{"id":364696,"date":"2025-09-25T00:45:41","date_gmt":"2025-09-25T03:45:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364696"},"modified":"2025-09-18T19:10:02","modified_gmt":"2025-09-18T22:10:02","slug":"a-voz-das-coisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-voz-das-coisas\/","title":{"rendered":"A VOZ DAS COISAS"},"content":{"rendered":"<p>Era inverno e a menina saiu para passear com o av\u00f4 numa grande pra\u00e7a no centro da cidade.<\/p>\n<p>A graminha estava toda queimada pela geada e as \u00e1rvores j\u00e1 quase carecas pela queda das folhas.<\/p>\n<p>O vento soprava forte e n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais na rua.<\/p>\n<p>A certa altura, o av\u00f4 parou pr\u00f3ximo de alguns jovens carvalhos.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 notando alguma coisa estranha, querida? \u2013 perguntou o av\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; Hum&#8230; Acho que sim -respondeu ela insegura-. Essas arvorezinhas ainda t\u00eam folhas. Est\u00e3o todas sequinhas, mas as folhas ainda n\u00e3o ca\u00edram; est\u00e3o l\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Cert\u00edssimo! Os carvalhos nunca deixam cair todas as folhas durante o inverno. E sabe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A menina pensou, pensou e abanou a cabe\u00e7a dizendo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7a &#8211; disse-lhe o av\u00f4.<\/p>\n<p>Naquele instante, uma rajada de vento sacudiu os ramos e dos ramos saiu um barulhinho seco e leve. Parecia muito com o barulhinho da cascavel que viu na televis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ouviu? Esta \u00e9 a voz do carvalho no inverno. Se n\u00e3o fossem as folhas secas, poderia ser facilmente confundido com a da goiabeira ou do eucalipto. Cada \u00e1rvore tem a sua pr\u00f3pria voz. S\u00f3 \u00e9 preciso aprender a ouvi-la.<\/p>\n<p>A tarde chegou e o sol come\u00e7ou a se despedir do dia.<\/p>\n<p>Caminhando para a sa\u00edda da pra\u00e7a, a menina n\u00e3o sentia mais o nariz e os p\u00e9s. &#8220;Brrruuuumm! Mas que frio!&#8221;, comentou. Apenas a m\u00e3o que segurava firme a do av\u00f4 ainda estava quente. De vez em quando um saco de pl\u00e1stico de supermercados rodopiava no ar como pipas enlouquecidas.<\/p>\n<p>\u2014 Vov\u00f4 \u2013 gritou Beatriz-, os sacos de pl\u00e1sticos tamb\u00e9m falam?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, os saquinhos, as latas, todo lixo que a gente produz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E as pedras?<\/p>\n<p>\u2014 As pedras, os rios, os mares, as flores&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E os carros?<\/p>\n<p>\u2014 V\u00edxi! Esses falam demais e muito alto. Para n\u00e3o falar dos \u00f4nibus, dos caminh\u00f5es e dos tratores<\/p>\n<p>\u2014 E as roupas secando no varal?<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida alguma, meu amorzinho, sem d\u00favida&#8230; elas tamb\u00e9m falam. Se voc\u00ea prestar bem aten\u00e7\u00e3o nos len\u00e7\u00f3is balan\u00e7ando ao vento, na graminha verdinha que cobre o quintal, ah! Pode descobrir uma linguagem bem especial&#8230;um poema inteiro&#8230;<\/p>\n<p>Naquela tarde, ao retornarem para casa, a menina montada de cavalinho nas costas do ainda bem conservado av\u00f4 sussurrou bem baixinho em seu ouvido.<\/p>\n<p>\u2014 Av\u00f4, voc\u00ea sabe mesmo de tudo!<\/p>\n<p>O av\u00f4 acariciou a cabe\u00e7a da neta com a m\u00e3o direita e, com a esquerda, enxugou disfar\u00e7adamente uma pequena l\u00e1grima que desceu por seu rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez, meu Anjinho&#8230; Talvez minha pequena doidinha&#8230; Talvez!<\/p>\n<p>Permaneceram assim, caminhando em sil\u00eancio, enquanto a voz do vento frio cantarolava uma can\u00e7\u00e3o de ninar.<\/p>\n<p>E o Sol desceu lentamente por detr\u00e1s dos pr\u00e9dios da velha cidade e a noite acolheu a solid\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e pesquisador de sonhos, palavras e vozes aparentemente desconhecidas. Vive numa pequena pousada na vila da Guarda do Emba\u00fa, litoral de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era inverno e a menina saiu para passear com o av\u00f4 numa grande pra\u00e7a no centro da cidade. A graminha estava toda queimada pela geada e as \u00e1rvores j\u00e1 quase carecas pela queda das folhas. O vento soprava forte e n\u00e3o havia ningu\u00e9m mais na rua. 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