{"id":364938,"date":"2025-10-03T00:15:59","date_gmt":"2025-10-03T03:15:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=364938"},"modified":"2025-10-02T00:04:29","modified_gmt":"2025-10-02T03:04:29","slug":"omar-era-escritor-mas-amargava-uma-imerecida-obscuridadeomar-era-escritor-mas-amargava-uma-imerecida-obscuridad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/omar-era-escritor-mas-amargava-uma-imerecida-obscuridadeomar-era-escritor-mas-amargava-uma-imerecida-obscuridad\/","title":{"rendered":"Omar era escritor, mas amargava uma imerecida obscuridade"},"content":{"rendered":"<p>Omar era escritor, mas amargava uma imerecida obscuridade. Publicara, por conta pr\u00f3pria, tr\u00eas romances de razo\u00e1veis para bons \u2013 excelentes, na sua enviesada opini\u00e3o \u2013, que passaram desapercebidos pela cr\u00edtica e foram ignorados pelo p\u00fablico. N\u00e3o era um caso \u00fanico nas letras brasileiras, longe disso.<\/p>\n<p>Certo dia, ao ler um romance de um (argh) autor de renome, percebeu, assustado, que conseguia prever o que seria escrito nos par\u00e1grafos seguintes. N\u00e3o palavra por palavra, claro, mas a ideia geral. Para testar a coisa, leu par\u00e1grafos aleat\u00f3rios, separados por v\u00e1rias p\u00e1ginas e, sim, podia dizer o que vinha em seguida.<\/p>\n<p>Quando se acalmou, levantou hip\u00f3teses para explicar o fen\u00f4meno. A mais favor\u00e1vel era que, por algum motivo, estava sintonizado com a mente do autor. A outra possibilidade era a de estar alucinando. Tremeu s\u00f3 de pensar nisso.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, assistiu a uma entrevista na televis\u00e3o com outro (argh) autor de renome. Ele falou do romance que estava escrevendo \u2013 e Omar percebeu, aliviado, que n\u00e3o estava sofrendo de alucina\u00e7\u00f5es. Das palavras do romancista sobre a obra, conseguia perceber a sua estrutura, a que o escritor apenas aludia, e especialmente a magn\u00edfica parte final, reviravolta na trama que coroaria uma obra-prima.<\/p>\n<p>O escritor obscuro morreu de inveja, mas ent\u00e3o, teve a IDEIA. Seria um pontap\u00e9 na bunda de seus princ\u00edpios \u00e9ticos, mas se tornar um autor de renome valia uma falcatruazinha ou duas&#8230; S\u00f3 que precisaria lutar contra o tempo.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, imaginou uma trama menos elaborada, mas que conduzisse \u00e0 consagradora parte final imaginada pelo confrade. E passou a produzi-la, trabalhando num ritmo enlouquecedor. Ele a concluiu em pouco mais de um m\u00eas; e ent\u00e3o colocou sobre ela a ab\u00f3bada liter\u00e1ria que consagraria n\u00e3o um, mas dois romancistas. Em seguida, desbastou a parte inicial, tornando-a menos tosca; a parte final simplesmente estava perfeita.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi imprimir seu livro, mais uma vez por conta pr\u00f3pria. \u201c\u00c9 a \u00faltima vez que fa\u00e7o isso\u201d, pensou, confiante.<\/p>\n<p>Quando soube, pelos suplementos liter\u00e1rios, que a obra do autor de renome (dessa vez sem argh, n\u00e3o tinha mais inveja ou rancor dos escritores bem-sucedidos, logo seria um deles) fora encaminhada \u00e0 impress\u00e3o, Omar enviou seu livro aos cr\u00edticos liter\u00e1rios. Recebeu algumas observa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, que destacavam a surpreendente conclus\u00e3o. E esperou pelo lan\u00e7amento do livro do confrade.<\/p>\n<p>Este ocorreu com pompa e circunst\u00e2ncia, mas uma inusitada nuvem de sil\u00eancio logo o envolveu. Dias depois, por\u00e9m, como Omar esperava, um cr\u00edtico mais corajoso, talvez de fora da panelinha, apontou as semelhan\u00e7as entre o texto do autor de renome e o do quase desconhecido Omar, o qual, detalhe, publicara antes. O universo beletrista tremeu nas bases, ele foi entrevistado vezes sem conta, e respondia sempre:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho certeza de que n\u00e3o houve pl\u00e1gio. O que ocorreu foi uma converg\u00eancia, uma parceria involunt\u00e1ria, um ardil de nossos psiquismos.<\/p>\n<p>Resultado, os dois livros conquistaram o p\u00fablico. Mais que isso, os cr\u00edticos decidiram-se, afinal, a ler os tr\u00eas romances de Omar, o obscuro, constataram que eram bons e os louvaram em suas colunas. A cereja do bolo foi a decis\u00e3o de uma editora de republicar os quatro livros de Omar \u2013 os tr\u00eas anteriores e o da \u201cparceria involunt\u00e1ria\u201d \u2013 dessa vez com tiragens bem razo\u00e1veis.<\/p>\n<p>Hoje, o antes obscuro Omar \u00e9 um autor de renome, tendo cadeira cativa no Olimpo liter\u00e1rio brasileiro. Consciente de sua trajet\u00f3ria no m\u00ednimo inusitada, jamais permitiu que a gl\u00f3ria o inebriasse, tem sempre uma palavra gentil para os autores que esperam por um lugar ao sol, n\u00e3o se importa em ler e comentar seus manuscritos. Diga-se que para ele n\u00e3o \u00e9 muito trabalhoso, sabe sempre o que a trama cont\u00e9m com um ou dois par\u00e1grafos de anteced\u00eancia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Omar era escritor, mas amargava uma imerecida obscuridade. 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