{"id":363814,"date":"2025-09-24T01:15:24","date_gmt":"2025-09-24T04:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363814"},"modified":"2025-09-09T23:19:19","modified_gmt":"2025-09-10T02:19:19","slug":"resolucoes-e-revolucoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/resolucoes-e-revolucoes\/","title":{"rendered":"Resolu\u00e7\u00f5es e revolu\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Passada a missa de s\u00e9timo dia, Eurico mandou chamar o tabeli\u00e3o da vila \u00e0 fazenda. Indagou ao bacharel se tinha conhecimento das disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias do finado.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o posso dizer. Sua excel\u00eancia fez um testamento cerrado, em minhas notas, faz um ano e oito meses. Havia um anterior, revogado na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Eurico espantou-se com a revela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o Coronel, por alguma raz\u00e3o, mudara de ideia sobre o primeiro testamento. O tempo da mudan\u00e7a coincidia com o per\u00edodo ap\u00f3s a \u00faltima briga que tiveram, discuss\u00e3o das graves, em que o filho ofendera grandemente o pai. Soube, no entanto, que o cora\u00e7\u00e3o do Coronel baixara \u00e0 sepultura sem m\u00e1goas, a se confiar nos relatos de Erasmo que, sem d\u00favida, eram verdadeiros.<\/p>\n<p>Pois a ansiedade de Eurico foi crispando at\u00e9 o dia em que, no grande sal\u00e3o azul da fazenda, o testamento serrado foi trazido pelo tabeli\u00e3o e, cerimonialmente, teve os lacres quebrados na frente dele, do padre Manoel Estrela, do Juiz de Paz, Joaquim Furtado de Menezes, e de v\u00e1rios outros moradores da fazenda, livres e escravizados, que o compadre e amigo pr\u00f3ximo do finado, Doutor Dilermando Barbosa, havia feito chamar no escrupuloso atendimento dos pedidos que o pr\u00f3prio Coronel lhe deixara na carta, pouco antes de adoecer.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o azul parecia menor naquela tarde sem vento. O tabeli\u00e3o pousou a pasta de couro sobre a mesa; o Juiz de Paz lustrou os \u00f3culos; o padre ro\u00e7ou os l\u00e1bios no crucifixo; os feitores colaram as costas \u00e0 parede; em volta deles, livres e cativos, com olhos de susto e esperan\u00e7a, enchiam o ar de um zumbido contido.<\/p>\n<p>Iam come\u00e7ar a leitura quando o Doutor Dilermando interveio:<\/p>\n<p>\u2013 Esperem. Nesse grupo de escravas est\u00e1 Sabina Concei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Sou eu, sinh\u00f4 \u2013 respondeu a negra, j\u00e1 sob o peso dos anos e muitos labores, apoiada no parapeito da janela da direita.<\/p>\n<p>\u2013 Vosso filho tem o nome Erasmo de Paula da Concei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Aqui estou \u2013 confirmou o rapaz, que tamb\u00e9m se encontrava no sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Dilermando falou:<\/p>\n<p>\u2013 O Coronel Francisco Antunes, de cuja amizade fui, por muitos anos, objeto, e era rec\u00edproca, instruiu-me, na carta em que mencionei, que o escravo Erasmo, filho de Sabina, deveria sentar-se \u00e0 mesa por ocasi\u00e3o da abertura do testamento.<\/p>\n<p>Uma risada hostil estalou como um chicote pelo recinto. Surpreendente. Era Eurico, que h\u00e1 poucas horas era consolado em suas m\u00e1goas por Erasmo. Perguntou em tom de voz \u00e1spero.<\/p>\n<p>\u2013 Para qu\u00ea esse ritual, senhor tabeli\u00e3o? Colocar um escravo sentado \u00e0 mesa em evento t\u00e3o solene.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vejo nenhuma ilegalidade no cumprimento dessa disposi\u00e7\u00e3o de vontade do senhor Coronel. Esperarei o escravo assentar-se para que prossigamos<\/p>\n<p>Os outros cavalheiros menearam a cabe\u00e7a positivamente, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>At\u00f4nito, Erasmo tomou parte daquela ins\u00f3lita assembleia, na d\u00favida sobre a raz\u00e3o de tudo aquilo, pensando que, talvez, o velho senhor fosse recompens\u00e1-lo pelo apoio e companhia nos tempos de solid\u00e3o e doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O tabeli\u00e3o principiou a leitura:<\/p>\n<p><em>Em nome de Deus, am\u00e9m. No ano da gra\u00e7a de 1877, aos dezesseis de agosto, eu, Coronel Francisco Antunes, filho dos finados Eurico Antunes e Ana Madalena Cavalcante Antunes, natural de Juparan\u00e3, prov\u00edncia do Rio de Janeiro, onde nasci em outo de julho de 1811, no estado civil de vi\u00favo de Zen\u00f3bia de Fran\u00e7a Antunes, no perfeito gozo de minhas faculdades mentais, declaro serem as seguintes minhas disposi\u00e7\u00f5es para depois da minha morte: reconhe\u00e7o irrevogavelmente como meu filho natural a Erasmo de Paula da Concei\u00e7\u00e3o, filho de Sabina, nascido em 1857,<\/em> <em>pedindo-lhe perd\u00e3o por todos os desgostos que possa ter de seu pai ao longo da vida, reconhecendo o muito que me alegrou e proveu cuidados e companhia nos \u00faltimos anos de minha exist\u00eancia. Deixo para ele metade de todos os meus bens dispon\u00edveis, destinando a outra metade para meu filho leg\u00edtimo, Eurico Jos\u00e9 Paulo de Fran\u00e7a Antunes, rogando a ambos que, com fraternidade e entendimento, mantenham a fazenda do Morro Verde, do Cap\u00e3o e da V\u00e1rzea Pequena, todas neste<\/em><br \/>\n<em>munic\u00edpio, sem dispersarem a propriedade e seus aprestos, aplicando nelas a m\u00e3o-de-obra remunerada de imigrantes da Europa, como, com sucesso, j\u00e1 vem sendo feito no interior das Minas Gerais e S\u00e3o Paulo. Declaro, neste ato, que deixo alforriados todos os escravos de minha fazenda, legando, a cada fam\u00edlia, um lote de terras na Fazenda do Barreiro, ou meio lote aos solteiros e vi\u00favos, que ser\u00e1 inalien\u00e1vel por trinta anos e perpetuamente foreiro \u00e0 Santa Casa de Valen\u00e7a por disposi\u00e7\u00e3o da minha vontade. Revogo quaisquer disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias anteriores, por completo. E, nomeando testamenteiro e executor destas minhas disposi\u00e7\u00f5es ao meu amigo leal e compadre Doutor Dilermando Barbosa, acres\u00e7o meu desejo de ser enterrado no cemit\u00e9rio da vila, ao lado da campa onde jaz minha virtuosa esposa, em sepultura caiada e simples, sobre a qual n\u00e3o se erguer\u00e1 monumento ou se colocar\u00e1 inscri\u00e7\u00e3o alguma, esperando que Deus tenha piedade de minha alma.<\/em><\/p>\n<p>Os que entenderam o teor do documento, olharam-se at\u00f4nitos. Sabina levou as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a e caiu de joelhos. Os olhos de Erasmo encheram-se de \u00e1gua antiga; Eurico, de p\u00e9, bateu na mesa:<\/p>\n<p>\u2014 Absurdo! Loucura!<\/p>\n<p>Ficou rubro de raiva e despeito. E vociferou:<\/p>\n<p>\u2013Este documento \u00e9 nulo. Sem d\u00favida fruto de algum enfeiti\u00e7amento ou loucura! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Doutor Dilermando e o Juiz de Paz tentaram acalmar o rapaz que, insolente, afastava os cavalheiros. Ele retirou-se para o gabinete anexo e, nervosamente, come\u00e7ou a procurar um volume na estante, sobre sucess\u00f5es, amaldi\u00e7oando-se por n\u00e3o haver prosseguido nos estudos jur\u00eddicos.<\/p>\n<p>Teve a resolu\u00e7\u00e3o de voltar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel \u00e0 corte para procurar os melhores advogados. Iria requerer a nulidade do testamento, alegando coa\u00e7\u00e3o ou loucura paterna.<\/p>\n<p>Enquanto isso, na sala, os agora homens e mulheres livres davam vivas e alegravam-se, chorando e rindo, rezando pela alma do velho Coronel.<\/p>\n<p>Erasmo chorava tamb\u00e9m, copiosamente, abra\u00e7ado \u00e0 sua m\u00e3e, com um misto de sentimentos, nos quais se inclu\u00eda o receio do que o meio-irm\u00e3o iria fazer.<\/p>\n<p>Lembrou-se da inf\u00e2ncia, das li\u00e7\u00f5es da preceptora germ\u00e2nica, da brandura com que fora tratado pelo Coronel \u00e0 medida em que ia crescendo, e como, nos \u00faltimos tempos, andaram t\u00e3o c\u00famplices e pr\u00f3ximos. N\u00e3o se sentia, em absoluto, um homem de sorte. Afinal, por quase toda sua vida fora escravo, e desde muito jovem tivera essa consci\u00eancia. Mas esperava fazer algo de bom dali para frente, recome\u00e7ar, desenhar um futuro.<\/p>\n<p>Ainda repousava sobre a mesa o documento aberto e lido pelo tabeli\u00e3o, onde, em letra clara e bem feita, fixara-se toda a vontade do finado Coronel.<\/p>\n<p>Do lado de fora, um vento breve varreu o terreiro, como se a fazenda respirasse em longos haustos depois de anos de apneia.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Cap\u00edtulo IV deste folhetim ser\u00e1 publicado na quinta-feira, 25.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passada a missa de s\u00e9timo dia, Eurico mandou chamar o tabeli\u00e3o da vila \u00e0 fazenda. Indagou ao bacharel se tinha conhecimento das disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias do finado. \u2013 N\u00e3o posso dizer. Sua excel\u00eancia fez um testamento cerrado, em minhas notas, faz um ano e oito meses. Havia um anterior, revogado na ocasi\u00e3o. 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