{"id":364921,"date":"2025-09-29T00:15:05","date_gmt":"2025-09-29T03:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364921"},"modified":"2025-09-21T11:41:05","modified_gmt":"2025-09-21T14:41:05","slug":"andre-quem-diria-gostava-de-tango","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/andre-quem-diria-gostava-de-tango\/","title":{"rendered":"Andr\u00e9, quem diria, gostava de tango"},"content":{"rendered":"<p>Andr\u00e9, quem diria, gostava de tango. Isso no in\u00edcio dos anos 1970, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o do rock e do tropicalismo e no tempo do despontar de obras-primas da MPB. Aos 17 anos, o rapaz curtia tudo isso, mas tamb\u00e9m havia devorado a vasta cole\u00e7\u00e3o de long-plays do av\u00f4, tiete de Gardel e outros expoentes da canci\u00f3n porte\u00f1a. E foi ao ouvir um tango cl\u00e1ssico, Nada m\u00e1s, que ele encontrou uma solu\u00e7\u00e3o para seu maior problema na \u00e9poca: como convencer as menininhas que namorava\/com que ficava a aderir \u00e0 sacanagem ampla, total e irrestrita.<\/p>\n<p>O estopim foi a magn\u00edfica estrofe inicial da composi\u00e7\u00e3o: \u201cNo quiero nada, nada m\u00e1s, que no me dejes, frente a frente, con la vida\u201d. Foi em frente, e percebeu que o tanguero pedia outras cositas: \u201cNo quiero nada, nada m\u00e1s, que la mentira de tu amor, como limosna\u201d. Pensou, \u201cmentira do teu amor, como esmola, para a atleta n\u00e3o o deixar, \u00e9 dose pra cavalo\u201d. O adolescente n\u00e3o queria um amor eterno, um amor verdadeiro, e muito menos esmola; queria apenas satisfazer \u00e0s ordens de seus horm\u00f4nios. E disse a si mesmo:<\/p>\n<p>&#8211; A pr\u00f3xima gatinha que eu beijar, recito os versos iniciais de Nada m\u00e1s. Ela se derrete toda, e a\u00ed eu pe\u00e7o umas coisinhas. Coisinha pouca: ver peitinhos, acariciar peitinhos, e da\u00ed pra frente, at\u00e9 onde ela topar. Nada mais. N\u00e3o custa tentar.<\/p>\n<p>Tentou \u2013 e funcionou. As garotas se derretiam com o \u201cfrente a frente, con la vida\u201d, achavam lindo, e topavam o namoro mais pesadinho. Ou ent\u00e3o eram seus horm\u00f4nios, igualmente em ebuli\u00e7\u00e3o, que davam o sinal verde, vai saber. As noites de Andr\u00e9 ficaram muito mais excitantes, e ele, muito mais satisfeito. (Feliz seria demasiado.)<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o rapaz conheceu Lola, rec\u00e9m-chegada a sua escola. Era um ano mais velha que ele, e mais, importada de Buenos Aires. \u201cDeve conhecer tudo de tango\u201d, pensou o brazuca. Mas n\u00e3o teve como averiguar. Quando namoravam, s\u00f3 havia tempo para beijos t\u00f3rridos, e amassos nos conformes.<\/p>\n<p>Certa tarde, ao sair da escola, Lola convidou Andr\u00e9 a encontr\u00e1-la no apartamento de uma amiga mais velha. \u00c0s oito horas. Ele chegou exatamente na hora; a porta estava entreaberta. Entrou, e n\u00e3o viu a guapa. Esperou, ansioso, at\u00e9 a porta de um quarto se abrir e Lola surgir, somente de calcinha e suti\u00e3, cantarolando:<\/p>\n<p>&#8211; No quiero nada, nada m\u00e1s, que no me dejes, frente a frente, con la vida.<\/p>\n<p>Surpreso, ele sorriu, come\u00e7ou a despir-se e cantou os versos seguintes:<\/p>\n<p>&#8211; Me morir\u00e9 si me dej\u00e1s, porque sin vos no he de saber vivir.<\/p>\n<p>Foi a vez de Lola se surpreender. Mas ficou em sil\u00eancio, com um sorriso nos l\u00e1bios, e o ajudou a tirar a roupa. Por sua vez, ele removeu r\u00e1pido as pe\u00e7as da parceira.<\/p>\n<p>Foram para a cama. Ele perdeu a virgindade embalado pelos versos de Nada m\u00e1s. N\u00e3o foi apenas isso, nada mais, nem coisinha pouca; foi a realiza\u00e7\u00e3o dos sonhos de um mo\u00e7o de quase 18 anos.<\/p>\n<p>Meses depois, quando Lola e Andr\u00e9 se separaram (amores jovens s\u00e3o fugazes), ele n\u00e3o morreu, contrariando a promessa dos versos do tango. Deu de ombros e seguiu adiante. Havia muito mais a explorar, a encarar, frente a frente con la vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9, quem diria, gostava de tango. Isso no in\u00edcio dos anos 1970, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o do rock e do tropicalismo e no tempo do despontar de obras-primas da MPB. 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