{"id":364756,"date":"2025-09-26T00:45:49","date_gmt":"2025-09-26T03:45:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364756"},"modified":"2025-09-19T10:17:03","modified_gmt":"2025-09-19T13:17:03","slug":"ingrid-a-loirinha-de-olhos-azuis-de-pelotas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ingrid-a-loirinha-de-olhos-azuis-de-pelotas\/","title":{"rendered":"Ingrid, a loirinha de olhos azuis de Pelotas"},"content":{"rendered":"<p>Ingrid, 25 anos, era uma lourinha de olhos azuis \u2013 a imagem cl\u00e1ssica de uma descendente de alem\u00e3es. Morava em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e falava alem\u00e3o em casa, com os pais e av\u00f3s; fora disso, tentava por todos os meios abrasileirar-se. Tomava chimarr\u00e3o, apesar de detestar o sabor; torcia pelo Inter, embora n\u00e3o gostasse de futebol; vestia-se de prenda nas festas dos Centros de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, e dominava os passos da vanera e da milonga, a ponto de despertar a inveja das outras mo\u00e7as (algumas, mais que rodadas, estavam mais para chinas do que para prendas). Em resumo, Ingrid era uma mescla perfeita das influ\u00eancias culturais germ\u00e2nicas e luso-brasileiras, estas em vers\u00e3o gaud\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mas havia um aspecto que a singularizava: a alem\u00e3zinha era apaixonada pela cultura africana. Chegara a pensar em viver na Nig\u00e9ria ou em Angola, e aprender o iorub\u00e1 e o quimbundo, as l\u00ednguas dos candombl\u00e9s da Bahia e de Angola. N\u00e3o foi por pouco, mas abra\u00e7ou o batuque, a vers\u00e3o ga\u00facha do candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Ingrid poderia viver feliz, fazendo a cabe\u00e7a em algum terreiro e incorporando a dimens\u00e3o africana a sua mescla germano-luso-brasileira em chave bagual. Mas ela queria mais, n\u00e3o se contentava em ser filha de santo, desejava ser m\u00e3e de santo e, em especial, dominar o jogo dos b\u00fazios e outras formas de adivinha\u00e7\u00e3o ritual. Via-se como uma futura servidora de If\u00e1, o senhor dos segredos no candombl\u00e9 iorub\u00e1. Nem precisava dominar o dif\u00edcil mister dos babala\u00f4s, sacerdotes de If\u00e1; confiava em seu taco, quer dizer, no seu psiquismo, para descobrir o santo de cabe\u00e7a de qualquer vivente. Olhava firme para ele, respirava fundo e decretava: filho de Xang\u00f4 ou filha de Ians\u00e3, conforme o caso. Com isso, enchia o saco de todos os seus amigos.<\/p>\n<p>Certa noite, Ingrid estava num bar com sua galera, todos meio b\u00eabados e querendo se pegar. Mas ela empatou a foda. Olhou em volta e falou em voz que se pretendia misteriosa.<\/p>\n<p>&#8211; Os orix\u00e1s est\u00e3o presentes. Sinto suas vibra\u00e7\u00f5es., estou toda arrepiada.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser o frio, t\u00e1 demais, de matar cuzco \u2013 disse um carinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ou tes\u00e3o \u2013 completou uma guria, com um risinho. \u2013 Tamb\u00e9m arrepia, sente meu bra\u00e7o \u2013 e deslizou a m\u00e3o do rapaz sobre sua pele, num oferecimento pra l\u00e1 de expl\u00edcito.<\/p>\n<p>A futura sacerdotisa de If\u00e1 fez que n\u00e3o notou.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o sagrado se manifesta \u2013 prosseguiu. E escolheu a primeira v\u00edtima.<\/p>\n<p>&#8211; Ana, tu est\u00e1 com uma briga braba de cabe\u00e7a, entre Iemanj\u00e1 e Oxum. Isso fecha teus caminhos. E est\u00e1 usando brincos de prata, Oxum \u00e9 a M\u00e3e do Ouro, ela n\u00e3o gosta e n\u00e3o te ajuda \u2013 e aconselhou:<\/p>\n<p>&#8211; Se tu quiser ter sorte na vida, usa algum objeto de ouro, vais entrar na vibra\u00e7\u00e3o plena de Oxum.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma restaura\u00e7\u00e3o a ouro num dente, ser\u00e1 que basta para Oxum? \u2013 indagou Ana, com uma express\u00e3o inocente (real ou fingida) estampada no rosto.<\/p>\n<p>Ingrid explodiu.<\/p>\n<p>&#8211; Bah, parem de se arriar com as divindades! \u2013 desistiu da investida contra Ana e olhou em volta, procurando outro alvo.<\/p>\n<p>&#8211; Alfredo, tu \u00e9 filho de Ossanha, pai das plantas, senhor dos segredos das folhas. Ele \u00e9 o m\u00e9dico supremo, combate doen\u00e7as com suas plantas medicinais e est\u00e1 presente em todos os rituais dos outros orix\u00e1s. Os babalorix\u00e1s ensinam: \u201cSem folha n\u00e3o h\u00e1 orix\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Inflamando-se, ela o orientou:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Alfredo, para abrir teus caminhos, ande sempre com um punhado de ervas contigo. Caminhe pela mata sem rumo certo e deixe que as divindades te mostrem quais ervas colher.<\/p>\n<p>Alfredo parou de devorar salgadinhos, deu um \u00faltimo gole no refrigerante ultra doce, removeu os \u00f3culos escuros, olhou para Ingrid com olhos avermelhados e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Acertou, guria, tenho sempre erva comigo. De manh\u00e3, pro chimarr\u00e3o; depois, de outro tipo \u2013 olhou para a turma e convidou:<\/p>\n<p>&#8211; Falar nisso, t\u00f4 com unzinho aqui, bem apertado. Algu\u00e9m quer uma presen\u00e7a, dar um tapinha?<\/p>\n<p>Todos aceitaram, menos Ingrid que, furiosa, desistiu do irreverente filho de Ossanha, maconheiro de carteirinha.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a procurou um novo filho de santo a ser proclamado \u2013 e se deteve num homem novo no grupo, alto, moreno e forte, de fei\u00e7\u00f5es bem feitas e bra\u00e7os musculosos, que sugeriam uma pegada de derreter qualquer mulher. Sorriu para ele e indagou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te conhe\u00e7o. Qual \u00e9 o teu nome?<\/p>\n<p>&#8211; Me chamo Jorge, mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Tu sabe que s\u00e3o Jorge tem sincretismo com o senhor Ogum, divindade guerreira, n\u00e3o sabe? Basta olhar pra ti pra ver que \u00e9 forte, um guerreiro, um verdadeiro filho de Ogum.<\/p>\n<p>Jorge olhou para Ingrid, surpreso, e contra-atacou:<\/p>\n<p>&#8211; Capaz! T\u00e1 boa, santa? Guerreiro, euzinha? Nem morta \u2013 e bateu os c\u00edlios sedutoramente.<\/p>\n<p>A terceira desilus\u00e3o foi a gota d\u2019\u00e1gua. Ingrid levantou-se furiosa e saiu sem se despedir. Renegou o batuque e ingressou numa igreja neopentecostal. Hoje afirma \u2013 talvez procurando se convencer, mais que aos ouvintes \u2013 que os orix\u00e1s s\u00e3o capetas, que nem os exus, e que batuque e candombl\u00e9 levam direto ao inferno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingrid, 25 anos, era uma lourinha de olhos azuis \u2013 a imagem cl\u00e1ssica de uma descendente de alem\u00e3es. Morava em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e falava alem\u00e3o em casa, com os pais e av\u00f3s; fora disso, tentava por todos os meios abrasileirar-se. 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