{"id":365132,"date":"2025-09-28T01:15:05","date_gmt":"2025-09-28T04:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=365132"},"modified":"2025-09-24T05:59:46","modified_gmt":"2025-09-24T08:59:46","slug":"adalgisa-nery-poetisa-de-coragem-e-vertigem-em-combustao-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/adalgisa-nery-poetisa-de-coragem-e-vertigem-em-combustao-permanente\/","title":{"rendered":"ADALGISA NERY, POETISA DE CORAGEM E VERTIGEM, EM COMBUST\u00c3O PERMANENTE"},"content":{"rendered":"<p>Adalgisa Nery (Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1905 \u2013 7 de junho de 1980) foi mais do que uma poeta: foi um vulc\u00e3o de palavras, emo\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es. Seus versos atravessam o tempo como feridas expostas, revelando a coragem de uma mulher que transformou em poesia o que a sociedade de sua \u00e9poca insistia em silenciar. Jornalista, deputada e figura p\u00fablica, transitou entre o brilho dos sal\u00f5es cariocas e a dureza da vida pol\u00edtica, sempre carregando consigo uma aura de fasc\u00ednio e esc\u00e2ndalo. Amou intensamente, sofreu sem reservas e deixou atr\u00e1s de si uma obra feita de lirismo e vertigem. Defini-la \u00e9 imposs\u00edvel; o m\u00e1ximo que podemos \u00e9 espi\u00e1-la por entre os v\u00e9us do mito e do rumor, entre o louvor e a indiscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia em Adalgisa Nery algo de estrela e algo de abismo. A musa que incendiava sal\u00f5es tamb\u00e9m carregava cicatrizes vis\u00edveis em cada poema. Foi amante de causas imposs\u00edveis, esposa de um pintor genial e inst\u00e1vel, deputada que enfrentava ditaduras com o mesmo \u00edmpeto com que colecionava desafetos. Dizia-se que encantava e aterrorizava com igual facilidade: um elogio seu podia elevar algu\u00e9m ao c\u00e9u, uma frase maldosa podia arruinar reputa\u00e7\u00f5es. Adalgisa foi dessas mulheres que n\u00e3o se podiam conter em molduras ou etiquetas; bela, provocadora, contradit\u00f3ria, um furac\u00e3o que misturava poesia e pol\u00edtica, ternura e crueldade. Para alguns, uma deusa l\u00edrica; para outros, um esc\u00e2ndalo ambulante. Para todos, inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Seu primeiro marido, o pintor Ismael Nery (1900-1934), foi precursor do modernismo no Brasil. Casou-se com ele muito jovem e foi m\u00e3e sete vezes, mas apenas dois filhos chegaram \u00e0 fase adulta. Aos 29 anos, j\u00e1 vi\u00fava, tornou-se funcion\u00e1ria p\u00fablica para cuidar da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em 1937 lan\u00e7ou seu primeiro livro de poemas.<\/p>\n<p>Em 1940, Adalgisa casou-se novamente, com o advogado e jornalista Lourival Fontes, ent\u00e3o \u00e0 frente do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), \u00f3rg\u00e3o criado por Get\u00falio Vargas no ano anterior para sustentar e difundir os ideais do Estado Novo.<\/p>\n<p>Acompanhando o segundo marido em sua trajet\u00f3ria diplom\u00e1tica, viveu em Nova Iorque de 1943 a 1945, per\u00edodo em que Lourival exerceu fun\u00e7\u00f5es ligadas ao servi\u00e7o exterior brasileiro. Dali, transferiu-se para o M\u00e9xico, onde ele assumiu a embaixada. Nessa \u00e9poca, Adalgisa mergulhou em um ambiente art\u00edstico efervescente, aproximando-se de nomes consagrados como Diego Rivera, Jos\u00e9 Clemente Orozco, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo, alguns dos quais a imortalizaram em retratos.<\/p>\n<p>A afinidade com a cultura mexicana a levou de volta ao pa\u00eds em 1952, quando representou o Brasil como embaixadora extraordin\u00e1ria na posse do presidente Adolfo Ruiz Cortines. Nesse contexto, recebeu uma distin\u00e7\u00e3o in\u00e9dita: a Ordem da \u00c1guia Asteca, nunca antes conferida a uma mulher, reconhecimento de suas palestras e estudos sobre a poetisa barroca Soror Juana In\u00e9s de la Cruz.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o com Lourival, entretanto, n\u00e3o resistiu \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es da vida pessoal. Depois de treze anos de casamento, o v\u00ednculo se desfez, encerrado pela paix\u00e3o dele por outra mulher.<\/p>\n<p>O rompimento com Lourival Fontes marcou profundamente a vida de Adalgisa. A dor dessa separa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o intensa que a levou a negar a si mesma o brilho j\u00e1 conquistado no cen\u00e1rio liter\u00e1rio. Embora fosse reconhecida como poeta de grande relev\u00e2ncia, inclusive fora do pa\u00eds \u2014 na Fran\u00e7a, por exemplo, teve seus versos traduzidos e reunidos em colet\u00e2nea por Pierre Seghers \u2014 decidiu renunciar \u00e0 pr\u00f3pria obra, quase como um gesto de autodestrui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Reinventou-se, ent\u00e3o, no jornalismo e na pol\u00edtica. Passou a colaborar com o jornal <em>\u00daltima Hora<\/em> e ingressou na vida p\u00fablica, elegendo-se deputada em tr\u00eas legislaturas consecutivas: inicialmente pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, mais tarde, j\u00e1 no per\u00edodo do bipartidarismo, pelo Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB). Sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica, contudo, foi interrompida em 1969, quando sofreu a cassa\u00e7\u00e3o do mandato e perdeu seus direitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Sem recursos financeiros e j\u00e1 tendo transferido em vida seus bens aos filhos, Adalgisa encontrou-se sem lar na d\u00e9cada de 1970. Entre 1974 e 1975, foi acolhida por Fl\u00e1vio Cavalcanti em sua resid\u00eancia em Petr\u00f3polis, onde levou uma exist\u00eancia discreta e quase reclusa. Apesar da decis\u00e3o anterior de abandonar de vez a literatura, voltou a escrever e lan\u00e7ou novos t\u00edtulos: dois volumes de poesia, dois de contos, um de artigos e o romance Neblina. A obra foi dedicada ao pr\u00f3prio Cavalcanti \u2014 figura controversa, taxada de delator pelo regime militar \u2014 em reconhecimento pelo abrigo recebido. Ao privilegiar a amizade e a gratid\u00e3o acima de conven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, Adalgisa contrariou expectativas e viu o romance ser praticamente silenciado pela cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Em 1975 mudou-se para a casa do filho mais novo, Emmanuel. Pouco tempo depois, em maio de 1976, deixou-lhe apenas um bilhete e internou-se voluntariamente em um asilo para idosos em Jacarepagu\u00e1. A atitude surpreendeu o filho, que, ao regressar, n\u00e3o encontrou mais a m\u00e3e. No ano seguinte, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe deixou sequelas graves e, tr\u00eas anos mais tarde, morreu aos setenta e quatro anos.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adalgisa Nery (Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1905 \u2013 7 de junho de 1980) foi mais do que uma poeta: foi um vulc\u00e3o de palavras, emo\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es. Seus versos atravessam o tempo como feridas expostas, revelando a coragem de uma mulher que transformou em poesia o que a sociedade de sua \u00e9poca [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":365133,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-365132","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365132","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=365132"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365132\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":365151,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/365132\/revisions\/365151"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/365133"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=365132"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=365132"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=365132"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}