{"id":365241,"date":"2025-09-27T01:00:18","date_gmt":"2025-09-27T04:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=365241"},"modified":"2025-09-24T12:28:42","modified_gmt":"2025-09-24T15:28:42","slug":"a-loba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-loba\/","title":{"rendered":"A loba"},"content":{"rendered":"<p>Naquele dia n\u00e3o havia movimento percept\u00edvel nas proximidades da lagoa. Reinava uma calmaria densa e abafada, que perturbava a matriarca da fam\u00edlia, oculta entre as ra\u00edzes de uma grande \u00e1rvore. Os cinco filhotinhos mamavam, esfaimados como sempre, o grandalh\u00e3o mais afoito, empurrando os irm\u00e3os e revezando os mamilos; o pequenino, mais fraco, mamava onde podia, onde lhe sobrava, mas n\u00e3o se dava por vencido, sempre buscando algum espa\u00e7o nas tetas gordas entre as patas traseiras da m\u00e3e, at\u00e9 ser novamente empurrado para as mamas menos provedoras.<\/p>\n<p>Ela, por sua vez, olhava. Tr\u00eas filhotes med\u00edocres e dois pontos fora da curva. N\u00e3o, ela n\u00e3o estava menosprezando os tr\u00eas pequenos do meio; eram med\u00edocres porque estavam na m\u00e9dia: peso m\u00e9dio, tamanho m\u00e9dio, intelig\u00eancia m\u00e9dia, m\u00e9dia capacidade de sobreviv\u00eancia, a mais perfeita manifesta\u00e7\u00e3o estat\u00edstica de um lobo-guar\u00e1 padr\u00e3o. Fadados a encontrarem seu lugar numa natureza que definhava a cada dia, sobrevivendo por um tempo m\u00e9dio e ingerindo com uma quantidade de calorias abaixo da m\u00e9dia, devido \u00e0 escassez de alimento. O territ\u00f3rio de ca\u00e7a diminu\u00eda a cada dia, a fartura de presas e vegetais de outrora j\u00e1 parecia um sonho distante. A mata exuberante que abrigava tantos animais vinha sendo rapidamente substitu\u00edda por extensos campos de mon\u00f3tonas e monocrom\u00e1ticas ervas que n\u00e3o se podia comer (n\u00e3o um lobo), ou por extensas pastagens coalhadas de presas enormes que n\u00e3o se podia ca\u00e7ar (n\u00e3o um lobo).<\/p>\n<p>O filhote grande e o pequeno tamb\u00e9m tinham seus destinos selados. O primeiro seria o destaque; forte, tomaria o territ\u00f3rio dos outros lobos m\u00e9dios, alcan\u00e7aria efici\u00eancia de ca\u00e7a acima da m\u00e9dia e ingeriria carne acima da m\u00e9dia; ficaria maior e mais ousado, chegaria mais perto das cria\u00e7\u00f5es dos humanos, aqueles frangos dom\u00e9sticos vulner\u00e1veis e de instintos d\u00e9beis, presas f\u00e1ceis e gordas para um ca\u00e7ador selvagem. Proeminente e destemido, mas tamb\u00e9m visado, acabaria ca\u00e7ado, apresado pela boca fumegante de uma espingarda, seu corpo forte e belo empalhado para enfeitar um show de horrores num canto empoeirado de um galp\u00e3o ou largado para apodrecer na beira de um regato. O outro, sem territ\u00f3rio de dom\u00ednio, impulsionado pela fome inadi\u00e1vel, chegaria perto demais das cria\u00e7\u00f5es dos humanos, aqueles frangos dom\u00e9sticos vulner\u00e1veis e de instintos d\u00e9beis, presas f\u00e1ceis e gordas para um ca\u00e7ador med\u00edocre, digo, ineficiente. Acabaria acuado pelos cachorros ou apresado pela boca fumegante de uma espingarda, seu corpo d\u00e9bil empal<br \/>\nhado para fazer n\u00famero em um show de horrores num canto empoeirado de um galp\u00e3o ou largado para apodrecer na beira de um regato. Dois caminhos distintos, chegando ao mesmo lugar. \u00c9 a viagem que conta?<\/p>\n<p>A m\u00e3e lobo foi tirada de suas reflex\u00f5es por latidos distantes de c\u00e3es de ca\u00e7a. Os latidos dos cachorros eram sempre um mau press\u00e1gio. Logo a calmaria perturbadora foi substitu\u00edda por uma inquietude alarmante: animais de todas as esp\u00e9cies, desde os menores e mais inofensivos at\u00e9 os portadores das piores pe\u00e7onhas e das presas mais afiadas colocavam-se de prontid\u00e3o, dispostos a fugir ou atacar ante qualquer presen\u00e7a inesperada. Os c\u00e3es se aproximaram um pouco, mas ainda deveriam estar do outro lado da grande lagoa fronteira \u00e0 toca lupina. M\u00e3e-loba sabia que ainda n\u00e3o precisava lutar \u2013 fugir n\u00e3o estava entre as possibilidades aceit\u00e1veis. Do outro lado da lagoa, veio o rugido de uma on\u00e7a, seguido de um estampido seco. Os p\u00e1ssaros al\u00e7aram voo, barulhentos, alertando ao mundo que alguma coisa grave ocorrera. Os ouvidos afiados de mam\u00e3e perceberam um som muito sutil e afastado, assemelhado a um gemido ou um lamento. Naquele dia ela n\u00e3o sairia da toca.<\/p>\n<p>Com a noite, por\u00e9m, a fome ganhou for\u00e7a e aos poucos eclipsou o receio gerado pelos acontecimentos diurnos. Desde que o pai dos filhotinhos sa\u00edra para buscar alimentos e n\u00e3o regressara, mam\u00e3e tinha de se virar como podia. Na primeira incurs\u00e3o noturna na busca por comida percebera o rastro j\u00e1 fraco do macho desaparecido. Seguindo-o um pouco, logo identificou tamb\u00e9m, sobreposto ao primeiro, o inconfund\u00edvel cheiro de uma on\u00e7a. F\u00e1cil entender o que havia acontecido. Quem pode contra a toda-poderosa daquelas paragens? Certamente o macho n\u00e3o fora esperto o suficiente para perceber a emboscada, tampouco \u00e1gil o suficiente para fugir. Restou \u00e0 matrona tornar rotina as sa\u00eddas noturnas para garantir sua sobreviv\u00eancia e a dos rebentos, ainda jovens demais para acompanh\u00e1-la. As perambula\u00e7\u00f5es tinham de ser r\u00e1pidas, sem tempo para escolher o card\u00e1pio. Sementes em geral e at\u00e9 aqueles detest\u00e1veis artr\u00f3podes, de gosto horr\u00edvel, mas fonte de importantes prote\u00ednas. Uma carca\u00e7a qualquer era sempre bem-vinda, mas geralmente n\u00e3o havia tempo para ca\u00e7ar os apreciados roedores que viviam pelas redondezas. Necess\u00e1rio se contentar com uma dieta mais vegetariana, por\u00e9m carne fresca fazia falta.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que as fontes de alimento ficavam cada vez mais longe. Nessa noite, mam\u00e3e saiu da toca j\u00e1 sabendo que seria dif\u00edcil acalmar o est\u00f4mago. Teria de caminhar bastante para encontrar algo comest\u00edvel, mas ao mesmo tempo o corpo magro e extenuado protestava contra a longa caminhada, avisando que toda a energia poss\u00edvel deveria ser poupada. Equalizar o gasto de energia, o tempo dispendido e os recursos obtidos, essa era a complicada matem\u00e1tica que mam\u00e3e precisava equacionar o mais sabiamente poss\u00edvel para garantir sua pr\u00f3pria vida e a perpetua\u00e7\u00e3o de sua linhagem.<\/p>\n<p>Decidiu contornar a lagoa, sempre atenta aos grandes felinos que naquelas bandas habitavam \u2013 n\u00e3o esquecera o destino do parceiro sazonal. Avan\u00e7ava cautelosamente, as grandes orelhas como radares rastreando o entorno, o faro na incessante busca por qualquer coisa comest\u00edvel. Uns parcos vermes sob um tronco podre serviram de aperitivo, mas n\u00e3o foram suficientes para justificar a empreitada. Precisava continuar.<\/p>\n<p>Aproximava-se j\u00e1 do ponto diametralmente oposto \u00e0 sua toca. A dist\u00e2ncia do ninho deixava-a aflita, uma vez que seus filhotes estavam desprotegidos, sujeitos aos ataques dos outros predadores noturnos. Um cheiro a incomodava j\u00e1 h\u00e1 muito nessa perambula\u00e7\u00e3o. Farejou, decidiu seguir o cheiro. Afastou-se um pouco da lagoa e entrou num cap\u00e3o de mata densa, por\u00e9m amassada e remexida. No ch\u00e3o, uma mancha escura com cheiro de sangue&#8230; de on\u00e7a! Chegara ao local do abate, da queda da soberana da lagoa. Vistoriou o local com cuidado, lambeu os capins melados com a seiva da grande felina. Exceto alguns pelos e fluidos, nada sobrara dos despojos da enorme predadora. Nada comest\u00edvel, que era o principal interesse da loba, fora a curiosidade. Nenhum sentimento de tristeza, nenhum medo, nenhum sentimento de vingan\u00e7a pelo macho devorado (no pr\u00f3ximo per\u00edodo reprodutivo viria outro). Quest\u00f5es mais pr\u00e1ticas urgiam. Voltou \u00e0 busca, precisava se alimentar logo e retornar para casa.<\/p>\n<p>Mas no ar ainda havia outro odor que lhe atra\u00eda, que ela reconhecia e estranhava ao mesmo tempo. Uma trilha no mato alto parecia apontar diretamente para sua origem, subindo um pequeno aclive que representava um espor\u00e3o do morro mais afastado. Era a trilha que levava ao covil da on\u00e7a. Aproximou-se cautelosa (a dona daquele lar estava morta, mas \u00e0s vezes os instintos falam mais alto). Olhou os blocos de calc\u00e1rio que, apoiados uns sobre os outros, formavam uma pequena gruta, inesperada ante a grande planura daquele peda\u00e7o de terra entre o Cerrado e o Pantanal.<\/p>\n<p>Entrou na toca com cuidado, esquadrinhando cada pedacinho de ch\u00e3o, de teto, de parede, atenta para perceber com os outros sentidos o que a escurid\u00e3o n\u00e3o deixava enxergar. No fundo da pequena gruta, por\u00e9m, uma presen\u00e7a se acusou atrav\u00e9s de um olhar faiscante: a sucessora da rainha aguardava ansiosa a chegada da m\u00e3e, mas agora estava frente-a-frente com uma desconhecida que poderia ser perigosa. A pequena on\u00e7a deixou de lado a cautela e clamou por ajuda. Seus agudos miados cortavam a noite \u00e0 procura de prote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabia que era em v\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00e3e-loba puxou devagar a ainda inofensiva felina para fora de seu antro. Pensou em seus filhotes, esfomeados. Olhou a filhote em sua frente e lambeu sua a fronte numa ben\u00e7\u00e3o. Pensou em seus filhotes, desprotegidos no ninho. Qual seria o futuro daquela \u00f3rf\u00e3? Talvez os ca\u00e7adores voltassem no dia que j\u00e1 come\u00e7ava a despontar, buscar a filhote e lev\u00e1-la para fazer par com a m\u00e3e, seus corpos empalhados para enfeitar um show de horrores num canto empoeirado de um galp\u00e3o ou largados para apodrecer na beira de um regato&#8230;<\/p>\n<p>A madrugada definhava lentamente e cedia lugar \u00e0 t\u00eanue luz do amanhecer. M\u00e3e-loba agora podia divisar melhor a oncinha \u00e0 sua frente, os olhinhos assustados e lacrimosos, o corpo tr\u00eamulo de movimentos hesitantes, fraco ap\u00f3s tantas horas de jejum. M\u00e3e-loba pensou nos c\u00e3es ladrando, no tiro, no capim melado; pensou na cansativa caminhada at\u00e9 ali. Pensou em seus lobinhos e em voltar para o lar. Gentilmente ergueu a pequena on\u00e7a pelo cangote e, num r\u00e1pido movimento de cabe\u00e7a, lan\u00e7ou-a no ar, abocanhando-a em seguida. Engoliu praticamente numa bocada s\u00f3. Lambeu-se, olhou em volta para se certificar que estava em seguran\u00e7a e correu em dire\u00e7\u00e3o ao lar e suas crias. No momento havia energia para isso.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esse n\u00e3o \u00e9 um texto cient\u00edfico. Foram tomadas liberdades em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento dos animais descritos. Igualmente, o uso de termos humanos aplicados aos animais \u00e9 intencional.<\/strong><br \/>\n<strong>O conto &#8220;A Loba&#8221; foi publicado originalmente no livro: SILVEIRA, Cassiano. Tr3s contos sobre m\u00e3es famintas e outros textos que devoram. Curitiba: Eu-i, 2022.<\/strong><br \/>\n<strong>Instagram &#8211; @siano_silveira<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele dia n\u00e3o havia movimento percept\u00edvel nas proximidades da lagoa. 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