{"id":364740,"date":"2025-09-22T00:15:09","date_gmt":"2025-09-22T03:15:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364740"},"modified":"2025-09-19T08:57:58","modified_gmt":"2025-09-19T11:57:58","slug":"a-jaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-jaca\/","title":{"rendered":"A jaca"},"content":{"rendered":"<p>Em uma passagem de um romance de Jorge Amado, uma mulher convence o amante a matar um grande amigo. Ele chega \u00e0 casa do brother decidido a assassin\u00e1-lo e se suicidar em seguida, e o encontra tra\u00e7ando uma jaca.<\/p>\n<p>&#8211; Oi, chega mais, irm\u00e3o, me ajuda com essa maravilha \u2013 diz a quase v\u00edtima.<\/p>\n<p>O quase homicida\/suicida titubeia, mas cede, senta junto ao companheiro, e em pouco tempo o perfume e o mel da fruta, que lambuza os dois, afastam quaisquer impulsos de morte.<\/p>\n<p>Vejo nesse epis\u00f3dio um arqu\u00e9tipo da brasilianice. Grandes gestos, por aqui, parecem meio rid\u00edculos e pegajosos, como se embebidos no sumo da fruta. Dores de amor, que em outras plagas desencadeiam suic\u00eddios, nas nossas passam rapidinho, em meio a novas paix\u00f5es ef\u00eameras e trepadas de responsa. N\u00e3o d\u00e1 pra matar ou sofrer profundamente quando se tem como uma das met\u00e1foras da nacionalidade uma jaca tropical.<\/p>\n<p>Agora, o conto.<\/p>\n<p>Lia, de quarentena em Porto Alegre, havia terminado por \u00e1udio do whatsapp uma rela\u00e7\u00e3o de oito meses com Juca, quarentenado em S\u00e3o Paulo. Eles haviam vivido um amor maduro, dif\u00edcil n\u00e3o s\u00f3 pela dist\u00e2ncia, mas principalmente por serem muito diferentes entre si.<\/p>\n<p>Juca \u2013 ele detestava seu pomposo nome duplo, Jo\u00e3o Leopoldo \u2013 era um homem de sentimentos simples, por vezes superficiais. Isso o tornava incapaz de guardar \u00f3dio ou rancor por muito tempo; em contrapartida, levava-o a n\u00e3o perceber bem emo\u00e7\u00f5es complexas que se manifestavam debaixo de seu nariz. Com as mulheres, ent\u00e3o, era uma calamidade. Se ele fosse ao cinema com uma mo\u00e7a, e ela levasse a m\u00e3o dele ao seio e murmurasse \u201cSegura aqui pra mim\u201d, ele seria capaz de perguntar \u201cPor qu\u00ea? Voc\u00ea vai aonde?\u201d<\/p>\n<p>Se, ao falar, Juca era simplificador e por vezes brusco, quando escrevia era outra coisa. Talvez porque isso o obrigasse a pensar duas vezes, a reler, a corrigir, a editar \u2013 n\u00e3o por acaso, trabalhara a vida inteira no mercado editorial e, depois de aposentado, escrevia contos. Lia, por sua vez, extremamente sens\u00edvel, mil vezes mais que Juca, era, acima de tudo, um bicho visual. A trajet\u00f3ria de amor dos dois refletia essa defasagem. Enquanto Juca havia escrito um livro no qual ela era a protagonista, Lia havia feito tatuagens referentes aos dois e preparado amorosamente um lindo enxoval para ele e para ela, com robes de chambre, perfumes e cremes para as partes altas e baixas, tudo olh\u00e1vel, cheir\u00e1vel, lamb\u00edvel ou mord\u00edvel.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00e9rmino por mensagem de voz, os dois estavam igualmente frustrados, mas por motivos opostos. Juca escreveu num e-mail, enviado ap\u00f3s v\u00e1rios dias de sil\u00eancio total:<\/p>\n<p>\u201cLia, estou velho. De bom, o senso de humor e a capacidade de me comunicar por escrito. E foi isso que voc\u00ea cortou pela raiz. O nome t\u00e9cnico \u00e9 castra\u00e7\u00e3o, d\u00f3i na hora (muito) e depois a cada dia. O resultado \u00e9 o empobrecimento amplo, geral e irrestrito de minha vida \u2013 e, ouso dizer, tamb\u00e9m da sua\u201d.<\/p>\n<p>Para a mo\u00e7a por sua vez, as palavras pronunciadas n\u00e3o bastavam, e muito menos as palavras escritas, t\u00e3o amadas por Juca (embora ela tamb\u00e9m escrevesse muito bem). Provavelmente sem ter plena consci\u00eancia disso, o que Lia desejava era transformar a ruptura em algo visualmente inesquec\u00edvel. Ent\u00e3o, quebrando o sil\u00eancio que ela pr\u00f3pria havia imposto, respondeu no ato, sugeriu ligar \u00e0s 21h daquela noite e pediu licen\u00e7a pra usar o telefonema com v\u00eddeo. O imbecil do Juca concordou e ainda escreveu: \u201cTudo bem, mas estou feio, n\u00e3o corto cabelo e barba h\u00e1 uns 15 dias\u201d. No fundo, o imbecil esperava uma reconcilia\u00e7\u00e3o, ou no m\u00ednimo os primeiros passos para.<\/p>\n<p>Lia preparou tudo cuidadosamente. Ilumina\u00e7\u00e3o forte, perfeita; um lindo vestido azul e branco, que Juca n\u00e3o conhecia, ind\u00edcio sutil de que ela havia ido em frente; e ligou na hora marcada.<\/p>\n<p>Ao ver o rosto amado, Juca, o parvo, pediu um sorriso. Recebeu um esgar.<\/p>\n<p>E Lia come\u00e7ou, dentro de seu cl\u00e1ssico estilo espiral de discurso, que fornecia informa\u00e7\u00f5es aos pedacinhos, circundava-as com o emocional vivido, afastava-se e depois retornava com outro punhado de hard data. Ela levou uns 8 minutos para dizer que: eles haviam se afastado devido \u00e0 brusquid\u00e3o dele, preferira permanecer em sil\u00eancio enquanto estava cheia de rancor e ressentimento, e que essas emo\u00e7\u00f5es poderiam feri-lo mas feriam tamb\u00e9m, e principalmente, a ela.<\/p>\n<p>Rancor? Ressentimento? Juca n\u00e3o sentira nada semelhante, s\u00f3 decep\u00e7\u00e3o e tristeza pelo fim do romance (que ele continuava a imaginar recuper\u00e1vel). Foi ent\u00e3o que ele ofereceu a talhada de jaca, cometendo ao mesmo tempo o imperdo\u00e1vel crime de interromp\u00ea-la.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, s\u00f3 quero saber se, quando voc\u00ea acabar, vou poder falar, ou isso \u00e9 um mon\u00f3logo?<\/p>\n<p>Ga\u00fachos n\u00e3o se d\u00e3o bem com jacas tropicais. Atingida nos cornos pelo mon\u00f3logo-fruta sumarenta, Lia gaguejou:<\/p>\n<p>&#8211; Mo-mon\u00f3logo? A-acho que tudo j\u00e1 foi dito antes, s\u00f3 queria&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 quando ouviu o \u201ctudo j\u00e1 foi dito antes\u201d que Juca percebeu que Lia n\u00e3o desejava conversar, muito menos se reconciliar, e sim criar um grand finale.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 mon\u00f3logo mesmo \u2013 cortou Juca, lambuzado com sumo de jaca. \u2013 Nesse caso, s\u00f3 me resta dizer \u201cHoy vas entrar en mi pasado\u201d. Era um verso do tango \u201cLos mareados\u201d, um verso que os dois consideravam terr\u00edvel, por expressar uma ruptura definitiva com a vida presente, em perp\u00e9tua mudan\u00e7a e constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea faz quest\u00e3o de dar a \u00faltima palavra, certo? \u2013 indagou Lia, refazendo-se do atentado a jaca. Foi a primeira pista que Juca teve de que o falar por \u00faltimo estava na pauta.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, nada mais resta a dizer \u2013 acrescentou a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 quatro versos \u2013 contrap\u00f4s Juca, e citou a estrofe final de \u201cTrocando em mi\u00fados\u201d, de Chico Buarque.<\/p>\n<p>\u201cEu bato o port\u00e3o sem fazer alarde\/Eu levo a carteira de identidade\/<\/p>\n<p>Uma saideira, muita saudade\/E a leve impress\u00e3o de que j\u00e1 vou tarde.\u201d<\/p>\n<p>E assim acabou uma hist\u00f3ria de amor durante a quarentena. Contrariando Jo\u00e3o Bosco, em \u201cLatin lover\u201d, esse amor n\u00e3o morreu de t\u00e9dio, \u201csem rev\u00f3lver, sem ci\u00fames, sem rem\u00e9dio\u201d. Morreu de jaca, o que pode ser indigesto, mas tem o seu sabor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma passagem de um romance de Jorge Amado, uma mulher convence o amante a matar um grande amigo. Ele chega \u00e0 casa do brother decidido a assassin\u00e1-lo e se suicidar em seguida, e o encontra tra\u00e7ando uma jaca. &#8211; Oi, chega mais, irm\u00e3o, me ajuda com essa maravilha \u2013 diz a quase v\u00edtima. 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