{"id":363954,"date":"2025-09-17T00:15:21","date_gmt":"2025-09-17T03:15:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=363954"},"modified":"2025-09-11T00:02:52","modified_gmt":"2025-09-11T03:02:52","slug":"o-esfriamento-da-relacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-esfriamento-da-relacao\/","title":{"rendered":"O esfriamento da rela\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos, no entanto, Fl\u00e1vio come\u00e7ou a sentir a rela\u00e7\u00e3o por parte de Ana esfriar. Algumas vezes, inclusive, nas viagens dele, n\u00e3o se encontravam. Sempre havia uma justificativa \u201cplaus\u00edvel\u201d, para ela nem sequer busc\u00e1-lo ou lev\u00e1-lo ao aeroporto quando voltava. Outras, ainda que se vissem, n\u00e3o aceitava seus convites para jantar ou passarem pelo menos uma noite juntos.<\/p>\n<p>Esse afastamento foi ficando cada vez mais frequente, trazendo muita inseguran\u00e7a e ang\u00fastia a ele. Tinha de fazer grande esfor\u00e7o para conseguir se concentrar minimamente no trabalho e, no conv\u00edvio com a fam\u00edlia, tentar disfar\u00e7ar a inquietude e fingir estar tudo bem. At\u00e9 que numa dessas viagens, na qual deveria permanecer por toda a semana, Ana foi busc\u00e1-lo no aeroporto e ele prop\u00f4s que sa\u00edssem para jantar ao menos em uma das noites, pois precisavam conversar para entender o que se passava. Ela disse concordar, mas recusou todos os convites feitos por ele diariamente, alegando os mais variados motivos para isso.<\/p>\n<p>Finalmente no dia do retorno, ela concedeu lev\u00e1-lo ao aeroporto, decidida a contarlhe a raz\u00e3o do distanciamento. Fl\u00e1vio marcou seu voo de volta para o \u00faltimo hor\u00e1rio dispon\u00edvel, para terem bastante tempo e colocar a situa\u00e7\u00e3o \u00e0s claras. Foram a uma confeitaria localizada no pr\u00f3prio aeroporto, onde poderiam pedir um lanche e conversar com total privacidade.<\/p>\n<p>Ana ent\u00e3o contou que h\u00e1 alguns anos teve um namorado, faziam planos para morarem juntos. Por\u00e9m, apesar de ele ter um excelente emprego lhe proporcionando uma situa\u00e7\u00e3o bem estabilizada, surgiu uma oportunidade de fazer doutorado nos Estados Unidos, com uma bolsa fornecida pelo governo de l\u00e1.<\/p>\n<p>O rapaz, ent\u00e3o, demitiu-se do emprego para realizar esse sonho e romperam o relacionamento. Embora n\u00e3o tenha pedido para ele ficar, ela se ressentiu muito, pois o amava e com a uni\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de deixar seu emprego no escrit\u00f3rio de advocacia para dedicar-se integralmente \u00e0 filha, Ana Paula, que tinha 9 anos, \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Abalada com a mudan\u00e7a brusca de planos, aceitou o convite de sua igreja para participar de um grupo de mission\u00e1rios que coincidentemente estava sendo organizado na mesma \u00e9poca, com destino a Paris, para iniciar a implanta\u00e7\u00e3o da doutrina na Europa. No entanto as coisas por l\u00e1 n\u00e3o correram da forma como esperava, tinha de trabalhar muito para poder se sustentar e a ajuda de custo paga pela igreja n\u00e3o era suficiente. Ainda mais, porque tinha de enviar dinheiro para a ex-sogra a fim de sustentar Ana Paula.<\/p>\n<p>Assim, permaneceu por l\u00e1 durante seis meses, tentando arranjar um trabalho melhor, mas n\u00e3o teve \u00eaxito e resolveu retornar ao Brasil. Na volta, seu irm\u00e3o, propriet\u00e1rio de um t\u00e1xi, ofereceu para trabalhar com o carro alternando os per\u00edodos, quando um trabalhasse durante o dia, o outro trabalharia \u00e0 noite. Por essa \u00e9poca a profiss\u00e3o estava bem rent\u00e1vel e logo ela conseguiu juntar dinheiro para adquirir seu pr\u00f3prio carro. O trabalho era intenso, mas os ganhos eram suficientes para manter a filha e a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses, seu antigo namorado retornara \u00e0 cidade. Havia conclu\u00eddo seu doutorado anos atr\u00e1s e conseguiu um emprego num cargo de diretoria em uma grande empresa nos EUA, tendo sido recentemente transferido para a filial brasileira, cuja sede fica em um munic\u00edpio vizinho. Ele a procurou, dizendo que ainda a amava e queria retomar o relacionamento e os planos de se casarem. J\u00e1 h\u00e1 algum tempo estavam novamente juntos. Fl\u00e1vio ficou sem ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 por isso, ent\u00e3o, que se afastou de mim? Por que n\u00e3o me falou antes? Tenho sofrido muito com seu distanciamento.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha de lhe contar e n\u00e3o poderia adiar mais, mas n\u00e3o tinha coragem. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o foi uma decis\u00e3o f\u00e1cil. Tamb\u00e9m gosto muito de voc\u00ea. Mas ambos sabemos, nossa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria futuro.<\/p>\n<p>&#8211; Ana, nunca lhe falei, mas pensava seriamente em ficar com voc\u00ea definitivamente. Ter\u00edamos de esperar alguns anos, at\u00e9 Raquelzinha, minha ca\u00e7ula, completar 18 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria se separar da atual mulher por enquanto, para n\u00e3o repetir o que, de certo modo, considerava um erro cometido com os dois filhos mais velhos, se afastar sendo eles ainda muito pequenos. A condi\u00e7\u00e3o atual seria at\u00e9 pior, pois suas ex-mulheres sempre moraram na mesma cidade. Agora seria diferente.<\/p>\n<p>Possivelmente, Ana n\u00e3o teria disposi\u00e7\u00e3o de se mudar para a cidade dele, seria muito complicado. Al\u00e9m de sua vida ser organizada e seus parentes residirem todos aqui, havia Ana Paula, seus amigos, a escola, toda sua vida tamb\u00e9m. Afinal, ela era adolescente e provavelmente teria dificuldade em se adaptar em um local totalmente novo. Assim, a iniciativa de mudar de munic\u00edpio, teria de ser dele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia que essa era sua inten\u00e7\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o gostaria de ser o piv\u00f4 de sua separa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea sabe, nosso relacionamento, de acordo com minha religi\u00e3o, era reprov\u00e1vel. Isso era muito conflitante para mim. O retorno de Silvio e sua proposta de retomarmos o namoro, foi um est\u00edmulo para me decidir a romper nosso caso.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Silvio \u00e9 o nome dele?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Estava amadurecendo a ideia. Obviamente, iria lhe contar. Proporia ficarmos juntos e esperar minha filha completar 18 anos, mesmo estando casado. Depois me separaria para assumirmos publicamente nossa rela\u00e7\u00e3o. Mas, claro, corria o risco de voc\u00ea n\u00e3o aceitar. Entretanto, n\u00e3o houve tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o aceitaria!<\/p>\n<p>&#8211; Imaginei, mas tentaria lhe convencer, insistiria muito, pois lhe amo demais!<\/p>\n<p>Emendando uma pergunta a outra, Fl\u00e1vio continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 Feliz? Ainda o ama? E por mim, o que sente?<\/p>\n<p>Ana calou-se. Desviou o olhar e uma l\u00e1grima escorreu no seu rosto. Fl\u00e1vio n\u00e3o compreendeu o sentido da l\u00e1grima: se era por ela, por ele ou por ambos. Por\u00e9m, algo ficou muito claro: a decis\u00e3o estava tomada e era irrevers\u00edvel. Nesse mesmo instante o autofalante do aeroporto anunciou a partida do voo.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho de ir. Um \u00faltimo beijo?<\/p>\n<p>Levantaram-se, abra\u00e7aram-se e se beijaram longamente. Um beijo misturado \u00e0s l\u00e1grimas, dessa vez, profusas, desabrochadas pelos olhos de ambos e emanadas por ambos os cora\u00e7\u00f5es. Fl\u00e1vio, tentando se recompor, apanhou sua bagagem e caminhou apressadamente sem olhar para tr\u00e1s em dire\u00e7\u00e3o ao terminal de embarque.<\/p>\n<p>O avi\u00e3o decolou e a mente de Fl\u00e1vio era mais uma vez um turbilh\u00e3o. Dessa vez n\u00e3o adormeceu, tampouco se disp\u00f4s a retomar sua leitura de um novo livro, dessa vez Contos de Machado. Pensava o tempo todo em Ana e como seria se tivessem se conhecido em outro momento da vida. N\u00e3o acreditava em reencarna\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito; sentiu uma ponta de inveja de Ana, pois ela sim, acreditava. E possivelmente, nesse mesmo momento estive pensando nele e alimentando sua esperan\u00e7a de que um dia suas almas se reencontrar\u00e3o. Chorou v\u00e1rias vezes e quase n\u00e3o percebeu o tempo passar.<\/p>\n<p>O comandante avisou a tripula\u00e7\u00e3o sobre os procedimentos de pouso. Fl\u00e1vio olhou pela janela e avistou as luzes da cidade. Desembarcou, parou um instante no caf\u00e9 de sempre, e seguiu para a fila do taxi. Que ironia, sua hist\u00f3ria com Ana, come\u00e7ou e terminou no taxi. Agora iria tomar mais um, mas, com certeza, o condutor n\u00e3o seria uma bela mulher a lhe mexer com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao chegar em casa, a esposa e a filha o esperavam com um lanche \u00e0 mesa. Beijou Beatriz e segurou nos bra\u00e7os Raquelzinha, com um beijo e um abra\u00e7o apertado de saudade. Como sempre fazia, conectou o celular ao aparelho de som e ouviu os Rolling Stones tocando Ruby Tuesday, a mesma m\u00fasica que havia tocado no som ambiente do restaurante japon\u00eas em que jantaram juntos pela primeira vez, quando a dedicou \u00e0 sua mais nova paix\u00e3o, Ana:<\/p>\n<p><em>She would never say where she came from<\/em><br \/>\n<em>And yesterday don&#8217;t matter if it&#8217;s gone<\/em><br \/>\n<em>And while the sun is bright or in the darkest night<\/em><br \/>\n<em>No one knows she comes and goes<\/em><br \/>\n<em>Good by Ruby Suesday&#8230;<\/em>\u00a0(Jagger e Richards)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos, no entanto, Fl\u00e1vio come\u00e7ou a sentir a rela\u00e7\u00e3o por parte de Ana esfriar. Algumas vezes, inclusive, nas viagens dele, n\u00e3o se encontravam. Sempre havia uma justificativa \u201cplaus\u00edvel\u201d, para ela nem sequer busc\u00e1-lo ou lev\u00e1-lo ao aeroporto quando voltava. 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