{"id":365223,"date":"2025-09-26T00:15:20","date_gmt":"2025-09-26T03:15:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=365223"},"modified":"2025-09-24T10:15:51","modified_gmt":"2025-09-24T13:15:51","slug":"as-aventuras-do-capitao-inacio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-aventuras-do-capitao-inacio\/","title":{"rendered":"As aventuras do Capit\u00e3o In\u00e1cio"},"content":{"rendered":"<p>Ele nasceu em 1930 na favela do morro de Padre Miguel, no munic\u00edpio do Rio de Janeiro. Filho de empregada dom\u00e9stica e pedreiro, desde muito pequeno come\u00e7ou a trabalhar como engraxate para ajudar na manuten\u00e7\u00e3o do barraco e no sustento da fam\u00edlia composta ainda pela m\u00e3e, o pai e duas irm\u00e3s mais novas.<\/p>\n<p>A vida, embora nunca tenha sido f\u00e1cil, piorou significativamente quando, logo ap\u00f3s o nascimento da ca\u00e7ula, o pai os largou no total desamparo, desaparecendo para sempre. A circunst\u00e2ncia obrigou Ign\u00e1cio a intensificar sua jornada de trabalho e abandonar a escola apenas conclu\u00eddo o 4\u00ba ano prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sa\u00eda de casa por volta das 7 da manh\u00e3, muitas vezes sem sequer uma fatia de p\u00e3o ou um gole de caf\u00e9 no est\u00f4mago. Pegava o trem da Central do Brasil na esta\u00e7\u00e3o Mocidade, Linha Santa Cruz, para ir at\u00e9 o centro da cidade oferecer seus servi\u00e7os aos transeuntes, parava nas portas dos bares e outros estabelecimentos comerciais e muitas vezes trocava uma engraxada por um p\u00e3o com manteiga e uma m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Cada cliente lhe rendia 80 reis. A m\u00e3e exigia que voltasse para casa com ao menos 1500 reis para, somado a seus ganhos como diarista, perfazer pouco mais de meio sal\u00e1rio-m\u00ednimo ao fim de trinta dias, c\u00e1lculo feito por ela para completar o necess\u00e1rio a fim de cobrir as despesas do m\u00eas. Isso equivalia a mais de 20 pares de sapatos por dia, pois precisava ainda descontar o valor das passagens do trem e o gasto com alguma coisa para comer.<\/p>\n<p>A jornada era extremamente \u00e1rdua e o for\u00e7ava a percorrer longas dist\u00e2ncias, pois, quando o movimento em determinado ponto ficava fraco, tinha de se deslocar para outro para conseguir preencher a cota di\u00e1ria. \u00c0s vezes essa longa \u201cca\u00e7ada\u201d o fazia chegar de volta \u00e0 casa tarde da noite. Mesmo assim, muitas vezes, sem conseguir bater a meta.<\/p>\n<p>Nos caminhos por onde passava, cultivava muitas amizades e se distraia um pouco com qualquer novidade que chamasse aten\u00e7\u00e3o; uma vitrine, um artista de rua, ou at\u00e9 mesmo uma colis\u00e3o entre dois carros, afinal essas eram as \u00fanicas oportunidades de divertimento poss\u00edvel. Cada uma das adversidades impostas pela condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, era encarada como mais uma oportunidade de aprendizado na \u201cescola\u201d em que se formou e se criou como um \u201cbom malandro\u201d \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro da d\u00e9cada rom\u00e2ntica de 1940.<\/p>\n<p>Apesar da forma r\u00edspida com que a vida o tratava e da sabedoria adquirida com a gente da rua com a qual convivia, nem todas em conson\u00e2ncia com as ditas regras morais, In\u00e1cio sempre foi um menino generoso, sens\u00edvel, boa pra\u00e7a, amigo de todos, comunicativo, brincalh\u00e3o, n\u00e3o se furtava a ajudar qualquer pessoa que necessitasse; e isso tudo o fazia feliz, de tal maneira que seus ardis, nunca resultavam em preju\u00edzos, pelo menos significativos, a quem quer que fosse, a n\u00e3o ser, algumas vezes, a ele mesmo. Ao contr\u00e1rio, suas artimanhas eram apenas a maneira encontrada de sobreviver na grande cidade, quase ing\u00eanua comparada aos dias atuais, mas, mesmo assim, oferecia muitas armadilhas e perigos cotidianos, principalmente a uma crian\u00e7a dos seus 11\/12 anos.<\/p>\n<p>Aos 15 anos uma trag\u00e9dia se abateu sobre a fam\u00edlia. A m\u00e3e foi diagnosticada com tuberculose e veio a falecer em poucos meses. Diante da situa\u00e7\u00e3o inesperada, se viu perdido, mas n\u00e3o podia se deixar abater, pois agora era sozinho e tinha sob sua responsabilidade as duas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>A mais velha, com apenas 11 anos, ficou encarregada de cuidar da casa, e ele, embora j\u00e1 tivesse h\u00e1 algum tempo obtido um emprego em um com\u00e9rcio pr\u00f3ximo \u00e0 moradia, com sal\u00e1rio superior ao valor que ganhava como engraxate e para o qual podia ir a p\u00e9, economizando o dinheiro da passagem do trem, mas, mesmo assim, os ganhos eram insuficientes para prover o lar com um m\u00ednimo de conforto. Assim, o aprendizado e o conhecimento, obtido quando perambulava pelo centro da Capital Frederal, lhe foram de grande proveito.<\/p>\n<p>Obteve, junto a um estabelecimento clandestino, uma carteira de identidade falsa, com a data de nascimento adulterada, tornando-o dois anos mais velho. Com esse documento, apresentou-se no quartel da For\u00e7a P\u00fablica para sentar pra\u00e7a, sendo admitido. A tentativa bem-sucedida possibilitou relativa estabilidade \u00e0 fam\u00edlia, trazendo autoconfian\u00e7a e orgulho para In\u00e1cio.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o, no entanto, exigia pernoitar no quartel por v\u00e1rias vezes durante o m\u00eas, obrigando-o a deixar as irm\u00e3s sozinhas no barraco nessas ocasi\u00f5es, trazendo, de in\u00edcio, grande preocupa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, com o tempo foi percebendo a maturidade precoce de Isabel, a mais velha, e a forma como conseguia manter a ordem e a disciplina da casa.<\/p>\n<p>Isabel administrava o dinheiro deixado mensalmente pelo irm\u00e3o, tomando conta com desenvoltura de Ingrid, a ca\u00e7ula, ent\u00e3o com 8 anos, mantendo-a alimentada, cuidava das roupas, zelava por sua frequ\u00eancia, a levava e buscava no grupo escolar nas proximidades do morro onde moravam e orientava nas li\u00e7\u00f5es de casa. Por outro lado, a irm\u00e3 menor era uma menina bem-comportada, estudiosa e muito inteligente, facilitando o trabalho.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que as meninas estavam relativamente bem o tranquilizava para poder se dedicar o mais poss\u00edvel ao trabalho. Era considerado, por seu comandante e demais superiores na caserna, um bom soldado. Isso, contudo, n\u00e3o o impedia de exercer sua \u00edndole galhofeira. Adorava contar piadas, pregar pe\u00e7as e, principalmente, inventar perip\u00e9cias armando apostas com os colegas.<\/p>\n<p>Com as habilidades aprendidas e a necessidade de enfrentar os riscos naturais das ruas, desde muito pequeno acostumou-se a criar desafios a si mesmo e casar uns trocados com os amigos de que seria capaz de encar\u00e1-los com desenvoltura. Nunca perdia, embora, muitas vezes, as consequ\u00eancias advindas de suas travessuras n\u00e3o compensavam os trocados amealhados, mas ele se divertia mesmo assim, gabando-se pelo feito durante os pr\u00f3ximos quinze dias.<\/p>\n<p>Uma vez, quando ainda engraxava sapatos no centro da cidade, apostou com os amigos que entraria em uma loja que havia colocado uma banca de roupas em liquida\u00e7\u00e3o logo \u00e0 frente da porta, jogaria todas no ch\u00e3o e sairia correndo sem ser pego pelos seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>A aventura, at\u00e9 certo ponto, foi bem-sucedida, e ele ganhou a aposta. No entanto, por azar, um dos vigilantes voltava do almo\u00e7o e ainda na rua percebeu o movimento e o agarrou na sa\u00edda, levando-o novamente para dentro, passados alguns minutos, foi liberado. Nunca contou para ningu\u00e9m o que aconteceu, mas o fato \u00e9 que, a partir daquele dia, s\u00f3 passava em frente ao estabelecimento pela cal\u00e7ada oposta.<\/p>\n<p>Outra vez, apostou com os moleques da vizinha da comunidade que seria capaz de subir as centenas de degraus da prec\u00e1ria escada, instalada em uma caixa d\u2019\u00e1gua existente nas proximidades, com uns bons 30 metros de altura, sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o; anunciava sua proeza com anteced\u00eancia e somente quando se certificava de que as ades\u00f5es representavam um montante compensador, marcava a data do evento, atraindo um bom p\u00fablico para testemunhar. Ia l\u00e1 e fazia o que se propunha. Dessa vez teve uma certa dificuldade para descer, mas n\u00e3o deixou ningu\u00e9m perceber esse contratempo. E, como sempre, ganhou a parada e saiu pela vizinhan\u00e7a todo gabola.<\/p>\n<p>In\u00e1cio manteve o mesmo esp\u00edrito durante toda a vida, bem como suas virtudes admir\u00e1veis, e em sua \u00e9poca de servi\u00e7o na pol\u00edcia, apesar do rigor e da disciplina reinantes no ambiente, n\u00e3o foi diferente. Assim, certa vez, desafiou os colegas que conseguira retirar na lavanderia a farda do comandante, um capit\u00e3o com fama de dur\u00e3o, se vestiria com ela e desfilaria pelo p\u00e1tio do quartel. Assim o fez. E, na mesma noite, adentrou o rancho dos oficiais ostentando a indument\u00e1ria do superior hier\u00e1rquico. N\u00e3o demorou para o impostor ser identificado e detido.<\/p>\n<p>A perip\u00e9cia lhe rendeu \u2013 al\u00e9m dos ganhos financeiros, pois, como sempre, ganhou a disputa \u2013 um \u201cgancho\u201d de 15 dias na pris\u00e3o do quartel, com o corte do sal\u00e1rio pelo mesmo per\u00edodo. Nada que o abalasse definitivamente. At\u00e9 porque o arrecadado compensou o valor descontado de seu soldo mensal e ainda sobrou uns bons trocados, para, terminado o prazo da pena, convidar os mais chegados para comemorarem a \u201cliberdade\u201d com uma cervejada, com muita discri\u00e7\u00e3o, pois bebida alco\u00f3lica n\u00e3o \u00e9 permitida nas corpora\u00e7\u00f5es militares, e ningu\u00e9m estava disposto a ir para a pris\u00e3o, principalmente ele.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o esperava, entretanto, era uma consequ\u00eancia a mais decorrente de sua aventura: com o epis\u00f3dio passou a ser conhecido pelos colegas como \u201cCapit\u00e3o Rolo\u201d em raz\u00e3o de sua extraordin\u00e1ria capacidade de se envolver em situa\u00e7\u00f5es complicadas, mas, principalmente, se sair bem delas. Com o tempo, o apelido foi abreviado para apenas \u201cCapit\u00e3o\u201d. Com seu proverbial bom-humor, n\u00e3o recusou o epiteto, ao contr\u00e1rio, adotou-o de bom grado, a ponto de se apresentar, quando a situa\u00e7\u00e3o propiciava, como \u201cCapit\u00e3o In\u00e1cio\u201d.<\/p>\n<p>A designa\u00e7\u00e3o lhe caiu t\u00e3o bem que o acompanhou pelo resto da vida. As pessoas acreditavam ser ele, de fato, capit\u00e3o reformado e muitos integrantes das for\u00e7as militares at\u00e9 lhe prestavam contin\u00eancia.<\/p>\n<p>A alcunha, adicionalmente, lhe foi de muita valia quando, superadas as dificuldades da inf\u00e2ncia e juventude, estabilizou-se na vida, tendo se casado, constitu\u00eddo fam\u00edlia e adotado a profiss\u00e3o de despachante, a falsa patente lhe abria portas junto ao Detran e outros \u00f3rg\u00e3os oficiais. Ele, \u00e9 claro, nunca cogitou desfazer o mal-entendido.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nota do autor: O Capit\u00e3o \u00e9 um personagem real, a quem, com este conto, presto uma homenagem, por ter sido uma pessoa incr\u00edvel e muito importante na minha vida. A hist\u00f3ria \u00e9 parte realidade e parte fic\u00e7\u00e3o. No caso, ele de fato nasceu no Morro de Padre Miguel, perdeu a m\u00e3e aos 15 anos e cuidou das irm\u00e3s. Conseguiu aumentar a idade e ingressar na, ent\u00e3o, For\u00e7a P\u00fablica\/RJ, atualmente Pol\u00edcia Militar, onde apostou com os amigos que \u201ctomaria emprestada\u201d a farda do capit\u00e3o, ganhando a aposta e sendo preso por isso. Futuramente se tornou despachante e manteve o apelido at\u00e9 seus \u00faltimos dias de vida.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele nasceu em 1930 na favela do morro de Padre Miguel, no munic\u00edpio do Rio de Janeiro. Filho de empregada dom\u00e9stica e pedreiro, desde muito pequeno come\u00e7ou a trabalhar como engraxate para ajudar na manuten\u00e7\u00e3o do barraco e no sustento da fam\u00edlia composta ainda pela m\u00e3e, o pai e duas irm\u00e3s mais novas. 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