{"id":364156,"date":"2025-09-17T01:15:41","date_gmt":"2025-09-17T04:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364156"},"modified":"2025-09-18T11:23:33","modified_gmt":"2025-09-18T14:23:33","slug":"o-modernismo-mineiro-em-tres-retratos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-modernismo-mineiro-em-tres-retratos\/","title":{"rendered":"O modernismo mineiro em tr\u00eas retratos"},"content":{"rendered":"<p><strong>SANAT\u00d3RIO<\/strong><\/p>\n<p>Logo, quando os corredores ficarem vazios,<br \/>\ne todo o Sanat\u00f3rio adormecer,<br \/>\na febre dos t\u00edsicos entrar\u00e1 no meu quarto,<br \/>\ntrazida de manso pela m\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o minha testa come\u00e7ar\u00e1 a arder,<br \/>\ne todo meu corpo magro sofrer\u00e1.<br \/>\nE eu rolarei ansiado no leito<br \/>\ncom o peito opresso e de garganta seca.<\/p>\n<p>E l\u00e1 fora haver\u00e1 um vento mau<br \/>\ne as \u00e1rvores sacudidas dar\u00e3o medo.<br \/>\nE os meus olhos brilhar\u00e3o, procurando<br \/>\na Morte que quer entrar no meu quarto.<\/p>\n<p>Os meus olhos brilhar\u00e3o como os de uma fera<br \/>\nque defende a entrada da sua morada.<\/p>\n<p><strong>SER\u00c3O DO MENINO POBRE<\/strong><\/p>\n<p>Na sala da casa da ro\u00e7a<br \/>\npapai lia os jornais atrasados.<br \/>\nMam\u00e3e cerzia minhas meias rasgadas.<br \/>\nA luz frouxa do lampi\u00e3o iluminava a mesa<br \/>\ne deixava nas paredes um bordado de sombras.<br \/>\nEu ficava a ler um livro de hist\u00f3rias imposs\u00edveis<br \/>\n\u2014 a vista estava cansada, a luz era fraca,<br \/>\ne passava de leve a m\u00e3o pelos meus cabelos,<br \/>\nnuma car\u00edcia muda e silenciosa.<\/p>\n<p>Quando mam\u00e3e morreu<br \/>\no ser\u00e3o ficou triste, a sala vazia.<br \/>\nPapai j\u00e1 n\u00e3o li os jornais<br \/>\ne ficava a olhar-nos silencioso.<br \/>\nA luz do lampi\u00e3o ficou mais fraca<br \/>\ne havia muito mais sombra pelas paredes&#8230;<br \/>\nE, dentro em n\u00f3s, uma sombra infinitamente maior.<\/p>\n<p><strong>A FAZENDA QUE N\u00c3O D\u00c1 MAIS CAF\u00c9<\/strong><\/p>\n<p>Para Em\u00edlio Moura<\/p>\n<p>Cromos de folhinhas velhas enfeitam as paredes<br \/>\nquadros piedosos de santos, retratos descorados de homens barbudos<br \/>\nde mulheres com roupas estranhas.<br \/>\nMob\u00edlia antiga e pesada, cadeiras mancas<br \/>\ncom a palhinha furada.<br \/>\nTeias de aranha, p\u00f3 nas paredes<br \/>\ncheias de figuras e datas a carv\u00e3o e a l\u00e1pis.<br \/>\nUm cachorro dorme um sono tranquilo na sala de jantar.<br \/>\nParece que h\u00e1 algu\u00e9m muito doente<br \/>\ndentro da velha casa desanimada.<br \/>\nCrian\u00e7as sujas brincam sem alegria<br \/>\nno terreiro cheio de mato.<br \/>\nAr pesado.<\/p>\n<p>Entretanto a fazenda j\u00e1 foi alegre e catita<br \/>\nmas come\u00e7ou a ficar assim desde que a terra cansou<br \/>\ne os cafeeiros envelheceram.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Asc\u00e2nio Lopes Quatorzevoltas (1906-1929), foi um poeta e escritor brasileiro, reconhecido como uma das figuras centrais do modernismo em Minas Gerais.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANAT\u00d3RIO Logo, quando os corredores ficarem vazios, e todo o Sanat\u00f3rio adormecer, a febre dos t\u00edsicos entrar\u00e1 no meu quarto, trazida de manso pela m\u00e3o da noite. 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