{"id":364654,"date":"2025-09-20T01:15:33","date_gmt":"2025-09-20T04:15:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364654"},"modified":"2025-09-18T12:07:54","modified_gmt":"2025-09-18T15:07:54","slug":"o-diario-intimo-de-um-escritor-que-descobre-na-rua-uma-inspiracao-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-diario-intimo-de-um-escritor-que-descobre-na-rua-uma-inspiracao-invisivel\/","title":{"rendered":"O di\u00e1rio \u00edntimo de um escritor que descobre na rua uma inspira\u00e7\u00e3o invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Dia 7 de maio, quarta-feira<\/p>\n<p>Ao cair da tarde, quando as sombras se esticam sobre as fachadas envelhecidas desses pr\u00e9dios, olho a rua pela minha janela, sinto uma necessidade imensa de sair. Daqui onde estou, vejo o antigo col\u00e9gio em frente. Na entrada, sobre uma marquise, est\u00e1 a imagem de santo em tamanho natural. Usa um capuz, segura um cajado na m\u00e3o, \u00e9 feita de metal, est\u00e1 escurecida. Acho-a soturna, e n\u00e3o gosto de olhar para ela quando estou na rua, l\u00e1 embaixo. Daqui n\u00e3o me importo. A janela de minha sala fica bem acima da copa das \u00e1rvores, sou observador privilegiado da vida que se passa na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Vejo uma mo\u00e7a com seu cachorro. Ela passa quase todo dia, sempre no mesmo hor\u00e1rio. Hoje est\u00e1 de blusa bege, short azul, cabelos pretos, presos atr\u00e1s da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O homem que trabalha na oficina mec\u00e2nica da esquina se afasta do estabelecimento e vem falar ao telefone quase em frente \u00e0 minha portaria. Fala alto, gesticula, e vai fumando um cigarro atr\u00e1s do outro, sem parar. Parece com raiva.<\/p>\n<p>Um gari varre as folhas que est\u00e3o caindo das \u00e1rvores em maior quantidade nesta \u00e9poca.<\/p>\n<p>Lembro de Amanda, que conheci no inverno do ano passado. Eu a amei, mas nosso namoro n\u00e3o chegou ao inverno seguinte.<\/p>\n<p>Dia 9 de maio, sexta-feira<\/p>\n<p>Ontem eu sentia necessidade de sair. Mas n\u00e3o tenho pretexto para isso. A escrivaninha, cheia de pap\u00e9is amarfanhados e p\u00e1ginas em branco, sufoca-me como uma pris\u00e3o. A luz \u00e9 t\u00eanue, amarela, sinto frio. A caneta repousa como um objeto in\u00fatil. O cursor do mouse, piscando na tela do computador, parece zombar de mim com seu ritmo impiedoso. Escrever tem se tornado imposs\u00edvel. Cada frase nasce morta, cada ideia, ao surgir, desmancha-se como fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>O homem da oficina est\u00e1 l\u00e1, com uma perna esticada e o p\u00e9 da outra perna apoiado sobre o muro do col\u00e9gio, fumando. Um motoqueiro para perto dele, pede para que lhe d\u00ea fogo, e tamb\u00e9m fica ali, fumando um cigarro. \u00c9 chegada a hora da mo\u00e7a que passeia com o cachorro, mas parece que hoje ela n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Dia 9 de maio, 17h39 \u2013 a mo\u00e7a aparece com o cachorro. Est\u00e1 de vestido hoje, estampado. A estampa \u00e9 pequena, eu n\u00e3o consigo enxergar os detalhes aqui de cima.<\/p>\n<p>Dia 12 de maio, segunda-feira<\/p>\n<p>Eu era um jovem escritor com fome de palavras, mas as palavras, ingratas, n\u00e3o vinham. Ficavam escondidas atr\u00e1s de alguma porta fechada em minha mente, e eu n\u00e3o encontrava a chave.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o cheiro da rua come\u00e7ou a me salvar, ou a me perder, nunca soube ao certo. Havia nele algo de prom\u00edscuo, mistura de lixo e de flor noturna, de gasolina e de suor humano, de mofo e umidade.<\/p>\n<p>Seria da copa das \u00e1rvores? Da madeira velha da moldura da janela desse apartamento? Esse cheiro que vem da rua me prende mais do que qualquer par\u00e1grafo que eu pudesse inventar. Senti-o, inadvertidamente, quando chegara \u00e0 janela para respirar a longos haustos e sentir o ar fresco renovar o meu interior.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a passa com o seu cachorro. Ele est\u00e1 meio claudicante. Ter\u00e1 se machucado? Ela resolve atravessar a rua, ele hesita. Ela o pega no colo, trata-o com carinho e vai.<\/p>\n<p>Dia 15 de maio, quinta-feira, 21h<\/p>\n<p>Hoje estou atrasado em minhas notas. Resolvi sair esta noite, e passarei a sair todas as noites. Vou criar um ritual. Um ritual secreto. O bairro me recebe com o ru\u00eddo distante de televisores e o ladrar de um c\u00e3o esquecido em algum apartamento. O pisca-pisca silencioso da entrada de um edif\u00edcio quando o port\u00e3o da garagem se abre, o zunido da motocicleta do entregador de comida.<\/p>\n<p>Eu caminho lentamente, respirando fundo, como se cada mol\u00e9cula de ar fosse mat\u00e9ria-prima de um romance grandioso, e sinto uma integra\u00e7\u00e3o com tudo \u00e0 minha volta, dif\u00edcil de compreender. Amo todas as pessoas. Especialmente a menina que passeia com o cachorro. Hoje ela n\u00e3o veio, ou eu n\u00e3o a vi.<\/p>\n<p>Dia 20 de maio, ter\u00e7a-feira<\/p>\n<p>Andava pela cal\u00e7ada, no quarteir\u00e3o do meu pr\u00e9dio. Pisava as pedras portuguesas com passos vadios, desviando de buracos, um monte de folhas \u00famidas e algum dejeto de cachorro \u2013 que cretino deixa a sujeira de seus bichos displicentemente pela rua? Certamente n\u00e3o \u00e9 a mo\u00e7a que passeia com o cachorro. Ela \u00e9 daqueles que levam consigo um saquinho de supermercado e catam o coc\u00f4 do cachorro.<\/p>\n<p>Enquanto caminhava para lugar nenhum, aquele cheiro penetrava por minhas narinas, chegava ao meu c\u00e9rebro e despertava algo assim como uma sensa\u00e7\u00e3o de repulsa e acolhimento, ao mesmo tempo, como se me chamasse a um despertar para nenhum caminho, ou me lembrasse de coisa esquecida, l\u00e1 no fundo da alma, e eu n\u00e3o sabia o que era. Eu odiava e era envolvido por aquele cheiro, e quase me lamentava porque h\u00e1 semanas n\u00e3o chovia. A chuva deixaria o petricor, lavaria as ruas e amenizaria aquele cheiro opressivo, denso, indesejado, abjeto que me fascinava e me fazia consciente de minha posi\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Como ser\u00e1 o cheiro da mo\u00e7a que passeia com o cachorro?<\/p>\n<p>Dia 25 de maio, domingo<\/p>\n<p>Nas cal\u00e7adas, as hist\u00f3rias surgiam como labaredas. Eu via, no vulto de uma mulher que fechava as janelas, a hero\u00edna de uma trama tr\u00e1gica; no b\u00eabado que ria sozinho na esquina, um fil\u00f3sofo maldito; no garoto de bicicleta, o pren\u00fancio de uma aventura.<\/p>\n<p>Minha mente se incendiava de cenas, di\u00e1logos, cap\u00edtulos inteiros. Era como se eu tivesse, dentro da cabe\u00e7a, um romance j\u00e1 pronto, apenas aguardando a transcri\u00e7\u00e3o. Eu quase corria para casa, ansioso por despejar tudo no papel.<\/p>\n<p>Onde andar\u00e3o a mo\u00e7a e seu cachorro?<\/p>\n<p>Voltei para casa, eram quase 23h. Ao me sentar diante da mesa, o milagre se desfez. N\u00e3o conseguia digitar, fui escrever \u00e0 m\u00e3o. A caneta parecia pesada demais, as frases se enrolavam umas nas outras, e o frescor da inspira\u00e7\u00e3o evaporava. Restava apenas a lembran\u00e7a vaga do que eu havia sentido, como o eco de uma m\u00fasica esquecida. Ent\u00e3o eu fechava os olhos, tentando agarrar qualquer rastro daquilo. O cora\u00e7\u00e3o ainda acelerado, o cheiro da rua impregnado na pele, mas nada se transformava em palavra. Era como segurar \u00e1gua com as m\u00e3os abertas: escorria, sempre. Eu ia usar a imagem de um torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar colocado num copo de \u00e1gua. Mas eu nunca vi um torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar. S\u00f3 uso a\u00e7\u00facar refinado.<\/p>\n<p>Eu passei em frente ao pr\u00e9dio de Amanda. Tenho certeza absoluta de que ela havia estado ali alguns instantes antes. O perfume dela estava no ar. Fiquei com receio de perguntar ao porteiro se ele a tinha visto. Quase arrumei problemas da vez que fiz isso.<\/p>\n<p>Dia 31 de maio, s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Fui almo\u00e7ar num restaurante da pra\u00e7a. Tinha uma feira de ado\u00e7\u00e3o de bichos bem ali. E, de repente, quem aparece? A mo\u00e7a, sem o cachorro. Quase deixei o prato na mesa e fui v\u00ea-la de perto. Comentar alguma coisa, admirar os bichinhos fofos junto dela. Acho que vou adotar um cachorro. Poderia ser um pretexto para sair a passear tamb\u00e9m, e encontr\u00e1-la. Puxar assunto&#8230; Quem sabe? Fiquei observando-a de longe. Chegou a pegar um cachorro, filhote, numa das gaiolas. Colocou-o perto do rosto, falou algo, depois devolveu o cachorro e se foi. Entrou na esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4.<\/p>\n<p>Dia 1\u00ba de junho, domingo.<\/p>\n<p>Domingos s\u00e3o p\u00e1ginas vazias.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa digna de nota \u00e9 que hoje choveu. Choveu muito. Eu nunca tinha visto chover assim.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 mentira, ou exagero. Mas eu gosto disso.<\/p>\n<p>Choveu uma chuva capaz de apagar para sempre o perfume de Amanda. Parou de chover, e o cheiro da rua sobe at\u00e9 a janela do apartamento. Eu n\u00e3o almejo mais nada, apenas isolar, em minhas narinas, o cheiro da rua dos outros cheiros. Amaciante, livros, uma fuma\u00e7a de cigarro que, remotamente, sobe at\u00e9 aqui vinda da cal\u00e7ada, ou de algum outro apartamento, o desodorante que eu passei depois do banho, n\u00e3o quero saber de nada. Apenas do cheiro da rua.<\/p>\n<p>Dia 6 de junho, sexta-feira<\/p>\n<p>A rotina s\u00f3rdida se repete enquanto as horas mal se movem. De dia, eu me consumia em frustra\u00e7\u00f5es. De noite, a rua me chamava de novo, e eu ia, quase obediente, como se fosse ela, e n\u00e3o eu, a verdadeira autora de minha vida. Sou fraco. Sinto dores morais, mas n\u00e3o sofro.<\/p>\n<p>Comecei a desconfiar de que n\u00e3o escrevia mais para os livros, mas, sem palavras escritas, escrevia para a pr\u00f3pria rua. Ou era escrito por ela?<\/p>\n<p>Ela me alimentava com promessas que n\u00e3o se cumpriam. Era uma amante cruel, dessas que oferecem s\u00f3 o suficiente para manter o desejo aceso, sem nunca conceder a posse.<\/p>\n<p>E, entre p\u00e1ginas vazias e caminhadas f\u00e9rteis, fui vivendo como quem escreve um romance sem letras. As noites continuaram a me dar sensa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o hist\u00f3rias. Eu era o escritor que n\u00e3o escrevia: um homem que colecionava cheiros, passos, sil\u00eancios. E que, talvez, j\u00e1 tivesse feito disso a sua literatura secreta.<\/p>\n<p>Dia 11 de junho, quarta-feira<\/p>\n<p>Hoje passei no pet shop e comprei algumas coisas que faltavam para o Druso. Dei muita sorte com esse vira-lata, com essa pelagem linda e esse olhar t\u00e3o inteligente. A senhora do abrigo disse que ningu\u00e9m o estava querendo adotar, s\u00f3 porque ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o jovem. Mas, a cada dia que passa, ele se afina mais comigo. Dorme na minha cama, e ronca. Druso ronca. E posso jurar que ele j\u00e1 fica feliz quando pego a coleira e o chamo para passear. Como aprende r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Mais dia, menos, dia, eu ainda vou puxar assunto com a mo\u00e7a do cachorro. Ela tem aparecido um pouco mais tarde esses dias, talvez tenha mudado o ritmo de trabalho?<\/p>\n<p>Dia desses, tive quase certeza de que era Amanda dentro de um carro, parado no sinal perto da esquina. Mas os vidros tinham pel\u00edcula escura, eu n\u00e3o identifiquei ao certo. Nem vi quem estava dirigindo.<\/p>\n<p>Juro que quase senti o perfume de Amanda, mas o cheiro da rua se sobrepunha a qualquer outro naquele momento.<\/p>\n<p>Aqui dentro, os outros cheiros se misturam a ra\u00e7\u00e3o de cachorro, e do pelo de Druso quando ele vem, de banho tomado, do pet shop.<\/p>\n<p>Gosto mais do cheiro da rua do que do perfume de Amanda.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia 7 de maio, quarta-feira Ao cair da tarde, quando as sombras se esticam sobre as fachadas envelhecidas desses pr\u00e9dios, olho a rua pela minha janela, sinto uma necessidade imensa de sair. Daqui onde estou, vejo o antigo col\u00e9gio em frente. Na entrada, sobre uma marquise, est\u00e1 a imagem de santo em tamanho natural. 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