{"id":364744,"date":"2025-09-23T00:15:59","date_gmt":"2025-09-23T03:15:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364744"},"modified":"2025-09-19T09:03:41","modified_gmt":"2025-09-19T12:03:41","slug":"os-tigres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-tigres\/","title":{"rendered":"Os tigres"},"content":{"rendered":"<p>Na juventude, eles se amaram loucamente. D\u00e9cadas depois, reencontraram-se magicamente. Maduros, decidiram se amar sabiamente. Mas amar \u00e9 bem dif\u00edcil, e amar bem \u00e9 mais dif\u00edcil ainda, infelizmente.<\/p>\n<p>Para Eduardo e Ruth, tudo (re)come\u00e7ou em agosto de 2019, com uma garimpada no Facebook. Verificaram que moravam em cidades diferentes e que estavam descasados \u2013 ambos com filhos e netos. Aos poucos ele retomou o contato com o grande amor de sua mocidade, e em pouco tempo as juras de bem querer se multiplicaram em e-mails e postagens. Era um reencontro que os deixava sem f\u00f4lego, meio ressabiados do que os deuses estavam aprontando. Seja como for, tiverem a lucidez de perceber que n\u00e3o poderiam tratar a Coisa \u2013 o termo que usavam para esse per\u00edodo encantado de suas vidas \u2013 como uma retomada de algo existente. Era preciso encar\u00e1-la como um namoro recente, algo que exige cuidados para sobreviver, e uma cont\u00ednua descoberta do parceiro. E mais, como observou Drummond, em \u201cCampo de flores\u201d, quando os deuses concedem um amor crepuscular, maduro, \u201ch\u00e1 que amar diferente. De uma grave paci\u00eancia ladrilhar minhas m\u00e3os. (&#8230;)\u201d. Eles sabiam de tudo isso, e foram em frente.<\/p>\n<p>O (re)encontro veio em setembro, na cidadezinha onde haviam vivido sua paix\u00e3o dos vinte anos e onde nenhum dos dois morava fazia tempos. Houve a descoberta dos corpos desgastados, mas ainda capazes de dar e receber prazer. Houve longas conversas, que foram preenchendo d\u00e9cadas de falta de informa\u00e7\u00f5es de um sobre o outro; houve uma total sinceridade, pois o tempo dos charminhos e dos falsos pudores havia muito ficara para tr\u00e1s. O resultado foi que os dois retornaram a suas respectivas cidades apaixonados, agradecidos aos deuses por esse amor maduro e conscientes do que fazer para preserv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ruth e Eduardo marcaram um novo encontro para o in\u00edcio do ano seguinte. A Coisa continuou a crescer, agora com telefonemas di\u00e1rios cada vez mais longos. E a\u00ed come\u00e7aram os problemas. Eduardo confiava em seu taco para manejar palavras em e-mails e postagens, mas conversas pelo telefone eram outra coisa. Por vezes ele se mostrava brusco, e magoava Ruth, que sempre se ressentira com a viol\u00eancia das palavras. Em \u201cConsolo na praia\u201d, Drummond, o s\u00e1bio, observou: \u201cAlgumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour?\u201d S\u00f3 que o humour escasseia depois dos 60 anos; houve discuss\u00f5es, afastamentos e retomadas. Em resumo, em janeiro Eduardo chegou a Porto Alegre, onde Ruth morava, consciente de que havia fissuras na Coisa e que era urgente preench\u00ea-las.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o deu. Ruth lhe ofereceu mil mostras de carinho, levou-o aos parques, caf\u00e9s e teatros da cidade, proporcionou-lhe noites inesquec\u00edveis. Mas, ao mesmo tempo, mostrou-se raivosa diante da incompet\u00eancia dom\u00e9stica do parceiro, incapaz de preparar um caf\u00e9. Tamb\u00e9m se indignou com o n\u00famero excessivo de cigarros que Eduardo fumava e passou a caminhar diante dele, para n\u00e3o ser atingida pela fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>A magia foi recuperada quando se exilaram de Porto dos Casais \u2013 dos casais em crise \u2013 e fugiram para o Uruguai. Mas a lua de mel na Cisplatina tinha data de validade, foi preciso regressar a Porto Alegre, de onde Eduardo seguiu para S\u00e3o Paulo. Ele estava consciente de que Ruth e ele jamais conseguiriam morar juntos e que, ainda mais grave, as fissuras na Coisa haviam aumentado.<\/p>\n<p>Os telefonemas intermunicipais recome\u00e7aram, o enlevo regressou com for\u00e7a, mas n\u00e3o total, longe disso. O pior \u00e9 que a \u201cgrave paci\u00eancia\u201d de que falava Drummond diminu\u00eda a olhos vistos, tanto a de Ruth quanto a de Eduardo. M\u00e3os sem ladrilhos, \u00e1speras, foram ferindo a pele do parceiro. Como observou Eduardo numa msg: \u201cQuerida, vai levar tempo at\u00e9 que a gente recupere a flu\u00eancia do querer\u201d. Sem d\u00favida, o amor subsistia, mas manter a Coisa viva estava a cada dia mais dif\u00edcil. At\u00e9 que, depois de decretar sucessivas greves de sil\u00eancio, cortando telefonemas, Ruth terminou a rela\u00e7\u00e3o por meio de um \u00e1udio.<\/p>\n<p>Ao pensar no que havia acontecido, Eduardo percebeu que havia reproduzido um velho padr\u00e3o, de escoicear para que a parceira terminasse o relacionamento. Ele sem d\u00favida poderia ter sido mais atencioso com a mulher amada \u2013 atencioso nos dois sentidos, de ser gentil e de prestar aten\u00e7\u00e3o. E recordou um epis\u00f3dio sobre o qual havia lido.<\/p>\n<p>Eram dois tigres adultos, macho e f\u00eamea, colocados em jaulas adjacentes num zool\u00f3gico. Os dois ficavam horas seguidas se lambendo e com o dorso encostado nas grades, buscando um contato pleno. Quando a tigresa entrou no cio, os t\u00e9cnicos a conduziram at\u00e9 a jaula do macho \u2013 que a abateu no mesmo instante com uma mordida na nuca.<\/p>\n<p>Perplexos, os t\u00e9cnicos do zool\u00f3gico declaram tratar-se de um dos raros epis\u00f3dios em que o instinto territorial havia sobrepujado o instinto sexual. Talvez o odor da tigresa no cio ainda fosse fraco, o fato \u00e9 que o macho sentiu-se invadido, amea\u00e7ado, e contra-atacou.<\/p>\n<p>\u201cAlgo semelhante aconteceu comigo e com Ruth\u201d, pensou Eduardo. Ela havia constru\u00eddo laboriosa e penosamente seu estilo de vida, morando sozinha, nas proximidades da filha e das netas. Mais ainda, \u00e0s custas de muito sangue, suor e l\u00e1grimas, havia deixado de beber e de fumar. Tudo isso fazia parte do territ\u00f3rio dela, que ele invadira com seus maus h\u00e1bitos enraizados. Quanto a esses h\u00e1bitos, beber n\u00e3o era problema, ele havia parado faz tempo. Aprender a fazer caf\u00e9 e a fritar um ovo era perfeitamente poss\u00edvel. Mas largar o cigarro&#8230;ele fumava mais de dois ma\u00e7os por dia!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, era esse o quadro de Eduardo e Ruth no ano de gra\u00e7a de 2020, segunda quinzena de mar\u00e7o: a Coisa aos peda\u00e7os, a rela\u00e7\u00e3o terminada \u2013 exceto por um pequeno fio. Ele tinha reservas em um hotel da capital ga\u00facha e passagens compradas para encontr\u00e1-la em abril. Ali, se ela quisesse, poderia dar-lhe um p\u00e9 na bunda, ao vivo e em cores, mas talvez ele a fizesse perceber que sua improv\u00e1vel hist\u00f3ria de amor merecia uma \u00faltima chance. S\u00f3 que ent\u00e3o veio o coronav\u00edrus, a viagem foi adiada, a passagem e a reserva de hotel remarcadas para o fim do ano. Resta a Eduardo repetir diariamente, como um mantra: \u201cQue os deuses me protejam quando, mais uma vez, eu penetrar na jaula de Ruth!\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na juventude, eles se amaram loucamente. D\u00e9cadas depois, reencontraram-se magicamente. Maduros, decidiram se amar sabiamente. Mas amar \u00e9 bem dif\u00edcil, e amar bem \u00e9 mais dif\u00edcil ainda, infelizmente. Para Eduardo e Ruth, tudo (re)come\u00e7ou em agosto de 2019, com uma garimpada no Facebook. 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