{"id":363828,"date":"2025-09-26T01:15:14","date_gmt":"2025-09-26T04:15:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363828"},"modified":"2025-09-09T23:30:26","modified_gmt":"2025-09-10T02:30:26","slug":"a-esperanca-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-esperanca-final\/","title":{"rendered":"A esperan\u00e7a final"},"content":{"rendered":"<p>O presidente abriu a sess\u00e3o e, com voz grave, ap\u00f3s algumas formalidades de estilo, leu o veredito: deliberando o tribunal, por maioria de votos, negou-se provimento ao recurso e manteve-se a validade do testamento do finado Coronel Francisco Antunes.<\/p>\n<p>Erasmo permanecia como fora declarado: filho natural e herdeiro de metade da fortuna. Pela voz extinta do Coronel, os escravos do Morro Verde e das outras fazendas continuavam livres, com suas terras asseguradas.<\/p>\n<p>Nos dias que se seguiram, vieram da ala conservadora apupos de ultraje. Da ala abolicionista, ergueram-se cam\u00e9lias, incentivou-se a causa.<\/p>\n<p>Erasmo sentia o corpo leve e pesado ao mesmo tempo. Sabia-se liberto em lei, herdeiro em escritura, mas pressentia o peso de carregar nos ombros a esperan\u00e7a de muitos e o \u00f3dio de um s\u00f3, seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Eurico mascou a derrota como fel. N\u00e3o esperou o fim da pol\u00eamica: retirou-se da Corte e n\u00e3o deu mais declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Barreiro se incendiou de tochas e cantos. Fam\u00edlias ajoelharam-se na terra, beijando o p\u00f3 como quem beija a face da m\u00e3e. Mulheres negras erguiam crian\u00e7as ao alto, dizendo: \u201cFicar\u00e3o sempre livres como as estrelas\u201d.<\/p>\n<p>Erasmo retornou \u00e0s terras que lhe cabiam, ampliou a extens\u00e3o cultivada pelos forros, e caminhava entre eles como um igual, abra\u00e7ado a Sabina, j\u00e1 velha, que era como um monumento a lembrar a vontade de vit\u00f3ria sobre s\u00e9culos de dor. O povo era-lhe grato, mas ele n\u00e3o se sentia dono de nada, apenas deposit\u00e1rio de uma gra\u00e7a que lhe ca\u00edra das m\u00e3os de um pai contradit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Poucas semanas depois, em 13 de maio, a Princesa Isabel, regente do Imp\u00e9rio, assinava a Lei \u00c1urea. Os jornais noticiaram com letras de triunfo: \u201cEscravid\u00e3o abolida em todo o Brasil\u201d. O testamento de Francisco Antunes, que j\u00e1 abrira as portas daquelas terras, agora parecia pren\u00fancio de uma liberta\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>Nas terras que couberam ao irm\u00e3o liberto, tudo era vi\u00e7o e riqueza. O trabalho cont\u00ednuo e a moderniza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas da lavoura e da pecu\u00e1ria, a supera\u00e7\u00e3o da monocultura do caf\u00e9, trouxeram bastante resultado. A m\u00e3o de obra de imigrantes, em coopera\u00e7\u00e3o com os ex-escravizados, dera vis\u00edveis resultados.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas outras \u00e1reas que couberam ao revoltado Eurico, o abandono era patente. Sempre prenhe de \u00f3dio e ressentimento, inimigo do trabalho, o outro herdeiro deixara seu quinh\u00e3o \u00e0 m\u00edngua. Limites derribados, terra arruinada, n\u00e3o tardou para que outros tomassem posse. A vida do filho leg\u00edtimo fora a continuidade do esbanjamento da pouca fortuna que conservara, at\u00e9 que, tendo como \u00fanico herdeiro seu meio-irm\u00e3o, acabou morrendo. Tudo retornara, ironicamente, \u00e0s m\u00e3os de Erasmo.<\/p>\n<p>Com sua morte, em 1929, o Barreiro permaneceu como heran\u00e7a coletiva, guardado pelos filhos e netos que mantinham a palavra do Coronel no cora\u00e7\u00e3o: terra indivis\u00edvel, trabalho livre, fraternidade.<\/p>\n<p>Mas o pa\u00eds n\u00e3o se fez fraterno. A Rep\u00fablica Velha, que Erasmo vira nascer, desabou em 1930, e Vargas, com sua ret\u00f3rica trabalhista, prometia justi\u00e7a ao povo, sem nunca tocar no alicerce de pedra da grande propriedade rural.<\/p>\n<p>O nome dos Antunes parecia diluir-se. Eurico j\u00e1 n\u00e3o existia, e sua mem\u00f3ria n\u00e3o passava de lembran\u00e7a amarga em velhos discursos mofados. Mas o exemplo de Erasmo, transmitido de pai para filho, seguiu vivo. A cada 13 de maio, no terreiro do Barreiro, a comunidade acendia fogueiras e entoava c\u00e2nticos que misturavam ladainhas cat\u00f3licas, batidas de tambor e hinos aprendidos com mission\u00e1rios protestantes. Era um ritual de mem\u00f3ria: a lembran\u00e7a de que a liberdade fora escrita com tinta e sangue.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente abriu a sess\u00e3o e, com voz grave, ap\u00f3s algumas formalidades de estilo, leu o veredito: deliberando o tribunal, por maioria de votos, negou-se provimento ao recurso e manteve-se a validade do testamento do finado Coronel Francisco Antunes. Erasmo permanecia como fora declarado: filho natural e herdeiro de metade da fortuna. 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