{"id":364041,"date":"2025-09-16T01:15:32","date_gmt":"2025-09-16T04:15:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364041"},"modified":"2025-09-11T14:33:48","modified_gmt":"2025-09-11T17:33:48","slug":"ao-cair-da-tarde-um-medico-cercado-de-bens-inveja-a-leveza-do-carroceiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ao-cair-da-tarde-um-medico-cercado-de-bens-inveja-a-leveza-do-carroceiro\/","title":{"rendered":"Ao cair da tarde, um m\u00e9dico cercado de bens inveja a leveza do carroceiro"},"content":{"rendered":"<p>\u2014 \u00caia, Estrela, \u00ea\u00ea\u00eaia&#8230;<\/p>\n<p>No vasto jardim, em frente \u00e0 linda casa de campo do Doutor Mendes, Vicente, que acabara de limpar o terreno ap\u00f3s a poda das plantas, virava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda a modesta carro\u00e7a puxada por uma \u00e9gua baia, repleta de galhos e folhas.<\/p>\n<p>Era um s\u00e1bado, fim de tarde, Mendes se aproximava do carroceiro para pagar pelo servi\u00e7o. Entregou-lhe a nota, que Vicente juntou a um rolo de algumas outras retiradas do bolso da cal\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, doutor. Da pr\u00f3xima vez eu venho mais a mi\u00fado, pra n\u00e3o juntar tanto mato no jardim do senhor. As plantas cresceram muito desta vez. E vem chuva a\u00ed.<\/p>\n<p>Mendes observava seu interlocutor. Simples, com o corpo magro, arqueado pelas duras fainas da vida, vestido com uma cal\u00e7a larga e uma camisa amarela de mangas compridas, surrada, a pele do rosto queimada de sol, envelhecida, a ostentar um grande bigode que cobria a boca, barba grisalha, em desalinho. Tinham mais ou menos a mesma idade, haviam crescido na cidade. O pai de Vicente tamb\u00e9m fora trabalhador naquela casa, a qual Mendes, de postura correta, roupa impec\u00e1vel e alva, bigode rigorosamente aparado, herdara.<\/p>\n<p>A vida do Doutor Mendes era, agora, no Rio de Janeiro. A casa se transformara em ref\u00fagio para os finais de semana ou veraneios, em que conseguia, com a fam\u00edlia completada por esposa e dois filhos, subir a serra a bordo de seu grande autom\u00f3vel de luxo.<\/p>\n<p>Vicente, de vida humilde, morava numa simples casinha, a alguns quil\u00f4metros dali, sozinho, e usava a carro\u00e7a e sua \u00e9gua Estrela para ajudar-lhe na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os nas muitas casas de veraneio da regi\u00e3o, podando \u00e1rvores, cuidando de jardins, fazendo pequenos reparos.<\/p>\n<p>Passou-se pela cabe\u00e7a do dono da casa um certo enfado. Tanto trabalho, tanta necessidade de manter o lugar, cujos reparos, podas e cuidados jamais bastavam. E n\u00e3o era s\u00f3 isso. Havia tamb\u00e9m a resid\u00eancia no Rio, um apartamento enorme em Botafogo, com quatro quartos e duas empregadas, o consult\u00f3rio em que exercia a cl\u00ednica m\u00e9dica, no centro da cidade, com a secret\u00e1ria, um reino do pequeno burgu\u00eas, e a mulher, recentemente, lhe revelara uma vontade.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, como ser\u00edamos felizes se tiv\u00e9ssemos uma casinha na praia. Algo para os meninos aproveitarem, estarmos em contato com o mar, o sol&#8230;<\/p>\n<p>Ora essa, e a casa da serra j\u00e1 n\u00e3o bastava para isso? Era o caso de construir uma piscina, aumentar-lhe o uso, estimular que os garotos ficassem mais soltos. Mas refletiu e ocorreu-lhe que talvez fosse uma p\u00e9ssima op\u00e7\u00e3o. Piscina. Um gasto a mais, nova coisa para cuidar. Se a deixassem cheia, e n\u00e3o frequentassem a casa com a regularidade necess\u00e1ria, a \u00e1gua ficaria esverdeada, insalubre&#8230; Haveria de ser mais um trabalho para o velho Vicente. O homem cuidava tamb\u00e9m de piscinas?<\/p>\n<p>Mas, e se lhe entrasse mesmo na cabe\u00e7a a cisma de terem outra casa, agora na praia? Os gastos que cresceriam&#8230;<\/p>\n<p>Era apenas Mendes a prover tudo. E tudo custava muito, gastava-se muito.<\/p>\n<p>A ideia da casa de praia era p\u00e9ssima, um absurdo. Demoveria a esposa da maquina\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula se viesse novamente com tal conversa. Um im\u00f3vel a mais era imposs\u00edvel. Racionalmente, poder-se-ia escolher o que faria a fam\u00edlia mais feliz, vender a casa de veraneio de Petr\u00f3polis e adquirir a do litoral \u2013 nos \u00faltimos tempos os garotos n\u00e3o gostavam tanto mais de subir a serra a bordo do autom\u00f3vel de luxo para passar os finais de semana sempre iguais \u2013 mas era apegado ao antigo im\u00f3vel, onde passara a inf\u00e2ncia, onde seus pais moraram at\u00e9 o fim. A venda n\u00e3o, isso estava fora de cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrou a imaginar como seria a vida de Vicente. Lembrou-se do instante em que, pagando-lhe mais uma capina feita, pren\u00fancio de v\u00e1rias outras ainda por fazer, o homenzinho colocara a nota junto a outras, tiradas do bolso, reunidas num rolinho bem formado. Seria aquela toda a fortuna do carroceiro? Provavelmente. E a levava sempre consigo porque decerto n\u00e3o tinha um lugar seguro no casebre humilde, \u00e0 beira da ravina isolada, para guard\u00e1-la de visitantes inoportunos. Uma fortuna que cabia no bolso da cal\u00e7a larga.<\/p>\n<p>Para Mendes, cuja fortuna fora, em parte herdada, e noutra parte conquistada com o trabalho intenso, um bolso, dois bolsos, eram insuficientes. O banco era o lugar certo para guardar seu dinheiro. Um dinheiro que estava em c\u00e9dulas de cr\u00e9dito, em a\u00e7\u00f5es ao portador, em fundos cambiais. Mas um dinheiro que nunca vira, reunido, em suas m\u00e3os, apesar de estar cercado de coisas valiosas, de obriga\u00e7\u00f5es car\u00edssimas, de compromissos inadi\u00e1veis que lhe custavam labor e vida, muita vida.<\/p>\n<p>Desejou ser menos escravo das coisas e ser livre como o carroceiro. O pobre Vicente passaria necessidades? Teria ele vontade de possuir coisas como o Doutor Mendes? Sentir-se-ia escravo delas se as tivesse em quantidade, ou as aproveitaria intensa e livremente como sonhava fazer o m\u00e9dico, se lhe sobrasse mais tempo?<\/p>\n<p>A dura realidade era que nem mesmo na casa enorme, cercada de belo jardim, agora bem arrumado, vinha se sentindo pleno e feliz. Visitava-a por h\u00e1bito ou por obriga\u00e7\u00e3o. Tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que, se n\u00e3o estivesse ali, usando-a com a fam\u00edlia, n\u00e3o valeria a pena gastar tantos recursos \u2013 e tempo \u2013 na sua cara e dif\u00edcil manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fora melhor ter herdado a casa, pois o peso de n\u00e3o a haver comprado era mais leve. O encargo viera da sorte e da fortuna de seus maiores, n\u00e3o da aspira\u00e7\u00e3o individual do homem adulto e pr\u00f3spero, cujo del\u00edrio \u00e9, \u00e0s vezes, mais grandioso, e se materializa na forma de um s\u00edtio, ou mesmo de uma fazendinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a\u00ed j\u00e1 seria demais.<\/p>\n<p>Mendes via, ainda, o carroceiro conduzir sua carro\u00e7a, puxada pela \u00e9gua Estrela, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda da propriedade. Sobre eles, o c\u00e9u j\u00e1 armava o cen\u00e1rio da noite fria, pr\u00f3xima. Sol e lua se mostravam juntos no firmamento.<\/p>\n<p>Os filhos, entediados, brigavam por algo na grande varanda de piso vermelho e encerado.<\/p>\n<p>A mulher vinha em sua dire\u00e7\u00e3o, com uma revista nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Veja, querido, este an\u00fancio de secador de cabelos. Preciso tanto de um secador de cabelos&#8230; Pena que nesta ro\u00e7a aqui n\u00e3o tem sequer um magazine.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel de luxo permanecia l\u00e1, sobre o gramado, estacionado. Era reluzente, lindo, enorme.<\/p>\n<p>Vicente seguia pela estradinha, alguns peda\u00e7os de tronco e folhas iam caindo pelo caminho, e ele dizia:<\/p>\n<p>\u2014 \u00caia, Estrela, \u00ea\u00ea\u00eaia&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 \u00caia, Estrela, \u00ea\u00ea\u00eaia&#8230; No vasto jardim, em frente \u00e0 linda casa de campo do Doutor Mendes, Vicente, que acabara de limpar o terreno ap\u00f3s a poda das plantas, virava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00edda a modesta carro\u00e7a puxada por uma \u00e9gua baia, repleta de galhos e folhas. 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