{"id":364457,"date":"2025-09-16T00:00:31","date_gmt":"2025-09-16T03:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364457"},"modified":"2025-09-16T11:31:17","modified_gmt":"2025-09-16T14:31:17","slug":"cultura-popular-ocupa-mimo-festival-em-sua-volta-a-olinda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cultura-popular-ocupa-mimo-festival-em-sua-volta-a-olinda\/","title":{"rendered":"Cultura popular ocupa MIMO Festival em sua volta a Olinda"},"content":{"rendered":"<p>Os versos do cordel, a percuss\u00e3o do maracatu e os movimentos fren\u00e9ticos do frevo levaram a cultura popular de Pernambuco aos palcos principais do MIMO Festival, que foi realizado em Olinda de sexta-feira (12) a domingo (14), ap\u00f3s sete anos de temporadas em outras cidades do pa\u00eds e do mundo.<\/p>\n<p>O encerramento do evento coincidiu com o Dia Nacional do Frevo, celebrado em 14 de setembro, em homenagem ao nascimento do jornalista Oswaldo da Silva Almeida. A ele \u00e9 atribu\u00edda a cria\u00e7\u00e3o do nome \u201cfrevo\u201d, em rever\u00eancia \u00e0 \u201cfervura\u201d que o ritmo provoca.<\/p>\n<p>O frevo foi reconhecido em 2012 como patrim\u00f4nio imaterial da humanidade pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco).<\/p>\n<p>O Gr\u00eamio Musical Henrique Dias, primeira escola profissionalizante de m\u00fasicos de Olinda sem fins lucrativos, fundada h\u00e1 71 anos, tocou com sua orquestra no palco principal do MIMO, na Pra\u00e7a do Carmo.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o foi comandada pelo maestro L\u00facio Henrique Vieira da Silva, que \u00e9 diretor musical, professor de saxofone e tamb\u00e9m m\u00fasico formado pela escola, onde entrou com 10 anos, em 1988, e de onde nunca mais saiu: &#8220;S\u00f3 pretendo sair quando houver meu cortejo, e ao som do frevo\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma honra poder mostrar a nossa identidade em um festival com essa grandeza. O frevo olindense \u00e9 diferente do que \u00e9 tocado em qualquer outro lugar do mundo\u201d, contou Maestro L\u00facio, como \u00e9 conhecido.<\/p>\n<p>\u201cO frevo \u00e9 forte na \u00e9poca de momo, em janeiro e fevereiro. Mas a ideia da gente \u00e9 que ele seja forte o ano todo, porque ele \u00e9 uma m\u00fasica instrumental como qualquer outra.\u201d<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o incluiu cl\u00e1ssicos da m\u00fasica popular brasileira, como Festa no Interior e T\u00e1xi Lunar, e grandes sucessos que ajudaram a divulgar o ritmo do frevo no pa\u00eds e no mundo, como Fogos sem Fuzil e Vassourinhas.<\/p>\n<p>Para o maestro, apesar de ser amplamente conhecido pelos brasileiros, o repert\u00f3rio do frevo precisa de renova\u00e7\u00e3o e de apoio do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cAqui na cidade [Olinda], eu posso dizer que, no s\u00e9culo passado, houve mais divulga\u00e7\u00e3o [do frevo], mais grava\u00e7\u00f5es. As r\u00e1dios faziam grava\u00e7\u00f5es nos meses de junho ou maio, e eram divulgadas em janeiro para, no decorrer do ano, estar tocando. Hoje, n\u00e3o existe mais isso. A gente corre com os frevos do s\u00e9culo passado nas ruas\u201d, aponta ele.<\/p>\n<p>\u201cQue tenham mais composi\u00e7\u00f5es novas, que tenham mais lan\u00e7amentos e artistas novos. \u00c9 preciso um incentivo cultural do governo, vamos supor, com um concurso para compositores. Isso vai enriquecer a cultura, trazer novos pensamentos, novas ideias.\u201d<\/p>\n<p>Desde 1954, mais de 2 mil alunos j\u00e1 passaram pelo gr\u00eamio, onde hoje eles tamb\u00e9m recebem aulas de disciplinas regulares da grade escolar, como matem\u00e1tica, portugu\u00eas e hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O diretor musical conta que n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil atrair jovens que queiram aprender frevo: \u201cEles s\u00e3o apaixonados. Isso \u00e9 da cultura da gente mesmo. Eu acho que se o poder p\u00fablico olhasse com bons olhos para nossas ideias, [o frevo] seria muito mais relevante para nossa cultura\u201d.<\/p>\n<p>O Dia Nacional do Frevo tamb\u00e9m n\u00e3o passou despercebido pelo bandolinista Hamilton de Holanda, que se apresentou em trio com o pianista Salom\u00e3o Soares e o baterista Thiago Big Rabello. Carioca e filho de pernambucanos, Hamilton de Holanda incluiu o frevo em sua apresenta\u00e7\u00e3o para &#8220;homenagear seus ancestrais&#8221;, destacou.<\/p>\n<p>Outro m\u00fasico que se declarou a Pernambuco foi o cantor e compositor Edu Lobo, que fez o show de abertura do festival, na sexta-feira (12). Lobo tamb\u00e9m \u00e9 carioca e filho de pernambucanos e brincou que \u201cnem todo mundo tem essa sorte\u201d ao reconhecer a import\u00e2ncia da heran\u00e7a cultural pernambucana que recebeu em casa.<\/p>\n<p><strong>Cordel e poesia<\/strong><br \/>\nNascido em uma fam\u00edlia de m\u00fasicos em Arcoverde, no sert\u00e3o pernambucano, Jos\u00e9 Paes de Lira Filho, o Lirinha, tamb\u00e9m dedicou sua passagem pelo MIMO Festival para exaltar a cultura de seu estado e de todo o Nordeste, por meio da declama\u00e7\u00e3o de poesias e a teatralidade que marcam o trabalho do grupo Cordel do Fogo Encantado desde a sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O encerramento da primeira noite do festival marcou o retorno da forma\u00e7\u00e3o original do grupo, com voz e poesia de Lirinha acompanhadas por Clayton Barros (viol\u00e3o), Emerson Calado (bateria), Rafa Almeida e Nego Henrique (tambores), no espet\u00e1culo Palavras para Colorir o C\u00e9u.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao show, Lirinha participou de um bate-papo com o p\u00fablico, mediado pela jornalista e pesquisadora Chris Fuscaldo, em que ressaltou a originalidade e a influ\u00eancia ind\u00edgena na poesia, no cordel, no repente e na forma de declamar poemas que \u00e9 tradicional na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPor que dizem que \u00e9 algo que vem do trovadorismo medieval? Por que vem da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica? Isso tamb\u00e9m chegou a outros lugares, mas por que aqui se desenvolveu dessa maneira espec\u00edfica? Hoje, desconfiamos que o grande atravessamento, a grande quest\u00e3o, \u00e9 uma filosofia muito pr\u00f3xima do perspectivismo [de povos ind\u00edgenas]\u201d, questionou ele.<\/p>\n<p>Para o compositor, escritor e poeta, o cordel nunca viveu um momento de tanta visibilidade quanto o atual. \u201cE para onde ele foi? Foi para a internet\u201d, complementou Lirinha.<\/p>\n<p>Segundo ele, o conhecimento acad\u00eamico e o entendimento do cordel enquanto literatura est\u00e3o avan\u00e7ando por parte de uma nova gera\u00e7\u00e3o de pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cCom a for\u00e7a que a literatura de cordel ganhou, os poetas do repente passaram a dizer que fazem cordel. Tem muita coisa fr\u00e1gil, e \u00e9 tudo muito recente. S\u00e3o as novas gera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o, de fato, estudando isso. Isso est\u00e1 acontecendo agora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEssa literatura \u00e9 testemunho, \u00e9 prazer e \u00e9 den\u00fancia\u201d, concluiu o poeta.<\/p>\n<p><strong>Maracatu na rua <\/strong><br \/>\nA festa da cultura popular durante o festival n\u00e3o se restringiu aos palcos e ocupou tamb\u00e9m as ruas. Na tarde de s\u00e1bado (13), segundo dia do festival, cinco na\u00e7\u00f5es de maracatu percorreram as ruas de Olinda e se reuniram diante do palco principal do festival: Maracatu Na\u00e7\u00e3o Camale\u00e3o, Maracatu Estrela de Olinda, Maracatu Na\u00e7\u00e3o Pernambuco, Maracatu Na\u00e7\u00e3o Luanda e Maracatu Sol Brilhante.<\/p>\n<p>Reconhecido como patrim\u00f4nio cultural imaterial do Brasil em dezembro de 2014, o Maracatu Na\u00e7\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o popular e carnavalesca da regi\u00e3o metropolitana do Recife, em que um cortejo real desfila pelas ruas, acompanhado de um conjunto musical percussivo.<\/p>\n<p>Composto majoritariamente por negros, esses grupos resgatam as antigas coroa\u00e7\u00f5es de reis e rainhas do antigo Congo africano. Neste ano, o governo oficializou candidatura junto \u00e0 Unesco para que a manifesta\u00e7\u00e3o cultural tamb\u00e9m seja reconhecida como Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial da Humanidade.<\/p>\n<p>Produtora cultural do Maracatu Na\u00e7\u00e3o Camale\u00e3o e representante da Associa\u00e7\u00e3o de Maracatus de Olinda (AMO), Katia Luz conta que a organiza\u00e7\u00e3o se mobilizou para estar presente no retorno do MIMO Festival \u00e0 Olinda, pela oportunidade de fortalecer a relev\u00e2ncia e a visibilidade do maracatu.<\/p>\n<p>\u201cPra mim, foi um momento estupendo de felicidade\u201d, resumiu.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas precisam, o poder p\u00fablico precisa entender que, onde tiver cultura, projetos e festivais, a cultura popular tem que estar presente, n\u00e3o pode ser deixada de lado. Quando disseram \u2018o Mimo vai voltar\u2019, eu vi que a gente tinha que estar presente&#8221;.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o fez parte da prepara\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es de maracatu para o Dia da Consci\u00eancia Negra, em 20 de novembro, quando a AMO pretende fazer uma grande a\u00e7\u00e3o com 15 na\u00e7\u00f5es de maracatu em Olinda, adiantou Katia Luz.<\/p>\n<p>\u201cAgora que o presidente Lula decretou que \u00e9 feriado nacional [o Dia da Consci\u00eancia Negra] e sancionou o Dia Nacional do Maracatu [1\u00b0 de agosto], a gente n\u00e3o pode deixar de fazer isso. O Maracatu \u00e9 um bem imaterial, e a gente precisa ter esse entendimento. A gente vai estar sempre na luta\u201d, disse Katia.<\/p>\n<p>Para a idealizadora e diretora art\u00edstica do MIMO Festival, Lu Ara\u00fajo, a cultura pernambucana sempre deu contribui\u00e7\u00f5es e esteve presente no MIMO, tanto nas escolhas curatoriais quanto na programa\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>\u201cTalvez faltasse, um pouco mais, trazer para o palco essas tradi\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o fortes, que s\u00e3o valentes, que resistem\u201d, disse a diretora do festival.<\/p>\n<p>Ela avaliou como positivo o retorno do p\u00fablico a essa presen\u00e7a. \u201cO p\u00fablico ama, porque o povo pernambucano \u00e9 muito orgulhoso dessa cultura. Eu falo que, se eu aprendi a ser orgulhosa de mim, do meu festival, eu aprendi com eles. Eles prestigiam, eles se identificam e acho que eles est\u00e3o muito felizes tamb\u00e9m de ver isso acontecer no Mimo, num palco em que eles sempre veem grandes nomes\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os versos do cordel, a percuss\u00e3o do maracatu e os movimentos fren\u00e9ticos do frevo levaram a cultura popular de Pernambuco aos palcos principais do MIMO Festival, que foi realizado em Olinda de sexta-feira (12) a domingo (14), ap\u00f3s sete anos de temporadas em outras cidades do pa\u00eds e do mundo. 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