{"id":363822,"date":"2025-09-25T01:15:48","date_gmt":"2025-09-25T04:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363822"},"modified":"2025-09-09T23:25:24","modified_gmt":"2025-09-10T02:25:24","slug":"o-retorno-a-corte-maquinacoes-e-desejos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-retorno-a-corte-maquinacoes-e-desejos\/","title":{"rendered":"O retorno \u00e0 Corte, maquina\u00e7\u00f5es e desejos"},"content":{"rendered":"<p>O trem, de ferro e fuma\u00e7a, levou Eurico de regresso ao cora\u00e7\u00e3o da Corte como quem conduz um gladiador ferido ao anfiteatro. No caminho, os jornais j\u00e1 faziam o servi\u00e7o: manchetes berravam nas bancas da Rua do Ouvidor: Testamento revolucion\u00e1rio no Vale do Parahyba: coronel liberta escravos e reconhece filho natural.<\/p>\n<p>Nos caf\u00e9s apinhados, discutia-se como se fosse batalha campal. De um lado, os senhores de escravos bradavam contra a \u201csubvers\u00e3o jur\u00eddica\u201d que amea\u00e7ava dissolver a ordem social. De outro, os jovens abolicionistas e republicanos, inflamados pelos versos de Castro Alves e pelos artigos de Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio \u2014 viera o ano de 1880 e o aguerrido jornalista ocupara a tribuna do Teatro S\u00e3o Luiz para p\u00f4r em cheque a escravid\u00e3o \u2014 viam no caso Antunes a centelha de uma revolu\u00e7\u00e3o mais ampla: se um coronel podia romper o grilh\u00e3o com a pena, por que n\u00e3o o Imp\u00e9rio inteiro?<\/p>\n<p>Eurico, instalado num sobrado modesto, de janelas sujas, corria aos gabinetes de advogados c\u00e9lebres. Encontrou acolhida no Dr. \u00c1lvaro Sampaio, jurisconsulto de barba cerrada e verbo afiado, conhecido por defender causas dos bar\u00f5es do caf\u00e9. Passavam horas sobre as leis civis, jurisprud\u00eancia e os comp\u00eandios de sucess\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Vede, meu jovem \u2014 dizia o advogado, apontando o artigo com o indicador manchado de tinta \u2014 o testamento cerrado \u00e9 fr\u00e1gil como papel molhado. Basta insinuar que houve coa\u00e7\u00e3o, ou que a febre lhe turvou o ju\u00edzo, e teremos o nulo declarado.<\/p>\n<p>O filho leg\u00edtimo, ressentido e tra\u00eddo, esperava a anula\u00e7\u00e3o. Reverteria a alforria e venderia Sabina para os rinc\u00f5es da prov\u00edncia da Bahia. Haveria de vingar-se, subjugando o irm\u00e3o mais velho. Sorria, j\u00e1 saboreando a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas, nas sombras das tipografias e nos corredores do parlamento, outros advogados se moviam. Joaquim Nabuco, Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Rui Barbosa, nomes que ent\u00e3o se confundiam com o pr\u00f3prio futuro da na\u00e7\u00e3o, enxergavam no documento do Coronel um estandarte.<\/p>\n<p>Nabuco discursava:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se trata de um simples pleito familiar. \u00c9 a luta de dois Brasis: o Brasil das senzalas libertas e o Brasil dos sal\u00f5es que ainda cheiram a mofo e sangue.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s batalha jur\u00eddica nas inst\u00e2ncias ordin\u00e1rias, a causa foi recebida no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a como se fosse quest\u00e3o de Estado. Os ju\u00edzes sentaram-se em sil\u00eancio solene, mas por tr\u00e1s da neutralidade da toga pesavam as press\u00f5es de fazendeiros, diplomatas, bispos, jornalistas. O sal\u00e3o estava cheio: damas de leque, estudantes exaltados, libertos de olhar desconfiado, senhores de bigodes encerados.<\/p>\n<p>O advogado de Eurico foi o primeiro a falar. Ergueu a voz, inflou o peito, e sua orat\u00f3ria caiu sobre o recinto como artilharia de chumbo:<\/p>\n<p>\u2014 Excel\u00eancias, a p\u00e1tria est\u00e1 em perigo. Um testamento forjado \u00e0 sombra da feiti\u00e7aria n\u00e3o pode subverter s\u00e9culos de lei e de ordem. O Coronel, febril e delirante, jamais poderia dispor de seus bens a favor de um escravo, ainda que metade!<\/p>\n<p>A ala conservadora explodiu em palmas e vivas. O juiz presidente advertiu.<\/p>\n<p>\u2014 Sil\u00eancio! Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>Mas quando o pr\u00f3prio Joaquim Nabuco, contratado por Erasmo, tomou a palavra, a atmosfera mudou. Sua voz clara, vibrante, cortou a sala:<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que a lei n\u00e3o admite a igualdade entre os homens. Pois eu vos pergunto: a lei \u00e9 feita para negar a justi\u00e7a, ou para realiz\u00e1-la? O Coronel Francisco Antunes, em sua \u00faltima hora, fez o que muitos n\u00e3o ousaram fazer em vida, reconheceu no filho da escrava o mesmo sangue que corria em suas pr\u00f3prias veias. Negar isso seria negar n\u00e3o s\u00f3 a lei escrita, mas a pr\u00f3pria lei de Deus.<\/p>\n<p>Metade da sala aplaudiu de p\u00e9. A outra metade vaiou com f\u00faria. Debalde eram os esfor\u00e7os do presidente, com o malhete de prata, para conter o tumulto.<\/p>\n<p>Erasmo, sentado no fundo, mantinha os olhos atentos, com destemido olhar que podia ser confundido com altivez, mas era de confian\u00e7a na justi\u00e7a. No fundo, entretanto, temia, porque sabia que n\u00e3o era apenas sua vida que estava em jogo: era o destino de dezenas de fam\u00edlias libertas, e, mais al\u00e9m, o sinal de um Brasil que, caminhando para 1888, oscilava entre a sombra e a claridade.<\/p>\n<p>Quando a sess\u00e3o foi suspensa, a multid\u00e3o explodiu na rua em debates e brados. Eurico saiu cercado de aliados, prometendo n\u00e3o se dobrar. Erasmo, silencioso, atravessou a noite da Corte com passos firmes e cora\u00e7\u00e3o em tormenta, sabendo que os dias seguintes lhe trariam n\u00e3o apenas um veredito, mas o peso de uma hist\u00f3ria que j\u00e1 n\u00e3o era apenas sua, mas da na\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p>O dia da decis\u00e3o amanheceu com sol batendo em chapa sobre o Munic\u00edpio Neutro da Corte. As ruas fervilhavam antes mesmo do toque do sino das nove. Estudantes de capa preta agitavam jornais; abolicionistas carregavam panfletos impressos \u00e0 noite nas tipografias clandestinas; aristocratas cochichavam, divididos entre curiosidade e esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>No Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, o sal\u00e3o estava tomado. Damas perfumadas, jornalistas de caderneta, senhores de fazenda e libertos vindos da prov\u00edncia, todos esperavam, como se fosse missa maior, o pronunciamento final.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Ep\u00edlogo deste folhetim ser\u00e1 publicado na sexta-feira, 26.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trem, de ferro e fuma\u00e7a, levou Eurico de regresso ao cora\u00e7\u00e3o da Corte como quem conduz um gladiador ferido ao anfiteatro. 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