; russa &#8211; a regi\u00e3o do oeste onde fica a cidade de Lviv s\u00f3 passou a ser sovi\u00e9tica durante a 2\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Se concordarmos com Sakwa, qualquer solu\u00e7\u00e3o para o atual conflito precisa contemplar as duas quest\u00f5es. E s\u00e3o tremendas quest\u00f5es, sem nenhuma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. A primeira envolve uma mudan\u00e7a radical de paradigmas em vigor desde 1991. A segunda, mudan\u00e7as pol\u00edticas profundas na Ucr\u00e2nia que surgiu dos mortos na Pra\u00e7a Maidan, em Kiev, em 2013.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do Ocidente, o que vem acontecendo desde o ano passado \u00e9 uma tentativa de um l\u00edder inescrupuloso, Vladimir Putin, de restaurar a gl\u00f3ria da velha Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. De se impor \u00e0 for\u00e7a, sem di\u00e1logo, retomando pr\u00e1ticas que todos esperavam que tivessem ficado no passado da Europa &#8211; a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia, por exemplo.<\/p>\n<blockquote><p>Para a Putin, por\u00e9m, o Ocidente quer se impor com sua vis\u00e3o de mundo, suas institui\u00e7\u00f5es, suas regras, e n\u00e3o deu a Moscou a real chance de participar, de forma conjunta, da constru\u00e7\u00e3o dessa nova ordem. No p\u00f3s-Guerra Fria, criou-se o que Sakwa chama de &#8220;Paz Fria&#8221; \u2500 com Moscou e o Ocidente mantendo uma l\u00f3gica de competi\u00e7\u00e3o sem, entretanto, reconhecer que ela existisse.<\/p><\/blockquote>\n<p>Evidentemente, a Europa e os Estados Unidos esperavam que, sob o peso das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do \u00faltimo ano, Putin perdesse apoio pol\u00edtico internamente na R\u00fassia. N\u00e3o foi isso que aconteceu, pelo contr\u00e1rio \u2500 pesquisas mostram que o apoio a suas pol\u00edticas continua alto e o ambiente dom\u00e9stico russo \u00e9 de crescente antagonismo com o Ocidente.<\/p>\n<p>Assim, a primeira solu\u00e7\u00e3o que vem sendo cogitada no momento, a americana, \u00e9 a que tem mais potencial para gerar uma &#8220;guerra total&#8221;. Os Estados Unidos cogitam destinar armamento defensivo ao ex\u00e9rcito ucraniano contra os rebeldes pr\u00f3-R\u00fassia.<\/p>\n<p>Ao fazer isso, os EUA estar\u00e3o jogando gasolina na fogueira anti-Ocidental de Putin. Se antes ele s\u00f3 podia sugerir que o Ocidente estava alimentando o conflito para impor sua vontade, nesse caso, ele ter\u00e1 um argumento palp\u00e1vel para, sim, enviar tropas abertamente a Lugansk e Donetsk.<\/p>\n<blockquote><p>A ideia americana foi criticada abertamente por Merkel. Ela disse que n\u00e3o poderia imaginar &#8220;qualquer situa\u00e7\u00e3o em que, se o Ex\u00e9rcito ucraniano receber um melhor equipamento, o presidente Putin fique t\u00e3o impressionado que venha a pensar que vai perder militarmente&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas as declara\u00e7\u00f5es do governo americano d\u00e3o a entender que essa sa\u00edda est\u00e1 sendo considerada seriamente. Uma linguagem estranhamente evocativa da Guerra Fria vem sendo usada pelo vice-presidente, Joe Biden, da mesma forma que vem sendo usada por Putin.<\/p>\n<p>&#8220;Vezes demais o presidente Putin prometeu paz e entregou tanques, soldados e armas&#8221;, disse no s\u00e1bado Biden, que preferiu, no dia anterior, ficar em Bruxelas em vez de se juntar a Merkel e Hollande na viagem a Moscou.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, vamos continuar apoiando a seguran\u00e7a da Ucr\u00e2nia, n\u00e3o para incentivar a guerra, mas para permitir que a Ucr\u00e2nia se defenda.&#8221;<\/p>\n<p>Os detalhes da segunda solu\u00e7\u00e3o, um novo plano de paz europeu, voltar\u00e3o a ser discutidos por Merkel, Hollande, Putin e o l\u00edder ucraniano Petro Poroshenko neste domingo.<\/p>\n<p>Sabe-se, por\u00e9m, que a base da proposta n\u00e3o \u00e9 muito diferente da do acordo fracassado de Minsk, de setembro passado. Inclui a cria\u00e7\u00e3o de uma zona desmilitarizada perto da linha de batalha e comprometimento de cessar-fogo dos dois lados.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se fala \u00e9 integrar a R\u00fassia num processo real de di\u00e1logo pol\u00edtico interno na Ucr\u00e2nia, nem um compromisso europeu com a cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es que levem em conta a vis\u00e3o russa de um mundo multipolar.<\/p>\n<p>Da mesma forma, a simples ideia de a solu\u00e7\u00e3o americana estar sendo aventada, al\u00e9m da exist\u00eancia e amplia\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es, alimenta ainda mais a desconfian\u00e7a dos russos, que s\u00f3 tendem a ficar cada vez mais inflex\u00edveis, obstinados frente \u00e0s imensas dificuldades, como em tantos momentos em sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, a R\u00fassia se beneficiaria muito mais de uma Ucr\u00e2nia que mantenha sua uni\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado no jornal Moscow Times, Josh Cohen, ex-funcion\u00e1rio do Departamento de Estado dos EUA, enumera alguns motivos \u2500 entre eles, o problema do custo de reconstru\u00e7\u00e3o do leste ucraniano, que poderia ser dividido com o Ocidente.<\/p>\n<p>Putin defende a federaliza\u00e7\u00e3o ucraniana, com Donetsk e Lugansk passando a ter poder de veto em qualquer aprofundamento das rela\u00e7\u00f5es de Kiev com o Ocidente, mas na pr\u00e1tica tendo imensa autonomia do governo central &#8211; podendo, inclusive, participar da Uni\u00e3o Euroasi\u00e1tica que a R\u00fassia criou com ex-pa\u00edses sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Mas a elite pol\u00edtica que derrotou os russos em Kiev no ano passado est\u00e1 disposta a voltar atr\u00e1s e dividir o poder?<\/p>\n<p>Dadas as poss\u00edveis consequ\u00eancias de armar o ex\u00e9rcito ucraniano e os imensos problemas com que Obama enfrenta na esfera internacional (o autodenominado &#8216;Estado Isl\u00e2mico&#8217;, por exemplo), o mais prov\u00e1vel \u00e9 que, apesar da ret\u00f3rica, a ideia n\u00e3o se concretize.<\/p>\n<p>A proposta europeia, com a continuidade das negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, \u00e9 a sa\u00edda mais l\u00f3gica, ainda que j\u00e1 venha sendo tentada desde o ano passado sem sucesso. Se a negocia\u00e7\u00e3o continuar, a &#8220;guerra total&#8221; \u00e9 evitada, mas o lento sangramento da Ucr\u00e2nia prossegue at\u00e9 n\u00e3o se sabe quando.<\/p>\n<blockquote><p>O fator crucial, no final das contas, ser\u00e1 o efeito cumulativo das san\u00e7\u00f5es. Neste m\u00eas, o Ocidente pode banir a Federa\u00e7\u00e3o Russa do Swift, o sistema que integra os bancos globalmente. Isso seria um imenso baque para os bancos do pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n<p>O c\u00e1lculo \u00e9 que, em dado momento, o pre\u00e7o pago por Putin para manter seu envolvimento na Ucr\u00e2nia seja t\u00e3o alto que crie rachaduras na elite que o sustenta, potencialmente afastando\u2500o.<\/p>\n<p>Quando isso acontecer\u00e1? Primeiro, n\u00e3o se sabe nem se acontecer\u00e1. E, se acontecer, n\u00e3o se sabe quem o ir\u00e1 suceder. Nada impede que seja mais do mesmo.<\/p>\n<p>*Rafael Gomez \u00e9 mestre em estudos da R\u00fassia e da Europa Oriental pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s sempre pensamos que a guerra est\u00e1 distante. 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