{"id":365337,"date":"2025-09-30T00:30:09","date_gmt":"2025-09-30T03:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=365337"},"modified":"2025-09-25T16:22:57","modified_gmt":"2025-09-25T19:22:57","slug":"o-sr-sam-e-astolfo-o-cavalo-sabio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-sr-sam-e-astolfo-o-cavalo-sabio\/","title":{"rendered":"O Sr. Sam e Astolfo, o cavalo s\u00e1bio"},"content":{"rendered":"<p>Naquela pequena cidade, Tup\u00e3, interior do oeste paulista, a figura mais interessante que conheci em minha primeira inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia foi o Toshimiro, o Sr. Sam.<\/p>\n<p>&#8220;Sr. Sam, o Japa&#8221;, filho de segunda gera\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia nip\u00f4nica -pioneira na coloniza\u00e7\u00e3o daquelas bandas-, Sam outonava pela casa dos 70 anos forte como um touro, alegre e esperto.<\/p>\n<p>Logo raiando o dia, l\u00e1 vinha o Sr. Sam com sua buzina \u00fanica montado na carrocinha de entrega do nosso p\u00e3o sempre quentinho com o inesquec\u00edvel litro de leite, em garrafa de vidro, com era o costume naquele tempo. Eu vivia meus anos de Will Robson\/Perdidos no Espa\u00e7o -no grupo escolar na faixa dos 10 anos- e a minha felicidade era acordar com os passarinhos para pegar carona na &#8220;nave espacial&#8221; e ajudar o sr. Sam nas entregas. E l\u00e1 \u00edamos n\u00f3s pelas ruas ora de asfalto ora de terra batida, saudando o Sol de todas as manh\u00e3s num ritual que lembrado, hoje, parece-me capaz de dominar o passar das horas congelando o tempo naquela eterna inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O Sr. Sam era mesmo incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, secretamente o que me alucinava era o velho cavalo meio manco do japon\u00eas. Astolfo, o seu nome de guerra. Trabalhador incans\u00e1vel, na juventude fora corredor de canchas curtas com velocidades inacredit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Astolfo era bambambam! Na verdade, era o meu campe\u00e3o.<\/p>\n<p>O Sr. Sam se entendia com ele apenas atrav\u00e9s de sussurros e alguns assovios diferenciados.<\/p>\n<p>Tlcok Tlock Tlock, e Astolfo paravam de imediato.<\/p>\n<p>Mais uma entrega de p\u00e3o e leite.<\/p>\n<p>Fiu Fiuuuu, dois assovios, um curto outro longo, e o treinado caval\u00e3o retomava a caminhada da manh\u00e3.<\/p>\n<p>O Sr. Sam um dia me confidenciou:<\/p>\n<p>&#8220;Motinha -era o apelido que herdei de meu pai-, sabia que o Astolfo sabe de tudo; apenas n\u00e3o fala como n\u00f3s. Mas me entende melhor que a Tadashi -esposa de Sam-. E n\u00e3o implica com o Sam, n\u00e9! Ele \u00e9 o melhor amigo do mundo. E tem uma coisa&#8230;presta aten\u00e7\u00e3o&#8230;o Astolfo \u00e9 o \u00fanico que conhe\u00e7o que faz coc\u00f4&#8230;caga certinho enquanto continua andando! Isto \u00e9 in-cl\u00ed-vel, Motinha&#8221;.<\/p>\n<p>O tempo passou, eu fui crescendo e um dia chegou a hora de despedir-me do Sr. Sam. Astolfo, mais velhinho, j\u00e1 tinha, enfim, descansado de tantos anos de amor, dedica\u00e7\u00e3o e trabalho no transporte do p\u00e3o nosso e o leite de cada dia. Com certeza, Astolfo agora estaria correndo pelas pradarias e canchas curtas l\u00e1 do c\u00e9u dos paquidermes. Ele merecia.<\/p>\n<p>Era a hora do meu trem da Alta Paulista; trem que me levaria para Mar\u00edlia, uma cidade maior e com Terceiro Colegial junto com o Cursinho visando o Vestibular.<\/p>\n<p>O Sr. Sam me esperava na pequena \u00e1rea em frente \u00e0 casa montada pelos pais dele h\u00e1 mais de 50 anos tendo \u00e0 frente um delicado jardim oriental. Pequenas arvorezinhas, lago com peixes coloridos, pontes em arcos perfeitas, grama verde e lindos girass\u00f3is como eu jamais veria ao longo de minha vida.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o chegou a hora, n\u00e9 Motinha? Vai dar tudo certo, n\u00e9?&#8221;, disse-me o Sr. Sam.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o longo abra\u00e7o, tenho a impress\u00e3o que ainda ou\u00e7o, hoje, pelos ouvidos d&#8217;alma, a voz fina e fraca do Sr. Sam lembrando-me -em c\u00f3digo- do nosso amado Astolfo e do segredo e maior tesouro do velho corredor de canchas curtas:<\/p>\n<p>&#8220;Mo-ti-nha&#8230;n\u00e3o se esque\u00e7a&#8230;na vida \u00e9 preciso aprender a cag\u00e1 andando&#8230;caga\u00e1 andando, n\u00e9!&#8230;sem parar, Mo-ti-nha!!!!!&#8221;.<\/p>\n<p>Penso que ainda hoje, quase nos meus 70, Sr. Sam, sigo caminhando e tentando apreender a t\u00e9cnica secreta do velho Astolfo.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil, n\u00e9?!<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/pesquisador acad\u00eamico. Vive na Guarda do Emba\u00fa, pequena comunidade pesqueira e tur\u00edstica ao lado de Florian\u00f3polis, litoral de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquela pequena cidade, Tup\u00e3, interior do oeste paulista, a figura mais interessante que conheci em minha primeira inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia foi o Toshimiro, o Sr. Sam. &#8220;Sr. Sam, o Japa&#8221;, filho de segunda gera\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia nip\u00f4nica -pioneira na coloniza\u00e7\u00e3o daquelas bandas-, Sam outonava pela casa dos 70 anos forte como um touro, alegre e esperto. 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