{"id":364657,"date":"2025-09-19T02:00:19","date_gmt":"2025-09-19T05:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364657"},"modified":"2025-09-18T12:22:21","modified_gmt":"2025-09-18T15:22:21","slug":"suspiros-e-saudades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/suspiros-e-saudades\/","title":{"rendered":"Suspiros e saudades"},"content":{"rendered":"<p>Quanto mais longe \u00e9 a caminhada, visitamos mais e mais vel\u00f3rios de parentes, amigos, bichos que nos acompanharam por anos. Precisamos conviver com o luto at\u00e9 que chegue mais uma segunda-feira implac\u00e1vel, que nos empurra para a realidade. Vida corrida, que n\u00e3o nos deixa nem mesmo digerir a dor da perda, como se fosse avi\u00e3o a jato. Quando nos damos conta, j\u00e1 foi, apesar do vazio que fica.<\/p>\n<p>Rubens, no banco pr\u00f3ximo \u00e0 janela do metr\u00f4, se perdia em pensamentos, como se desejando que o tempo parasse. Melhor, que voltasse a n\u00e3o mais de dois, tr\u00eas anos, quando ainda era poss\u00edvel sentir que Am\u00e1lia o amava. N\u00e3o que isso fosse necessariamente verdade, mesmo porque, como o homem descobrira muito antes, a esposa caminhava de m\u00e3os dadas com outro desde pouco antes dos dois firmarem compromisso perante o padre.<\/p>\n<p>Vinte e cinco anos de mentiras? N\u00e3o. Mesmo os tra\u00eddos n\u00e3o t\u00eam o direito de atirar pedras sobre momentos t\u00e3o apraz\u00edveis como jantares \u00e0 luz de vela, beijos fortuitos no escurinho do cinema, instantes ardentes mesmo ap\u00f3s a chegada dos filhos. Rubens n\u00e3o seria leviano a ponto de n\u00e3o valorizar tudo aquilo s\u00f3 por causa de um caso.<\/p>\n<p>Quando descobriu, n\u00e3o fez esc\u00e2ndalo, o que poderia at\u00e9 ser aceit\u00e1vel entre os afeitos a rompantes. Observou o impacto como se aquilo j\u00e1 estivesse nas entrelinhas desde sempre e, talvez por isso, preferiu o sil\u00eancio \u00e0 disc\u00f3rdia, mesmo ap\u00f3s desvendar, por mera casualidade, o qu\u00e3o long\u00ednquo era aquele romance. Mero bilhete, encontrado entre as p\u00e1ginas amareladas de um volume improv\u00e1vel de Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Foi por misto de curiosidade e inoc\u00eancia que Rubens folheou o livro, pois, at\u00e9 ent\u00e3o, desconhecia a afei\u00e7\u00e3o da esposa por poesias, ainda mais rom\u00e2nticas. Sabia que Am\u00e1lia se debru\u00e7ava, por vezes, sobre um ou outro poema de Drummond, al\u00e9m de jovens talentos contempor\u00e2neos como Sarah Munck, Luzia Couto e Daniel Marchi. Mas Gon\u00e7alves de Magalh\u00e3es? N\u00e3o. Definitivamente aquele n\u00e3o seria o autor de primeira escolha da pr\u00e1tica Am\u00e1lia.<\/p>\n<p>Leu o bilhete e se espantou mais com a caligrafia do que com o conte\u00fado. Apenas sentimentos corriqueiros de cora\u00e7\u00f5es apaixonados. Entretanto, a letra lhe era conhecida. Augusto, que desde sempre frequentava a resid\u00eancia do casal, j\u00e1 que era primo de Am\u00e1lia. Bom sujeito, sempre agrad\u00e1vel e deveras prestativo. Rubens nunca suspeitara que o sujeito se travestia de Bas\u00edlio.<\/p>\n<p>Devolveu o bilhete entre as p\u00e1ginas 25 e 26. Era n\u00edtido que estava ali h\u00e1 tempos, j\u00e1 que a tinta se entranhara entre as estrofes do poeta. Guardou o a obra entre tantas outras que repousavam serenamente na estante de mogno da sala, t\u00e3o \u00e0 vista de todos.<\/p>\n<p>Rubens remoeu a situa\u00e7\u00e3o por um, dois dias, que se prolongaram por meses, at\u00e9 que, quando se deu conta, aquilo j\u00e1 havia se tornado mob\u00edlia conhecida. Continuou recebendo de bom grado o amante da esposa. N\u00e3o seria \u00e0quela altura do relacionamento que deixaria o encanto se quebrar. Ademais, Am\u00e1lia andava t\u00e3o carinhosa, que seria um desperd\u00edcio n\u00e3o aproveitar os afagos da amada. Sem mencionar que os filhos, todos criados, j\u00e1 haviam sa\u00eddo do ninho em busca dos pr\u00f3prios destinos.<\/p>\n<p>Os almo\u00e7os e, por vezes, tamb\u00e9m os jantares, consumavam-se com a presen\u00e7a do Bas\u00edlio da esposa. Nessas ocasi\u00f5es, Rubens aproveitava para observar as trocas de olhares entre aqueles dois. Discretos, diga-se de passagem, mas percept\u00edveis, ainda mais ap\u00f3s a descoberta do bilhete revelador. Seja como for, o marido tra\u00eddo manteve-se fiel ao seu papel de bom anfitri\u00e3o, fazendo quest\u00e3o de servir os ad\u00falteros com o vinho trazido por Augusto.<\/p>\n<p>Rubens passou a observar com prazer as risadas da mulher, que se soltava ap\u00f3s duas ta\u00e7as. Augusto, apesar de mais contido, sorria aquele sorriso t\u00edpico dos galanteadores. Estariam os dois tocando furtivamente os p\u00e9s acobertados pela cumplicidade da toalha de mesa? Era algo que o dono da casa se perguntava, mesmo que preferisse a d\u00favida, provavelmente receoso de que a resposta fosse n\u00e3o.<\/p>\n<p>Era evidente a felicidade de Am\u00e1lia com as visitas do primo. E o pr\u00f3prio Rubens se percebeu desapontado quando tais eventos falhavam por conta de imprevistos. E, quando isso acontecia, os dois se sentiam \u00f3rf\u00e3os, apesar dos motivos diferentes, da presen\u00e7a de Augusto.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que ele est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de ser nada, Rubens. Logo, logo o Augusto almo\u00e7ar\u00e1 conosco.<\/p>\n<p>Para deixar a esposa e o primo confabularem \u00e0 vontade, Rubens aceitava qualquer viagem a trabalho ou, n\u00e3o raro, inventava visitas a parentes na cidade vizinha nos finais de semana. Quando retornava, encontrava Am\u00e1lia com aquele jovial sorriso nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Que saudade, meu amor! Pensei que voc\u00ea tivesse se esquecido de mim.<\/p>\n<p>\u2014 E como me esquecer de voc\u00ea, Am\u00e1lia?<\/p>\n<p>Foi num final de tarde, quando Rubens retornou para casa, que encontrou Am\u00e1lia ca\u00edda no tapete da sala. O livro <em>Suspiros po\u00e9ticos e saudades<\/em> ao lado e, na n\u00e3o esquerda da mulher, o bilhete. Teria ela descoberto que seu segredo havia sido revelado?<\/p>\n<p>O vel\u00f3rio aconteceu no dia seguinte. Era \u00f3bvia a consterna\u00e7\u00e3o de Rubens e Augusto. Como viveriam sem a presen\u00e7a de Am\u00e1lia? Tentaram, por algumas semanas, manter a rotina de visitas, at\u00e9 que elas foram rareando e, por fim, se findaram.<\/p>\n<p>Sentado no banco do metr\u00f4, Rubens teve a impress\u00e3o de que, entre a multid\u00e3o que descia e subia do vag\u00e3o, viu Augusto. Sentiu vontade de se levantar e conferir, mas j\u00e1 era tarde, pois a porta se fechou, e o metr\u00f4 voltou a se movimentar.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<div class=\"code-block code-block-1\">\n<div id=\"beacon_023b30d2d9\"><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong>\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/16.0.1\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto mais longe \u00e9 a caminhada, visitamos mais e mais vel\u00f3rios de parentes, amigos, bichos que nos acompanharam por anos. 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